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Nota prévia: Estive a remexer em gavetas de memórias antigas e, de repente, reencontrei o texto que segue e que reproduz a conferência por mim pronunciada no Recife, no auditório da FAFIRE, na noite de 24 de Novembro de 1989, momento em que o Instituto de Teologia do Recife (ITER) era desautorizado pelo Vaticano, com base em denúncias, fruto da má vontade, da arbitrariedade ditatorial e da imaginação perversa de seus adversários, encabeçados por Dom José Cardoso Sobrinho, mal afamado sucessor de Dom Helder Camara no Arcebispado de Olinda e Recife e, pasmem, eleito por seus pares presidente do Regional Nordeste II da CNBB. Há um dito eclesiástico que assim reza: “Vem de Roma o que vai a Roma”. As forças adversárias ao admirável ministério de Dom Helder e à tradição de mais de trinta anos da Igreja no Nordeste, sobretudo com os bispos da geração do Concílio Vaticano II, tinham saído vencedoras. Não sei se, por sentimentos de nostalgia ou se porque achei que o texto ainda guarda alguma atualidade, resolvi publicá-lo depois de tantos anos. É que parece que as “perspectivas” continuam as mesmas e, em certos aspectos, segundo algumas pessoas que analisam a realidade, até ficaram piores. (Foram feitas algumas pequeninas correções, sobretudo no que diz respeito à formulação inclusiva de masculino e feminino).

1. Sentimentos antes de Ideias

Antes de declarar ideias, permitam-me que lhes fale de sentimentos.

O primeiro, é de profunda emoção. Por mais de uma vez, tenho comparecido a este mesmo auditório para colaborar nestas noitadas de estudo promovidas pelo Instituto de Teologia. Hoje, é-me concedida a honra de pronunciar a última conferência pública quando o ITER (Instituto de Teologia do Recife) está a encerrar a primeira etapa de sua existência após vinte e um anos de atividade. É com profunda emoção que me aproximo de vocês, esta noite. Afinal, desde 1973, minha vida está entrelaçada com a vida do ITER, onde tenho atuado como professor e, por vários anos, como coordenador dos estudos.

Não sei se escutaram bem. O ITER encerra, estes dias, a primeira etapa de sua existência. O ITER não se fecha. ITER em latim, quer dizer caminho. E ninguém tem poder de encerrar a caminhada de itinerantes. Caminho é o antigo nome da Igreja cristã,

O ITER continuará a viver em todas aquelas pessoas que por ele têm passado e em muitas das quais seu espirito permanece e toma corpo em novas práticas democráticas e de ensino; na interdisciplinaridade de abordagem do real; na constante atenção aos desafios da história nordestina; na crítica aos modelos vigentes na sociedade e na Igreja; na autocritica permanente da própria prática.

O ITER continuará a viver nas instituições que, a partir do próximo ano, passarão a garantir o exercício de sua atividade da formação intelectual de presbíteros diocesanos, de religiosos(as), de leigos e leigas: O Seminário Arquidiocesano da Paraíba, em João Pessoa, e a Escola Teológica da Ordem Franciscana em Olinda. Escolas que haviam interrompido suas atividades quando da fundação do ITER e que agora reabrem suas portas. Também no Instituto Salesiano do Bongi que se dispõe e acolher nossos estudantes dos primeiros anos

O ITER continuará vivo com um Curso de Teologia nesta cidade do Recife; com a publicação periódica de “Perspectivas Teológicas Pastorais” e com estas noites de estudos e debates. O admirável grupo leigo de “Igreja Nova” é nosso aliado nessa empreitada. Pois quem teria poder de fechar a caminhada de itinerantes?

O segundo sentimento é de esperança. Nossa fé cristã é a fé de homens e mulheres que têm uma certeza: experimentam, no coração da vida humana, a presença de uma energia salvífica que não nos permite esmorecer. É a fé de um povo de escravos que, diante do impasse do mar e do Faraó, escuta a ordem de Deus a Moisés: “Diga ao povo que dê um passo adiante”. E é esse passo adiante que abre a passagem da escravidão à liberdade, e com isso rasga o Futuro. É a fé que nos faz escutar a palavra do Crucificado: “Eu venci o mundo”. “É esta a vitória que vence o mundo: a nossa fé”. Do aparente fracasso do Crucificado brota a coragem da comunidade. Escravos e escravas em liberdade, comunidades capazes de resistir: eis os sinais históricos da presença e da energia do Deus vivo que ressuscita os mortos e faz ser aquilo que os poderosos insistem em dizer que não é.

