Rastrear ou não o câncer inicial de próstata, através da dosagem do PSA e do toque retal? Operar ou não os casos considerados positivos? Os malefícios superam ou não os benefícios da avaliação sistemática? Em verdade, esses dilemas nunca deveriam ter existido porque, na assistência à saúde, primeiro é necessário comprovar os benefícios da intervenção proposta. Se existirem, passaremos a confrontá-los com possíveis maleficências e custos para produzir tal beneficência, análise esta que precede sua utilização. Na temática em tela, apesar dos benefícios nunca terem sido cientificamente comprovados, a relevância e magnitude do problema (entre muitas outras possíveis explicações) levou a uma inversão científica e ética, que culminou numa “política de saúde” que, comprovadamente, deixa graves seqüelas físicas, emocionais e sociais de curto, médio e longo prazo (com destaque para a impotência, incontinência urinária e agravos emocionais). Um dos argumentos para a sua implementação foi a crença (quase dogmática) de que “um diagnóstico e um tratamento precoce (prevenção secundária) é sempre benéfico” o que, infelizmente, ainda não é cientificamente verdadeiro para muitas patologias, inclusive oncológicas. Apesar das evidências em contrário, muitos dos defensores dessa “política” asseveravam que só mudariam de posição após a realização de grandes, longos e custosos estudos (conhecidos como megatrials) quando então as “dúvidas” seriam dissipadas. Nesse longo interregno de espera, milhões de homens foram submetidos ao rastreamento e a tratamentos cirúrgicos, radioterápicos e hormonais sem nunca terem sido informados das incertezas sobre os benefícios e das certezas sobre os malefícios. No Brasil, se contarmos apenas a partir do documento de consenso de 2002 do Ministério da Saúde (que não aconselhava o rastreamento e alertava para a necessidade de informar aos pacientes sobre os riscos envolvidos e as dúvidas sobre a efetividade do tratamento em estágios iniciais), centenas de milhares de brasileiros foram submetidos a tratamentos sem terem tido a chance de exercitar adequadamente seu livre arbítrio e sua autonomia bioética por falta de informações. Em 2009 os resultados “tão esperados”, tanto do estudo americano quanto do europeu, foram publicados e os dados foram extremamente negativos para os defensores da hipótese “de que o diagnóstico precoce do câncer de próstata, e uma intervenção subseqüente, muda a evolução da doença e a mortalidade específica”. Em maio de 2012, após revisão da literatura e ampla discussão com a comunidade científica, o US Preventive Services Task Force (USPSTF), organização independente e de referência em prevenção e medicina baseada em evidências, e que desenvolve recomendações balizadoras para clínicos e sistemas de saúde nos Estados Unidos, agraciou o rastreamento do câncer de próstata com o grau D, isto é, o pior grau que uma intervenção em saúde pode obter. Isto significa “não rastreie homens que não tenham sintomas da doença”, indo ao encontro (porém de maneira mais contundente) de importantes instituições, como o Instituto Nacional do Câncer (INCA), a Organização Mundial de Saúde,o National Cancer Institute e o CDC dos EUA, a Canadian Task Force on Preventive Health Care, o National Institute for Health Research do Reino Unido (entre outras respeitabilíssimas instituições ao redor do mundo). Com este posicionamento do USPSTF fica encerrada uma das mais tristes páginas da história da medicina e é prudente que, a partir de agora, todos aqueles que possam estar envolvidos com o rastreamento do câncer inicial da próstata e de uma intervenção subseqüente tomem todos os cuidados para que não venham a sofrer processos éticos, civis e criminais por parte de pacientes, familiares ou entidades/instituições.

Publicado no Jornal do Commercio de Pernambuco, em 13/07/12, página 10

Obs: O autor, Prof. Dr. Aurélio Molina, Ph.D pela University of Leeds (Inglaterra) é membro das Academias Pernambucanas de Ciências e de Medicina, professor da UPE, Coordenador do Programa Ganhe o Mundo

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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