O nascimento da Igreja Católica Latino-americana tem local, data e identidade própria: Medellin (Colômbia), 1968, ‘opção pelos pobres’. Escrevo ‘nascimento’, pois, antes de 1968, as rédeas da Igreja latino-americana não estavam nas mãos de pessoas que aqui viviam, mas basicamente de europeus, que teleguiavam os destinos dos latino-americanos. Mas na segunda Conferência Geral dos bispos do subcontinente, acontecida na cidade de Medellin em 1968, verifica-se uma autonomia que nunca se manifestara antes.

Isso tem muito a ver com o Concílio Vaticano II, celebrado em Roma entre os anos 1962 e 1965, e que tornou as conferências episcopais nacionais ou regionais, por todo o mundo, mais independentes. Mesmo assim, a dinâmica que resultou no nascimento da Igreja Latino-americana deve ser procurada num acontecimento ocorrido em Roma, quinze dias antes da abertura do Concílio Vaticano II. Numa emissão radiofônica, no dia 11/09/1962, o Papa João XXIII pronuncia a seguinte frase: ‘a igreja é de todos, mas é antes de tudo uma igreja de pobres’.  Essa afirmação, feita sem alarde e como de passagem, constitui a primeira tomada de posição oficial da Igreja hierárquica diante da pobreza em longos séculos. Ao longo da tradição cristã houve, decerto, repetidos casos em que cristãos se comprometiam com os pobres, como São Martinho, São Francisco, São Vicente de Paulo e muitos outros. Mas a Igreja oficial não costumava se posicionar formalmente em relação à pobreza. Ela mantinha silêncio e é por isso que as palavras de João XXIII são tão importantes, pois elas trazem de volta, à consciência eclesial, a fala de Jesus na sinagoga de Nazaré (Lc 4, 18-19):

Um Sopro do Senhor está sobre mim:
Por ele fui escolhido para anunciar uma boa nova aos pobres
Enviado por ele, declaro aos prisioneiros sua libertação
Aos cegos a recuperação da visão
Aos oprimidos o perdão.
Venho declarar publicamente um ano de favor do Senhor.

As palavras do Papa João não causaram um grande impacto sobre os trabalhos do Concílio Vaticano II. Isso se deve ao fato que os 1.500 bispos que veem a Roma para participar do Concílio, não encaravam a pobreza como questão, mas como uma realidade. Realidade, sem dúvida triste, mas inevitável, já que faz parte da história humana. Assim, as palavras do papa dão origem, dentro do Concílio, a uma movimentação discreta, que passa despercebida pela maioria dos bispos participantes. Mesmo assim, algo se mexe, e nessa discreta movimentação se percebem os germes da Igreja Latino-americana, tal qual se manifesta em Medellin.

– Primeiro episódio: um bispo melquita (das igrejas orientais), ao ser convidado ao Concílio, traz consigo ao Concílio o Padre francês Paul Gauthier e a freira carmelita Marie-Thérèse Lescase. Ambos são da Fraternidade Companheiros de Jesus Carpinteiro e trabalham como operários em Nazaré, em meio a árabes. Eles começam a organizar reuniões no apartamento alugado de Gauthier em Roma, e mais tarde no Colégio Belga em Roma. Cardeal Gerlier e Cardeal Lercaro mostram interesse, assim como Dom Helder Câmara, na época bispo auxiliar do Rio de Janeiro. É o ‘grupo dos pobres’, que se reúne regularmente ao longo de toda a duração do Concílio.

– Segundo episódio: o Cardeal Lercaro faz um discurso na Assembleia de 1.500 bispos e declara que o tema da pobreza teria de ser o ‘único tema do Concílio’. É profusamente aplaudido, mas não se percebe seguimento. Não se fala mais em pobreza na Aula Conciliar. A maioria continua pensando em reforma litúrgica, ecumenismo, modelo de igreja, dogma, luta ao comunismo, medo da secularização, luta contra o comunismo etc. Entre os Padres Conciliares, o bloco central, na Grande Basílica, não mostra maior interesse pelo tema da pobreza.

– Terceiro episódio, o mais importante: duas semanas antes da clausura do Concílio, no dia 16/11/1965, aproximadamente 40 bispos, convidados pelo ‘grupo dos pobres’, se reúnem na Catacumba de Santa Domitila e participam de uma missa celebrada pelo bispo belga Himmer. Depois assinam um documento, chamado Pacto das Catacumbas, em que se comprometem a viver de modo pobre. São 42 assinaturas, aproximadamente 15 latino-americanas.