Nossa fé é aquela certeza que nos faz cantar com Thiago de Melo “Faz escuro, mas eu canto”. Ou cantar com Dom Helder: “Quanto mais escura é a noite, temos a certeza de que carrega em seu seio a madrugada”.

Finalmente, na crise, no conflito e na perseguição, não podemos esquecer que aqueles(as) que não concordam conosco, tentam impedir-nos e até nos perseguem, são nossos irmãos e irmãs em humanidade. Em todos e todas nós estão vibrando intensamente, nesta hora, sentimentos de tristeza. Mas não nos é permitido nem amargura nem ressentimento. O que nos faz semelhantes ao nosso Deus são sentimentos de amor e de perdão. No fogo mais quente deste combate não podemos perder-nos. Soubemos até que altos dignitários da Igreja chegaram a reunir-se e beber em taças de champanhe para comemorar aquilo que para nós é motivo de profunda tristeza. Não é assim que procedem os cristãos. No sofrimento e no conflito, a pureza de nosso coração é desafiada pela capacidade de amar e perdoar.

Dom Helder é um grande contador de histórias. Certa vez falava-nos de seu encantamento pela figura do padrinho Cicero. Seminarista em férias, fora ao Juazeiro fazer propaganda do jornal católico da Arquidiocese de Fortaleza. Apresentou-se ao padrinho Cícero e disse-lhe: “Sem suas palavras o povo não se sensibilizará com nenhuma propaganda”. E o padrinho lhe respondeu: “Redija o texto da propaganda e me traga para assiná-lo”. Qual não foi a surpresa: quando o texto estava pronto o Padrinho Cícero assinou-o sem lê-lo. Olhou para o jovem Helder e lhe disse: “Esse jornal só faz me atacar e nunca me reconheceu o direito humano de defesa. Mas este gesto é para você, que é jovem e quer ser padre, para você aprender que no coração de um cristão, e muito mais ainda de um padre, não pode caber uma gota de ódio sequer”.

2. Algumas tendências presentes na sociedade de hoje e que interpelam as Igrejas

O pluralismo cultural: a Igreja é chamada a abandonar qualquer sentimento totalitário e autossuficiente, e a situar-se como parceira junto aos diversos movimentos e correntes sociais, assumindo a construção do mundo que é a tarefa comum. A Igreja já não pode pensar-se como único centro a impor seu sistema de normas ao conjunto da sociedade.

A democratização: a Igreja é chamada a romper com os procedimentos autoritários de tipo monárquico (como a que reveste juridicamente o papado) ou aristocrático (como a que reveste o episcopado) e abrir-se ao novo estilo democrático de convivência social que vem progressivamente marcando a sociedade desde a Resolução Francesa, há 200 anos.

A planetarização da vida social e paradoxalmente o acirramento da luta de classes; as Igrejas cristãs são chamadas a dar testemunho da comunhão e da unidade. Exige-se cada vez mais das Igrejas um comportamento radicalmente ecumênico entre si e na sua relação com as outras forças sociais (religiões, expressões culturais, movimentos políticos etc).

A secularização, ou pelo menos a nova maneira de conceber a expressão religiosa da fé, menos sacralizada, não ritualista e menos concentrada numa elite que pretenda encarnar o papel de mediadora e, consequentemente, de controladora do poder sagrado. A Igreja é chamada a configurar-se de maneira mais comunitária como uma rede articulada de comunidades e de ministérios, assentados todos na comum dignidade que nos é conferida pela fé e o batismo. A teologia é chamada a ser menos eclesiástica ou mesmo eclesiocêntrica, e a preocupar-se com os grandes problemas humanos. A liturgia é chamada a ser menos sacral e mais comunitária, mais próxima do estilo de “Igreja doméstica”.

