A figura de Helder Câmara costuma ser registrada com foco muito aberto e desse modo ele aparece como bispo. Em quase todos os textos publicados a seu respeito, aparece um Dom Helder Câmara. Mas na medida em que se vai alargando o campo de visão, a imagem do bispo esvaece e Helder passa a figurar ao lado de figuras significativas de um amplo espectro histórico não necessariamente eclesiástico nem, a rigor, cristão. Quando o contemplamos dentro do amplo painel histórico da tradição de Jesus, temos a surpresa de vê-lo aparecer ao lado de figuras como Catarina de Siena, Teresa de Ávila e Mestre Eckhart, figuras que só tangencialmente entram na história da Igreja e nisso revelam uma tradição teológica quase submersa, desprovida de registros históricos precisos e carente daquele tipo de fontes históricas que os historiadores costumam consultar. Uma tradição no limiar da letra. Essa tradição, quase esquecida, contrasta vivamente com uma tradição bem mais conhecida, a dos teólogos letrados, que vai dos Padres da Igreja (os intelectuais cristãos do primeiro milênio) até nossos dias. No centro dessa tradição figura Agostinho, que projeta sua sombra até os dias atuais. Uma tradição latina, que só muito recentemente se expressa em línguas ‘vulgares’. A tradição ‘no limiar da letra’, pelo contrário, deita desde sempre suas raízes em experiências ‘vulgares’, ou seja, resgata o universo ‘submerso’ ou esquecido de cristãos analfabetas.

Sei que existem outros modos de se abordar o tema da complexidade de tradições no cristianismo, mas escolhi tratar aqui de ‘tradição letrada’ versus ‘tradição no limiar da letra’, porque esse modo de falar lembra um dado fundamental: ao longo dos dois mil anos de cristianismo, a maioria dos fieis costuma ser analfabeta ou pelo menos não lida habitualmente com letras escritas. Não se pode esquecer esse fato quando se fala em teologia.

Minha colaboração vai em quatro pontos: (1) Para além de ‘Dom Helder Câmara’; (2) A tradição letrada; (3) A tradição mística, ou seja, ‘no limiar da letra’; (4) Helder Câmara em perspectiva histórica.

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Para além de ‘Dom Helder Câmara’.

Uma leitura das Cartas Circulares de Helder Câmara, das quais 13 Tomos (1964-1969) já foram editados pela Editora Oficial do Estado de Pernambuco, enquanto outros tantos, relativos aos anos 1970-1975, já em grande parte digitados, aguardam impressão em papel, revela uma personalidade complexa. Além da figura eclesiástica aparece ao leitor principalmente a figura mística-poética. Assim como Gandhi não é só o hábil negociador da independência da Índia diante da Inglaterra, assim como Mandela é mais que um presidente da África do Sul, assim como Martin Luther King é mais que um pastor de uma Igreja Batista nos Estados Unidos, do mesmo modo Helder Câmara é mais que um bispo famoso da Igreja Católica. Helder ‘excede’ Dom Helder.

A prática de vigílias noturnas, que Helder mantém desde sua ordenação sacerdotal em 1931 e prossegue por cinquenta anos seguidos (pelo menos até 1984, ano de sua aposentadoria) revela sua particularidade mística. Ao longo desses 50 anos, cada noite o despertador, ao lado da cama, toca às duas da madrugada. Ali Helder se levanta para meditar e escrever, no silêncio da noite, por uma ou até duas horas. Desse modo, como explicou certa vez, ele se ‘unifica’. Ao repensar a agitação do dia na oração noturna, ele alcança uma impressionante paz interior, uma tranquilidade que nunca o abandona, nem nos anos mais tensos da ditadura militar no Brasil (1964-1984).