Como escrevi acima, o tema da pobreza não encontra muita ressonância entre os bispos da Europa e da América do Norte que retornam às suas dioceses depois do Concílio, Mas na América Latina, algo diferente acontece. Há um grupo de bispos que colocam em prática o que prometeram no Pacto das Catacumbas, em 1965. Uns exemplos: em Recife, Dom Helder troca o Palácio dos Manguinhos pela sacristia da Igreja das Fronteiras; em São Paulo, Dom Paulo Evaristo vende o Palácio Pio XII e constrói centros comunitários com a renda da venda; em Crateús, Dom Fragoso deixa o ‘palácio’ (que já não é grande coisa) por uma casa na periferia da cidade; em João Pessoa, Dom José Maria Pires vai morar numa casinha perto do Convento histórico dos franciscanos; etc. Há bispos que fazem minirreformas agrárias em terras de suas dioceses, como Dom Tiago Cloin, Dom Delgado e Dom Helder. Outros doam prédios ou intervêm em ações militares contra camponeses. Que se mencione aqui o martírio do bispo argentino Angelelli que, após uma intervenção numa expulsão de camponeses em La Rioja, é morto numa emboscada planejada por militares.

É desse modo que o tema da pobreza ocupa chama a atenção dos participantes da Conferência Geral dos bispos latino-americanos reunida em Medellin, Colômbia, em 1968. É acolhido com entusiasmo e é desse entusiasmo original que nasce a Igreja Latino-americana, que é a única, no universo católico, a assumir oficialmente o tema da pobreza levantado pelo Papa João, como se evidencia em declarações de princípio reafirmadas ao longo de quatro sucessivas Conferências Gerais do Episcopado latino-americano: Medellín 1968; Puebla 1979; Santo Domingo 1992; Aparecida 2007. Para não cair aqui numa euforia ‘triunfalista’, é preciso dizer que a formulação ‘opção pelo pobre’, incondicional em Medellin 1968, fica ‘amansada’ com o tempo, o que mostra resistência, muitas vezes passiva, por parte da maioria. Passa-se de ‘opção pelos pobres’ para ‘opção preferencial pelos pobres’ (em Puebla) e ‘opção não exclusiva nem excludente’ (em Aparecida). Aqui se verifica uma conquista definitiva: o lema ‘opção pelos pobres’, expresso em Medellin, não é uma palavra retórica vazia, como se verifica no surgimento de uma geração excepcional de bispos, que podem ser chamados de ‘Padres da Igreja Latino-americana’. Uma geração tão excepcional, segundo o teólogo José Comblin, só aparece de mil em mil anos na história da Igreja: Mons. Proaño no Ecuador (o bispo dos indígenas andinos), Mons. Larrain no Chile (o bispo da nova reforma), Mons. Mendez Arceo em Cuernava, no México (o bispo da Missa Panamericana), Mons. Samuel Ruiz em Chiapas, no México, (que fala seis línguas indígenas de Chiapas), Mons. Romero em El Salvador (o bispo do ‘não matarás’), Mons. Girardi em Guatemala, os bispos Helder Câmara, Valdir Calheiros, Antônio Fragoso, Pedro Casaldáliga, José Maria Pires, além dos Cardeais Aloísio Lorscheider e Paulo Evaristo Arns, todos no Brasil. São bispos que simbolizam uma guinada histórica da Igreja católica universal. Estamos acostumados a chamar os intelectuais do primeiro milênio da tradição de Jesus de ‘Padres da Igreja’. A Igreja Católica Latino-americana dispõe hoje de uma Patrologia que pode ser comparada à clássica Patrologia, representada por Atanásio, Basílio, Gregório, Crisóstomo, Agostinho, Jerônimo, Ambrósio, Dámaso e Hilário. Hoje, na América Latina,  dispomos de textos de Romero (El Salvador), Proaño (Ecuador), Angelelli (Argentina), Samuel Ruiz (Chiapas, México), Mendez Arceo (Cuernavaca, México), Câmara (Recife), Larrain (Chile), Girardi (Guatemala), Valdir Calheiros (Volta Redonda), José Maria Pires (João Pessoa), Casaldáliga (Conceição do Araguaia), Fragoso (Crateús), Lorscheider (Fortaleza), Arns (São Paulo), Krautler (Xingu), Balduíno (Goiás Velho). Todos nos deixaram textos, longos ou curtos que merecem ser lidos, publicados e estudados a fundo, com a mesma aplicação e o mesmo respeito com que lemos a antiga Patrologia.