O despertar e a ascensão das massas populares: as Igrejas são chamadas a assumir as causas populares e a encontrar os canais concretos de articulação com os movimentos sociais. Ou seja, as Igrejas que, tradicionalmente, têm feito política em aliança com as classes dominantes, são chamadas a redefinir-se politicamente e assumir o rosto dos empobrecidos. Em vez de apelar a que os poderosos se voltem “benevolentes” para os pobres – que é a tônica prevalente no discurso exortativo eclesiástico – as Igrejas são chamadas a participar ativamente da luta dos oprimidos, inclusive pelo fato de que a imensa maioria de seus membros são os próprios oprimidos.

O despertar de setores especialmente reprimidos na sociedade, como o povo negro, os povos indígenas, homossexuais, prostitutas, crianças: enquanto povo de Cristo somos chamados(as) a contradizer as discriminações vigentes e a testemunhar a ternura de Deus que a todos(as) acolhe e em todos(as) reconhece a dignidade de filhos e filhas, herdeiros e herdeiras do mundo. Somos convocados(as) a fortalecer a luta pelo reconhecimento do direito de ser diferente, rompendo-se qualquer sentimento de superioridade e aceitando de coração aberto “carregarmos os fardos uns dos outros”.

A luta de mulheres e homens pela afirmação da igualdade e da liberdade da mulher: as Igrejas são chamadas a romper com preconceitos milenares em relação ao corpo, ao sexo, à mulher. A revisar suas estruturas, sua linguagem e seus símbolos, fortemente marcados pelo machismo, pelo desprezo do corpo, pela repressão da dimensão erótica e sexual do ser humano e pela dominação sobre a mulher. Cada vez é mais forte a exigência de a mulher partilhar com os homens a palavra e o poder da Igreja.

Estes, os desafios.

3. Agora, a contradição que vivemos:

O período recente da vida de nossa Igreja deixou marcas bem vivas em seu rosto.

A opressão do povo pela ditadura levou os bispos e assumir sua defesa. Fizeram-se tribunos dos direitos humanos e por gestos e palavras saíram em defesa de prisioneiros(as), de pessoas torturadas e de gente injustiçada em geral. Essa postura atraiu sobre o episcopado o respeito de diversos segmentos da sociedade e a CNBB foi-se tornando na prática a única expressão representativa da Igreja católica. O episcopado hipertrofiou-se e tende a inibir outras expressões e iniciativas. A Igreja Católica no Brasil ficou sendo de fato marcadamente uma Igreja episcopal.

O povo impedido pela ditadura de reunir-se em organizações livres ocupou o espaço das Igrejas. Multiplicaram-se as Comunidades Eclesiais de Base e nelas os pobres começaram a experimentar a nova consciência de ser Igreja e a sentir a intima relação que existe entre fé no Evangelho e engajamento social e politico. A consciência de pertença eclesial deixou de ser um sentimento de elites restritas e tornou-se algo de que se apropriaram bases populares.

Aqui se pode identificar uma diferença fundamental entre a crise por que passa a Igreja hoje e a crise vivida pela Ação Católica nos anos 60. A Ação Católica, mesmo quando se tratava de “movimentos” em camadas populares, eram sempre pequenos grupos de militantes. JAC, JOC, ACR, ACO constituíam-se de grupos de elite cristã em meio ao ambiente camponês e operário. Foram realizações de Igreja típicas de uma época em que o laicato apenas começava a reconquistar espaço na Igreja católica. Carregavam em si a promessa do futuro e eram fermento de algo que só hoje percebemos com mais nitidez. O que atualmente sobrevive desses movimentos sofreu profunda renovação a partir do Concilio Vaticano II, com a explicitação de preciosas intuições que, aliás, já estavam latentes e implícitas desde sua fundação. Mas, à época, achavam-se enquadradas dentro de limites bastante precisos, limites impostos pela estreita visão e o rígido sistema hierárquico e clerical da Igreja Católica.

Agora, a base popular se ampliou no espaço eclesial. Agredir a Igreja dos pobres já não é bater de encontro a pequenos grupos de militantes. É chocar-se com um fenômeno que já tem as formas de povo. São movimentos e comunidades, é toda uma rede de articulação que já não é tão fácil aniquilar, inclusive porque chega a transbordar do espaço católico por suas ramificações ecumênicas e por intimas relações com o movimento popular. Ameaçar um teólogo, uma teóloga, ou alguém que exerce a prática de militante em vista da renovação da Igreja e da sociedade, ou até mesmo ameaçar ou reprimir um grupo já não é tão decisivo como antes, pois estes e estas são hoje expressão de algo bem maior e que os transcende de muito.

