1. Meu irmão ficou feliz pela campanha dos parentes que permitiu sua operação de catarata; queria agradecer, mas dizer “muito obrigado” lhe parecia simples demais. Na sua pesquisa, gostou da explicação que diz que “obrigado” é “ficar comprometido com a causa do agradecimento”. Ficou feliz com a campanha, mas continuou insatisfeito porque o sentimento que trazia, na alma, era bem mais profundo que sentir-se agradecido. Preferiu dizer que, no conjunto de seu corpo e de seu espírito, sentia uma imensa “satisfação”!
2. Quando alcançamos um bem necessário e desejado, a vontade é exultar e dizer “te dou graças” em latim (gratia), em espanhol (gracias), em italiano (grazie), em catalão (gràcies), em galego (grazas) … Quem contribui na obra também fica feliz por ter cumprido seu dever. O estranho é ter que dizer “obrigado” como se fosse algo prescrito e imposto e, pior, sentir-se atado e devedor de um favor. A origem disso bem pode ser o vergonhoso resquício escravocrata, forjado e incorporado, em 364 anos de cruel servidão negra.
3. Quando alguém diz “cumpri meu dever”, também traz muitos sentidos, misturados e até contraditórios. Pois, a medida do “dever” depende de como alguém olha o mundo e a vida. O “dever” pode nascer: a) da pressão social; b) do interesse de receber em troca; c) do preceito religioso; d) da pena, da “caridade”; e) da obrigação do laço de sangue; f) da compaixão de colocar-se no lugar de alguém; g) do ato político do companheirismo; h) da solidariedade humana; i) do preceito evangélico da fraternidade.
4. Solidariedade e gratidão são atos gratuitos e unilaterais. Diz a Bíblia “que a mão direita não deve saber o bem que fez a esquerda”. A gratuidade, às vezes, provoca o “é dando que se recebe” e não o “dando para receber”. Mas, a sincera doação nasce da convicção de que “o mundo tem dois campos: o dos que amam a liberdade e apenas a querem para si… e o dos que amam a liberdade e a querem para todos…” Por isso, contribuem para a satisfação e realização das pessoas. “A grande vergonha seria ser feliz sozinho …”
5. Seria romantismo e ingenuidade achar que as ações humanas são sempre puras e conscientes e que não têm segundas e outras intenções. Mas, seria também cinismo não crer que se pode superar o estado de medo, de pena e de interesse, e elevar nosso nível de grandeza e humanidade. O eterno desafio consiste em vigiar os dois cachorros em nós – domar o mau que nos faz mesquinhos e alimentar o bom para orientar nossa mente, nosso corpo e nossos corações. A satisfação, então, vai rimar com a gratuita doação.

29 de julho/18

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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