Tudo, em Helder Câmara, se converte em mística. Seu sacerdócio, seu episcopado, sua habilidade em articular políticas eclesiásticas, sua fala, seu corpo, sua presença. Quem, algum dia, participou da missa de seis horas da manhã que ele celebrava na igrejinha das Fronteiras em Recife, entende o que escrevo aqui. O jeito do celebrante podia parecer teatral, os olhares amorosos em direção à hóstia e ao cálice podiam parecer afetados. O fato é que Helder celebrava missa ‘a seu modo’, misticamente. Sua missa era um momento místico. No final da vida, um sacerdote tinha de segurar a hóstia e o cálice, mas Helder continuava olhando para seu Jesus com olhares de um namorado. A função episcopal, para Helder, não se resume em administração. Por sorte, ele encontra em seu bispo auxiliar (Dom Lamartine Soares) um homem disposto a cuidar das questões administrativas da diocese, o que lhe possibilita transformar seu episcopado num trampolim para a sociedade, um meio de difundir amplamente suas mensagens.

A vivência mística do episcopado torna a convivência de Helder Câmara com a instituição católica algo difícil, frequentemente penoso. Espera-se dele um comportamento ‘episcopal’, enquanto ele se deixa levar nas asas do sonho. Roma desconfia dele e se incomoda com a extraordinária repercussão de suas iniciativas e de suas viagens. As autoridades eclesiásticas suspeitam armadilhas e planos subversivos onde na realidade há sonho, imaginação, liberdade e compromisso com os mais pobres. Quando o nome Helder Câmara começa a ressoar pelo mundo e que ele recebe convites para falar pelo mundo afora (por volta do ano 1970), chegam-lhe às mãos cartas de Roma solicitando que ele, em suas viagens, comunique ao bispo local o programa da viagem, os roteiros, os contatos programados, até o local da hospedagem. Helder constata que ele incomoda a política vaticana e isso o atinge de cheio: Quando tenho a impressão que Roma não me entende ou não me apoia, sinto a terra faltar debaixo dos pés (Piletti, N., & Praxedes, W., Dom Hélder Câmara, Entre o Poder e a Profecia, Atica, São Paulo, 1997, 380). Por vezes uma carta de Roma provoca-lhe tamanho mal-estar, que é necessário chamar um médico (ibidem, 427).

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A tradição letrada.

O significado histórico de Helder Câmara se realça quando situamos sua figura dentro do amplo painel histórico da tradição cristã ocidental. Para enxergar essa amplitude, temos de recuar bastante no tempo e no espaço. Voltar, por exemplo, ao século III dC e observar o que acontece na cidade de Roma, no plano das ideias e dos ideais quando, no exato ano 244 dC, o filósofo alexandrino Plotino de Licópolis (203-269) aparece naquela cidade, na época centro de um imenso Império. Ele inaugura ali uma escola para jovens da elite intelectual romana e alcança em poucos anos um renome extraordinário. Plotino provoca uma guinada de enorme repercussão no pensamento ocidental. Com ele penetra, no âmbito da intelligentia ocidental, de modo convincente, um modo grego de se entender o homem e a história, uma interpretação platônica do ser humano e do sentido de sua existência. Para a inteligência cristã da época, Plotino significa a síntese entre o pensamento grego (Platão e Aristóteles) e a visão bíblica do mundo. Abaixo do mundo divino, onde o mal não penetra, existe a matéria, onde a luz divina só penetra em forma de sombra (veja o ‘mito da caverna’, de Platão) A matéria é o último reduto das trevas, a raiz do mal que afeta a vida humana. O corpo, morada da alma na matéria, é um espaço ambíguo: pode deixar-se seduzir pelas formas vãs da matéria, ou deixar-se fascinar pela luz imaterial. O corpo é prisão e sepulcro, mas pode tornar-se trampolim para a luz. Precisa a alma tomar distância diante dos impulsos do corpo, por meio do amor pelas realidades espirituais, ou melhor, da purificação do amor. O homem precisa partir do mundo material e se encaminhar para o que é espiritual. Precisa a alma arrancar tudo de si para amar o que é invisível, fechar os olhos diante da materialidade e esperar o Deus que vem, assim como, antes da aurora, nossos olhos esperam a chegada da luz do sol. Quando o sol chega, ele logo toma conta de tudo. A luz espiritual dissipa as trevas da matéria.