Ao ocupar espaço na Igreja, o movimento popular suscitou o surgimento de diversos serviços de formação, de ação e de articulação missionária com duas características bem nítidas: a autonomia e o ecumenismo. Nasceram organismos como o CIMI, a CPT, o CEBI, a Diaconia, a CESE e tantos outros.

Foi-se dando também uma nova consciência do que é a Igreja. Ou seja, nossa eclesiologia tem mudado qualitativamente. Na crise entre o episcopado brasileiro e a Ação Católica, encabeçada por bispos como Dom Vicente Scherer e Dom Eugênio Sales, e nos anos 60, era fácil a um bispo desautorizar o militante ou até o movimento declarando-os como não sendo Igreja. Quer dizer, reconhecia-se como direito exclusivo do bispo individual autorizar ou desautorizar a pertença à Igreja e o exercício da missão. Dominava, mesmo após os ensinamentos de Pio XII sobre o laicato, a imagem de que o cristão leigo agia sob mandato da hierarquia. O Concílio Vaticano II fez soprar outros ares e levou adiante o conceito e sentimento de “autonomia” que se insinuava desde Pio XII. A consciência de ser Igreja aparecia marcada por novos traços:

Antes de tudo, a Igreja é missão em favor do mundo. Os cristãos já não se compreendem como um grupinho de eleitos, separados para se preservarem da corrupção do mundo. A Igreja já não se pensa mais uma sociedade perfeita autossuficiente ao lado da sociedade humana secular. Sente que a sua finalidade está para além de si mesma. Volta a contemplar os caminhos de Jesus e redescobre que seu próprio ser é missão a serviço do “Reino”, uma palavra eminentemente de caráter “político”, como se vê claro na Bíblia. Define-se no Concílio Vaticano II como “sacramento”, ou seja, “sinal e instrumento da união com Deus e da unidade do gênero humano”. Isto é, expressão de e serviço àquele processo que está fermentando no coração da História. Não se fala mais de Igreja e mundo, mas de Igreja em o mundo e para o mundo. Disto é claro testemunho a Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo de Hoje, intitulada significativamente como “Gaudium et Spes”, alegria e esperança.

-Disso resulta, naturalmente, a relativização das estruturas eclesiais. A Igreja, sua vida e suas questões internas já não devem ser para o povo cristão seus únicos pontos de referência. As grandes questões do mundo, os problemas de natureza societária invadem nosso espaço doméstico e fazem a comunidade alargar seus horizontes, “suas tendas”, como dizia o Profeta Isaías. Novas referências começam a marcar a prática da vida cristã: as estruturas sociais, a luta política, a luta ideológica. A palavra do magistério eclesiástico já não será a única orientação a ser escutada. Há outras palavras a atender: as análises sociais, as decisões partidárias, as urgências das lutas sociais etc. A ortopraxis começa a ser também critério para julgar da fidelidade, ao lado da ortodoxia. Às reuniões da comunidade acrescentam-se ou às vezes substituem-se as reuniões da organização de bairro, do sindicato do partido…. A Igreja já não é o único espaço que abriga o povo e para certas tarefas e certas lutas será vista como não sendo o lugar adequado.

O Novo Testamento e o estudo da história vão fazendo aprender, sempre com mais clareza, que as estruturas eclesiásticas não nasceram tais quais da instituição de Jesus. Jesus é o fundamento da Igreja. Esta só tem sentido enquanto continuadora de sua mesma missão salvífica em favor do mundo. Mas as formas concretas que a missão vai assumindo em instituições e estruturas eclesiásticas, já desde o tempo dos Apóstolos, são resultado do processo histórico, das necessidades concretas e dos condicionamentos de cada época.

