Djanira Silva 1 de agosto de 2018

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São tantas as lembranças e esperanças. Tantos os momentos acumulados dentro da alma como objetos dentro de uma gaveta. Nem sei se alguém poderá saber quando e onde pensou pela primeira vez. Tento. Chega-me o passado fingindo ser presente. Sinto-me como ave perdida sem referência de pouso. Nunca sei onde estou de onde vim nem para onde vou. Estaciono sempre, em lugares desconhecidos. Busco o fio da última história que tentei escrever. Não o encontrando, invento outras e mais outras e assim a enxurrada me faz lembrar das grandes remarcações nas lojas quando a multidão se aglomera aos empurrões e gritos, cada um querendo chegar primeiro. Gera-se a confusão e não consigo levar a cabo as remarcações que tento fazer.
E, de repente, chove. O cheiro das plantas e da terra molhada, leva-me a algum lugar onde reconheço cada pedaço de chão. Foi lá que vi o meu primeiro sol, minha primeira lua, ouvi o canto dos pássaros e senti, pela primeira vez, o sabor de pitangas e manguitos maduros. Vi minha mãe colher goiabas, fazer doces e geléias, vi o mamoeiro disputar com a mangueira a luz do sol. Foi ali que o tempo gravou a tatuagem de uma história que jamais será apagada nem esquecida. Agora vejo que o pé de pitanga não era tão grande quanto me parecia. Meu olhar criança o tornava gigante. No quintal, além, da pitangueira, dos mamoeiros, mangueiras e pés de carambola, um forno onde minha mãe assava perus e bolos de festa. Servia, também, de esconderijo para escarparmos dos castigos ou para assustar Sinhá Maria. Junto do galinheiro um tanque de pedra onde os bichos bebiam água e onde meu irmão afogava pintos e patos, ainda implumes, impondo-me silêncio sob a ameaça de também me afogar. Este foi o meu primeiro e grande medo. Ele era um pequeno homem, assim meu pai o chamava, fazendo-o acreditar que aos homens eram dados todos os direitos. Tola, temia a prepotência deles. Assim como temia as sombras projetadas nas paredes do quarto, pela luz da lamparina que alumiava o Santuário. As sombras tomavam formas estranhas. A claridade do dia afastava meus medos e, ao acordar corria para o quintal onde o mundo era meu.
Lá fora me esperavam a escola, o colégio e, finalmente o trem que me trouxe até aqui. Como uma cobra que troca de pele, troquei de mim várias vezes. Fui criança, adolescente, mulher madura.
Nos tumultos do mundo findou o meu silêncio. Deixei para trás o cheiro da minha terra, o ciciar macio do vento e o azulado de um céu onde as nuvens escreviam histórias – das praças, do caramanchão florido, dos jardins de d. Argentina e d. Anélia que perfumavam a subida da rua quinze ou enchiam de cores o grande casarão em frente à Praça ao som dos acordes do piano de Leonorzinha.
Aqui, distante de lá, tudo é complexo. Parece um mundo sem começo e sem fim. Já não mais as serras. Agora, é o mar e ele me assusta. Não posso caminhar sobre ele como caminhava na serra. As ruas recendem a óleo queimado álcool e gasolina. Buzinas, ruído de motores acelerados, freadas bruscas, e palavrões.
Todos os dias, espero o anoitecer para novamente encontrar o silêncio das lembranças.

Obs: A autora é poetisa, escritora contista, cronista, ensaísta brasileira.

Faz parte da Academia de Artes e Letras de Pernambuco, Academia de Letras e Artes do Nordeste, Academia Recifense de Letras, Academia de Artes, Letras e Ciências de Olinda, Academia Pesqueirense de Letras e Artes , União Brasileira de Escritores – UBE – Seção Pernambuco
Autora dos livros: Em ponto morto (1980); A magia da serra (1996); Maldição do serviço doméstico e outras maldições (1998); A grande saga audaliana (1998); Olho do girassol (1999); Reescrevendo contos de fadas (2001); Memórias do vento (2003); Pecados de areia (2005); Deixe de ser besta (2006); A morte cega (2009). Doido é quem tem Juízo (2012); Saudade presa (2014); O Sorriso da Borboleta (2018)
Recebeu vários prêmios, entre os quais:

Prêmio Gervasio Fioravanti, da Academia Pernambucana de Letras, 1979
Prêmio Leda Carvalho, da Academia Pernambucana de Letras, 1981
Menção honrosa da Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1990
Prêmio Antônio de Brito Alves da Academia Pernambucana de Letras, 1998 e 1999 
Prêmio Vânia Souto de Carvalho da Academia Pernambucana de Letras, 2000
Prêmio Vânia Souto de Carvalho da Academia Pernambucana de Letras, 2010
Prêmio Edmir Domingues da Academia Pernambucana de Letras, 2014



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