Essa filosofia (antropologia) neoplatônica, na realidade uma arte de viver, causa um grande impacto na intelligentia romana e daí penetra nos ambientes cristãos letrados e intelectualizados, concretamente entre os chamados Padres da Igreja, que são os intelectuais cristãos do primeiro milênio. Nos escritos dos Padres da Igreja, o neoplatonismo se ‘cristianiza’ enquanto o cristianismo se ‘neoplatôniza’. A perspectiva social, onipresente nos evangelhos, desvanece e aparece o drama real passa a se processar entre a alma e Deus. Os impulsos do corpo são controlados e possivelmente eliminados, enquanto o ápice da experiência cristã passa a ser a êxtase, a contemplação de Deus. Pois, impregnado de um senso religioso agudo e místico em seus intentos, o neoplatonismo parte de uma concepção muito próxima ao monoteísmo bíblico, o que faz com que muitos se confundem enganam e não conseguem mais distinguir com clareza entre cristianismo e neoplatonismo.

Ressalto aqui que a interpenetração entre cristianismo e neoplatonismo se processa de forma lenta, quase imperceptível, e nem sempre aparece com clareza no nível dos textos. Nem sempre é fácil afirmar se tal Padre da Igreja é um pensador cristão ou um neoplatônico que trabalha com imagens e símbolos cristãos.

É o caso de Agostinho de Hipona (354-430), cuja biografia nos facilita a compreensão de suas posturas teológicas. Ele faz parte de um grupo composto de jovens não cristãos, oriundos da África do Norte, que viajam de Cartago a Roma e depois a Milão, na companhia de Mônica, sua mãe, que é cristã. Eles vão em busca de emprego e, aos poucos, renunciam a uma vida de prazeres e passam a procurar a sabedoria. Depois de tentar diversas filosofias de vida, entram em contato com a espiritualidade neoplatônica e, chegando em Milão, se impressionam com Ambrósio, o bispo cristão, grande orador e figura de elevada estima moral. O grupo de amigos, então, se estabelece em uma propriedade rural nos arredores da cidade, chamado Cassiciacum, onde todos leem e trocam opiniões. São idealistas em busca de uma alma espiritual, que já deixaram para trás os prazeres da carne pecaminosa. A situação dos escravos, em seu redor, não retém sua atenção. Por exemplo, quando Agostinho, em suas ‘Confissões’ (7, 8), conta a história de uma mulher rica e uma escrava que entram simultaneamente em trabalhos de parto, ele dá a impressão que, para ele, a escravidão é algo normal. Realmente, um viés individualista perpassa o livro ‘Confissões’, um individualismo que deve ter facilitado a aproximação entre cristianismo e neoplatonismo, tema muito discutido no grupo em Cassiciacum. De qualquer modo, Agostinho chega a escrever que a sabedoria neoplatônica combina bem com a sabedoria bíblica, como se pode verificar em dois trechos de suas ‘Confissões’: Se eu persistisse no sentimento salutar que deles (dos livros dos platônicos) tenho haurido, julgaria que, se alguém aprendesse só com esses livros (deixando de lado os livros bíblicos), também deles poderia alcançar o mesmo afeto espiritual (Confissões, 7, 26 no final). Notei que que tudo de verdadeiro que li nos livros dos platônicos se encontrava neles (nos livros bíblicos) (Confissões 7, 27). Agostinho só vê, no cristianismo, um ponto que não encontra no neoplatonismo: a humildade. O Deus dos cristãos é um Deus humilde. Mas nada a respeito de um Deus que opta pela humanidade marginalizada e sofredora. Nas ‘Confissões’, a divisão da sociedade entre ricos e pobres só aparece por meio de uma citação de Mateus 11, 28: escondeste essas coisas aos sábios e as revelaste aos humildes. Os textos evangélicos que levam Agostinho a optar finalmente pelo cristianismo não tratam da opção pelos pobres ou da luta pelo reino de Deus num mundo de escravocratas. São textos que tratam de ascese, humildade, controle do corpo, obediência e que, portanto, se encaixam no dualismo platônico entre ‘corpo’ e alma’. Quando o amigo Alípio de Tagaste (proveniente de sua cidade natal) lhe diz que a procura da sabedoria não combina com casamento, ele faz mais um passo em direção à ascese cristã. Finalmente, Agostinho encontra o seguinte texto da Carta aos Romanos, do apóstolo Paulo: nada de patuscadas ou pândegas, nada de cópulas ou devassidão, nada de brigas ou invejas. Mas revestem o Senhor Jesus Cristo. Não se apropriem da preocupação da carne, que os lança para desejos loucos (Rm 13, 13-14). Ele se converte e se apresenta ao bispo Ambrósio para ser batizado. Depois, o grupo volta à África, onde o convertido vive alguns anos numa propriedade da família e finalmente doa as terras herdadas aos pobres, transforma a residência da família numa ermida, onde – na companhia de alguns amigos igualmente convertidos ao cristianismo – vive uma vida monacal.