Da hostilidade e da indiferença passa-se à construção do Ecumenismo. Não como tática momentânea, mas como estratégia permanente, exigida pela própria fé no Reino de Deus, que tem suas fronteiras para além da Igreja. Se o que importa acima de tudo não são as estruturas eclesiásticas, os particularismos cedem face à descoberta de que a missão de todos os cristãos é uma só: testemunhar no mundo o serviço de Jesus como expressão do Amor de Deus pela humanidade. A tarefa de manifestar o Reino pela força do Espirito de Deus passa a ser assumida como vocação comum. A “Diakonia” de Cristo reúne de novo o povo cristão. E este apelo ressoa com especial força no momento em que problemas comuns envolvem toda a humanidade, e inclusive se agravam, forçando a que o destino humano seja encarado como obra solidária. Como se disse antes, a planetarização da vida social e o simultâneo acirramento da luta de classes exigem mais ainda de nós o testemunho da unidade, como obra em construção e como serviço à própria humanidade.

O Concilio Vaticano II nos ensinou que a Igreja é o Povo de Deus e é comunhão fraterna. Nela todas as pessoas têm a mesma dignidade de filhos e filhas de Deus e, pela fé e o batismo, participam da mesma missão de Jesus. Seu regime jurídico tem de traduzir historicamente essa dimensão mais profunda de sua realidade teologal, que constitui para o mundo uma boa-nova, a saber, é possível viver concretamente na história a tentativa de ser irmãos e irmãs. É a bonita aventura possibilitada pelo espirito novo derramado no mundo por Jesus. É claro para nós que, em cada época, deve-se operar uma renovação, um ”aggiornamento” como dizia o saudoso Papa João, isto é, acertar o passo com o dia de hoje, para que se manifeste, da forma mais adequada possível, o ser da Igreja. As estruturas de poder nascidas à imagem do Império Romano ou, sobretudo, forjadas pela sociedade feudal não respondem mais às exigências da consciência moderna. A partir da Revolução Francesa e em tempos de Revolução Social, já não é mais possível aceitar que prevaleçam estruturas de monarquia absoluta ou aristocráticas de poder. Nenhuma estrutura jurídica pode ser absolutizada por si mesma. Pois jamais poderá conter adequadamente as relações de poder presentes no mistério da Igreja: o poder de Cristo (cristocracia) e o poder do Espirito (pneumatocracia). Por isso, de acordo com os condicionamentos concretos, deve-se buscar a expressão jurídica mais conforme à sensibilidade social de cada tempo. Por que os mecanismos democráticos seriam menos apropriados que os da monarquia e os da aristocracia para expressar historicamente a realidade misteriosa do poder de Cristo na Igreja? São todos igualmente regimes jurídicos humanos, com suas vantagens e limites, instrumentos sempre igualmente inadequados, jamais coincidentes com a realidade teologal;

Cada vez é mais evidente que a missão é essencialmente política, trata-se de construir-se como povo de Deus na História. Ora, um povo se constrói na medida em que vai equacionando os problemas que, necessariamente, surgem das relações de convivência e de seu relacionamento com a Natureza. Quer dizer, a construção de um povo depende da maneira como equaciona a questão do poder, pois esta é a questão implicada em toda relação de convivência: poder sobre a natureza, poder de cada pessoa no confronto com as outras pessoas, poder de cada povo em face de outros povos. Por isso, toda relação humana é essencialmente política, isto é, põe em foco a questão do poder. Neste sentido, a convivência eclesial é uma permanente aprendizagem de como viver a dimensão política da convivência social. E, a partir das relações de poder vividas na comunidade e aprendidas do comportamento de Jesus, adquirimos critérios para enfrentar as relações de poder vigentes na sociedade. E aí não se pode escapar: ou assumimos comportamentos proféticos de autocritica e de denúncia do pecado do mundo, ou compactuamos com o sistema dominante. Não há neutralidade possível. Se é verdade que a política não é tudo, é igualmente verdade que “tudo é política” (Emmanuel Mounier)

Finalmente, vão-se tornando uma aquisição da consciência eclesial as categorias da Sociologia Crítica e a tranquila aceitação de que também a sociedade eclesial, embora guardando sua relativa autonomia enquanto fenômeno misterioso de fé, enquanto fenômeno social, porém, pode e deve ser analisada de acordo com as regras estabelecidas pela ciência do social. Daí, o conflito começar a ser visto, não como o mal a ser negado, mas como o real a ser enfrentado, e a unidade da Igreja passar a ser vista não como algo já dado apesar dos conflitos da sociedade, mas como dom de Deus, horizonte escatológico, que se vai aproximando de nós, de alguma forma, na construção da solidariedade que vamos conseguindo atuar através dos conflitos históricos.

