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Assim que chegava ia logo para o seu quarto. Cabelos brancos, enormes, estavam sempre presos num coque. Olhava para a porta, a visão já muito ruinzinha e perguntava: Taci?

Ó minha filha! Dava um sorriso gostoso, desses que só bisavó sabe dá. Estava muitas vezes com seu radinho de pilha encostado ao ouvido, concentrada nas novelas. Mas quando eu chegava e sentava na cama ela começava a contar suas histórias.

Algumas eu já sabia de cor, mas adorava ouvir novamente. Ela parecia reviver. E me diga, tem nada mais gostoso do que deixar que o outro reviva sua vida, seus momentos mais marcantes?

Ah, eu deixava, tantas vezes quantas ela repetisse.A impressão que me dava é que ela tinha sido muito feliz, tal o gosto com que contava os fatos. Pelo que dizia, meu bisavô era um verdadeiro cavalheiro. Lembro bem quando contava dos passeios e um dia me disse que ele não comprava as entradas para o cinema, comprava o “permanente”. Não sei exatamente o que era, mas era algo como comprar as entradas para um mês todo. Bem, devia ser. Ela explicou mas não lembro.

Ela tinha uma latinha de rapé, que chamava de torrado e vivia colocando nas narinas. O cheiro era forte e sempre fora um objeto curioso para mim. Mas sabe que eu nunca tive a ousadia de tocar? Às vezes dava vontade de pedir para colocar em mim só para saber que efeito teria, já que usava todos os dias e parecia ser realmente viciada naquilo, mas eu sempre tive muito respeito pelos vícios peculiares de cada um e também achava que não iria gostar.

Mas a latinha de rapé fazia parte do contexto, do cenário e da admiração que eu tinha por aquela vó de cabelos tão branquinhos e sorriso aberto. Sempre que podia sentava na cama e ficava viajando nas histórias.

Ela ficou doente (nossa, eu nunca tinha visto ela ir a um médico!) e como tinha dificuldades para andar por conta de uma artrose, levaram o médico até lá. Depois da consulta, olhando-o da cabeça aos pés e já que não tinha nada a perder mesmo, falou: sabe que você é muito bonitinho?

Ela era assim, bem humorada e conversadeira. Quando chegava e perguntava como estava ela dizia: tirando a dor nas costas, a vista ruim, a dor nos ossos, e etc, etc, etc, está tudo bem. E ria-se. O riso era sempre um ponto final. Uma vez ela disse que quando passamos a rir das nossas próprias mazelas é sinal de que estamos evoluindo.

Já mais velhinha suas conversas perderam um pouco as estribeiras e um dia, querendo que ela recordasse as que já havia me contado, perguntei: e meu avô vó? Conta mais sobre ele.

E o resumo da ópera foi decepcionante, algo que me fez desconstruir todo o personagem perfeito que criei durante anos:

Era um galanteador. Não valia merrrrrrrrda! (e caprichou tanto no “r” que não esqueço até hoje!) E, naturalmente, caiu na gargalhada.

Obs: A autora é poeta, administradora e editora da Revista Perto de Casa.
http://pertodecasa.rec.br/
Imagem enviada pela autora.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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