O documento mais importante dessa Patrologia latino-americana é constituído pelas 2.110 Cartas Circulares de Helder Câmara escritas entre 1962 e 1976. Dessas Cartas Circulares, até agora (2016), foram publicadas 13 Tomos, desde a primeira, redigida na noite entre 12 e 13 de outubro de 1962. A última, publicada até hoje, data da noite entre 24 e 25 de janeiro de 1970. O bispo redigiu essas cartas na vigília noturna que ele manteve desde os tempos de sua ordenação, entre aproximadamente uma hora da madrugada até duas horas ou mais. Prevê-se para os próximos anos a publicação completa (com mais quatro ou cinco tomos, completando uma coleção de aproximadamente 18 Tomos). Apresento aqui uma leitura superficial das primeiras Cartas, em que o tema da pobreza aparece em alto relevo.

A primeira Carta, que conta a abertura do Concílio Vaticano II (12-13/10/1962), se inicia com uma frase enigmática: ‘O Concílio vai ser dificílimo’. Por que? Só na nona Carta (21/10) se encontra uma explicação: os bispos em Roma não aprofundam o tema da pobreza no mundo. Enquanto Dom Helder sente desalento ao observar como os bispos andam preocupados com a liturgia, a disciplina eclesiástica, o comunismo, o secularismo, o ateísmo, os seminários, o ecumenismo, a organização das dioceses, etc. ele sente certo alento quando verifica que, mesmo assim, um texto circula entre os bispos. São as ‘Réflexions nazaréennes pour le Concile’, da autoria do já mencionado Padre Paul Gauthier. De qualquer modo, o tema da pobreza aparece em Roma, pensa Helder Câmara. Na Carta 12, de 24/10, ele escreve que está procurando pessoas que possam levar adiante a questão da pobreza na Aula Conciliar. Mas as pessoas que ele consegue contatar, como o Cardeal Suenens, o Cardeal Lercaro, o Padre Congar, o Padre Houtart, alegam a dificuldade em fazer entrar em pauta oficial esse tema, já que os bispos, em geral, pensam em outros assuntos. Em seu desalento, o ‘bispinho’ Helder recorre a Monsior Francisco (em todas as suas cartas, Helder se refere a São Francisco por meio do nome ‘Monsior’). É com Monsior que ele ‘sonha em ver a Igreja enfrentar a luta pelos humildes e pobres’ (ibidem).

Penso que existe aí um desafio hoje, 17 anos após a morte de Helder Câmara. As Cartas Circulares estão aí, para serem atenta e minuciosamente lidas, pois contêm sugestões importantes e atuais, para a Igreja na América Latina. Essas Cartas estão sendo publicadas pela Editora do Estado de Pernambuco (CEPE). Veja: Câmara, H., Circulares conciliares, Volume I, Companhia Editora de Pernambuco, Recife, 2009, 3 tomos; Volume II, Circulares interconciliares, CEPE, Recife, 2009, 3 tomos; Volume III, Circulares pós-conciliares, CEPE, Recife, 2011, 3 tomos; volume IV, CEPE,
Recife, 2014, 4 tomos (em total, são 13 tomos publicados até hoje).

O nascimento da Igreja Latino-americana traz consigo alguns questionamentos, entre os quais destaco, em textos separados, três:
– questionamentos em torno da pobreza;

– questionamentos em torno do ritualismo;

– questionamentos em torno do sacerdócio.

Obs: O autor : “Nasci em Bruges, na Bélgica, no ano de 1930. Estudei línguas clássicas na universidade de Lovaina e teologia em preparação ao sacerdócio católico, entre 1951 e 1955. Em 1958 viajei ao Brasil (João Pessoa). Fui professor catedrático em história da igreja, sucessivamente nos institutos de teologia de João Pessoa (1958-1964), Recife (1964-1982), e Fortaleza (1982- 1991). Sou membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA), fui coordenador para o Brasil entre 1973 e 1978, responsável pelo projeto de edições populares entre 1978 e 1992, e entre 1993 e 2002 responsável pelo projeto “História do Cristianismo”. Entre 1994 e 1997 fui pesquisador visitante no mestrado de história da universidade federal da Bahia. Durante esses anos todos administrei cursos e proferi conferências em torno de temas como: história do cristianismo; história da igreja na América Latina e no Brasil; religião do povo. Atualmente estou estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.”

Explicação do painel(foto)

O autor é o primeiro à direita.

“O painel do fundo, é um quadro desenhado pela Irmã Adélia Carvalho, salesiana (Filha de Maria Auxiliadora) de Recife e ‘artista da caminhada’, que tem muitos trabalhos na linha de uma Igreja libertadora e colabora em diversos programas de conscientização pela arte.
O tema do quadro pode ser descrito assim: ‘a proposta cristã na confusão do mundo em que vivemos’.”



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