De tudo isso resulta uma contradição:

De um lado, a tendência acentuada à autonomia e à participação no poder no interior da Igreja; e a tendência a aprofundar e intensificar o engajamento sociopolítico dos cristãos na sociedade. Isto exige evidentemente uma Igreja organizada de maneira mais democrática e mais inserida nas lutas sociais. Nós, os cristãos, além das referências eclesiais (a comunidade, os sacramentos, a teologia, o fortalecimento das motivações espirituais vindas do Evangelho…), vamos assumindo referências outras, como o sindicato, o partido, a luta ideológica.

Doutro lado, a hipertrofia do poder episcopal, que se acentua e se agrava pela dependência dos bispos em relação a Roma – o poder episcopal tonou-se instrumento privilegiado de controle para impor projetos elaborados nas instâncias romanas, sem respeito às Igrejas locais; e além disso, setores significativos do episcopado ainda mantêm fortes alianças com as classes dominantes. Isto quer dizer: em certos casos, o poder episcopal pode tornar-se mecanismo de controle ideológico e de repressão efetiva a serviço dos interesses dos poderosos, isto para além das intenções subjetivas das pessoas.

No momento, setores dominantes na cúpula da Igreja Católica estão especialmente preocupados com dois grandes desafios:

o eixo do capitalismo, que é o sistema dominante no mundo, está passando, pela primeira vez na História, para o Oriente não cristão – o Japão e a China; e a Europa, que se ergue como o segundo polo do capital mundial, é pós-cristã, secularizada e acentuadamente anticlerical

o outro desafio é que a maioria dos cristãos se acha no Terceiro Mundo.

Como manter a influência cultural sobre o mundo, como fazer ouvir a proposta cristã à humanidade de hoje e de amanhã? É cada vez mais claro que só será possível a partir das Igrejas do Terceiro Mundo. Mas deixar que essas Igrejas encontrem seu próprio caminho é considerado um risco grande demais para o sistema eclesiástico. A Igreja dos países periféricos já têm mostrado claramente que desejam seguir um caminho original: Na Ásia, aprofundando o diálogo e assumindo a herança cultural das grandes religiões como o Budismo, o Hinduísmo, o Xintoísmo. Na África, assumindo com decisão a cultura negra nas instituições, na ética, na liturgia, na elaboração da teologia. Na América explicitando sempre mais a dimensão política da fé e uma antropologia a partir da qual a identidade cristã não se defina sobretudo a partir do discurso religioso, mas da prática ético-política, sem falar do desafio que é a relação com os povos aborígenes e o povo afrodescendente, que vai muito além de respeito a seus valores culturais próprios.

Esse dinamismo leva o Cristianismo a uma mudança revolucionária de suas formas; como dizia o famoso teólogo francês Yves Congar, logo após o Concilio, é como reinventar as formas de ser do Cristianismo. É compreensível que, diante dessa perspectiva tão radical de mudança, o sistema eclesiástico vigente venha a tremer em suas bases e empreenda, consequentemente, a mais renhida batalha para quebrar a autonomia das Igrejas locais. Além do mais, o dinamismo das Igrejas do Terceiro Mundo se constitui em ameaça ao próprio sistema econômico e político mundial, pois as simpatias do Terceiro Mundo vão na direção do Socialismo (hoje se tem falado de Eco-socialismo). Daí poder-se entender muito bem a aliança estratégica entre Estados capitalistas e setores conservadores das Igrejas. Os “Documentos de Santa Fé” estão ai para testemunhá-lo, assim como o papel político desempenhado pelo falecido papa João Paulo II.

Nestas circunstancias, o poder episcopal hipertrofiado passa a ser usado como instrumento privilegiado de uma política conservadora para impor às Igrejas do Terceiro Mundo o modelo eclesiástico vigente e impedir a caminhada em novas direções. Tenta-se garantir, pela centralização, pela estabilidade disciplinar, pela formação de quadros segundo modelos conservadores, a nítida identidade religiosa católica, isto é, teme-se que o engajamento dos cristãos como fermento nos movimentos e nas organizações da sociedade, leve à dissolução da instituição eclesiástica. Pretende-se, então, afirmar a identidade católica como um bloco nítido e distinto em face da sociedade e com pretensões hegemônicas na liderança da elaboração da cultura, afinal, pretende-se preencher com a afirmação nítida da identidade católica o vazio deixado pela crise atual das ideologias. Afinal de contas, tenta-se garantir, em seu núcleo, a hegemonia do modelo de Igreja fundamentalmente elaborado na Europa feudal.

4. Para onde vamos?

O conflito atual é portador de uma grande promessa. E, por isso, longe de nos abatermos, nossa atitude deve ser a de uma sofrida e lúcida esperança. Tudo dependerá de nossa criatividade, de nossa capacidade de iniciativa e de resistência, enfim, de nossa esperança feita organização de um povo em dimensões internacionais. Querem impor-nos uma Igreja baseada no rígido controle autoritário. A nossa reponsabilidade está confiada resposta à altura: insistir na articulação das iniciativas e das organizações dos setores da Igreja que querem manter-se fieis à opção pelos oprimidos, fortalecer essa articulação mediante a criação nas Igrejas locais de organismos autônomos, erigidos juridicamente, onde cristãos, homens e mulheres, leigos(as), religiosos(as), ministros(as) e bispos, se reúnam para, de acordo com sua respectiva competência, influírem na construção de uma Igreja mais fraterna e de uma sociedade mais justa. É evidente que essas organizações autônomas têm de estar intimamente vinculadas ao Movimento Popular no seio da “sociedade civil”

A Reforma no século XVI deu origem a Igrejas autônomas. Parece não ser esse o caminho a seguir agora, ao menos nas Américas. Como disse muito bem o padre profeta Reginaldo Veloso, interpretando os sentimentos de todos e todas nós, não é tempo de submissão, mas também não é tempo de rebeldia nem de cisma. Não se trata de fazer nascer novas Igrejas autônomas, mas sim de criar organizações autônomas na Igreja. Organizações autônomas e transconfessionais que sejam inclusive fermento no caminho da unidade das Igrejas e células e fermento de uma nova sociedade.

Creio estarmos maduros(as) para dar este passo: não nos interessa a rebeldia, queremos, sim, a autonomia na comunhão. Uma Igreja de instâncias variadas, complementares, trabalhando em base ao mútuo respeito e ao diálogo fraterno. Trata-se de fazer transbordar para a Igreja toda algo similar àquele instituto jurídico que tradicionalmente tem caracterizado ordens e congregação religiosas, o instituto de “isenção”, só que agora retomado em novas bases e utilizando-se como veículo adequado de legalidade os procedimentos do Direito Civil comum, aliado e para além do Direito Canônico. Se formos capazes de resistir e de criar, sairemos desta crise com um passo qualitativo adiante. E faremos avançar a história conferindo à Igreja um regime de efetiva comunhão, como desejava o Vaticano II, teremos encontrado os mecanismos concretos para realizar a grande proclamação de Puebla: “Comunhão e Participação” – agora poderíamos traduzir: Comunhão, Autonomia e Participação.

Creio firmemente que seremos capazes de dar este passo. Contemplo em diversas partes do mundo sinais de que já vamos amadurecendo nessa direção. Basta pensar na pluralidade de movimentos, organizações e grupos que se têm afirmado por sua identidade autônoma na sociedade e nas Igrejas. Pensemos nas organizações da resistência indígena e da resistência negra, nas organizações das mulheres ou de minorias oprimidas. Pensemos no Movimento Jonas na França, no Movimento de Outubro na Holanda, na articulação das comunidades de Base na Colômbia, na “Coordenadoria Nacional” na Igreja da Nicarágua, e tantos outros… Eis por que esta crise atual, longe de me abater, me enche de sofrida, é verdade, mas luminosa esperança. Nossos pais nos acostumaram ao Êxodo e ao Deserto… e nos contaram que a arrogante Babilônia não passa de ídolos cuja sabedoria é falácia e cuja força repousa no vazio das ilusões. Eis por que o ITER não acaba e nem se fecha, a marcha dos(as) itinerantes continua, o Caminho se abre a nossa frente!

Obs: O Autor é Bispo Emérito da Diocese Anglicana do Recife
Igreja Episcopal Anglicana do Brasil – IEAB….

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