Essa trajetória biográfica, relatada nas ‘Confissões’, deixa em aberto a seguinte pergunta: Agostinho é um pensador cristão ou um filósofo neoplatônico que trabalha com imagens e símbolos cristãos? De qualquer modo, não se pode negar que o o impacto da figura de Agostinho sobre a tradição cristã letrada é enorme. Junto com outros Padres da Igreja, ele levanta uma imensa cortina entre a genuína tradição de Jesus sua leitura grega, uma cortina feita de nove fios entrelaçados, que relato aqui provisoriamente em breves palavras (pois não é meu intento aprofundar esse tema aqui): (1) a prática de uma teologia da redenção em detrimento da teologia da criação; (2) ascese; (3) obediência; (4) perfeição; (5) introspeção; (6) construção da Igreja; (7) justiça (acima da compaixão); (8) patriarcalismo; (9) e principalmente a convicção inabalável de andar no caminho certo (dogmatismo).

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A tradição mística, ou seja, ‘no limiar da letra’.

Em vivo contraste com essa tradição letrada persiste, ao longo da história do cristianismo, uma tradição que um monge do século VI definiu de modo incomparável como sendo uma mística, que consiste no perfeito conhecimento de Deus obtido por meio da ignorância. Esse monge era deveras genial, pois conseguiu se fazer passar por ‘Dionísio, o Areopagita’, mencionado em Atos dos Apóstolos 17, 34. Desse modo, seus textos se revestiram de autoridade bíblica durante quase mil anos, até o momento em que o humanista Lorenzo Valla [+ 1457] descobre a falsidade ideológica. Ele redigiu em grego um texto que foi posteriormente traduzido em latim sob o título ‘De Coelesti Hierarchia’ (Sobre a Hierarquia Celeste). É um dos textos mais inteligentes da tradição cristã. Pois, embora nele se valorizem tradições capazes de cair sob a suspeita de ‘heresia’, o texto nunca caiu nas mãos da Inquisição. Isso se deve, não só por ser considerado um texto ‘inspirado’, mas igualmente porque o autor teve o cuidado de tratar da ‘hierarquia celeste’ (as ordens angelicais, que são ‘místicas’) antes de abordar, num segundo momento, a ‘hierarquia eclesiástica’ (papa e bispos). Sendo a hierarquia terrestre um reflexo da ordem celeste, Dionísio consegue habilmente inserir nela os místicos. Desse modo, abre espaço a movimentos não ortodoxos.

O texto de Dionísio declara que o perfeito conhecimento de Deus provém da ‘ignorância’. Um aceno aos iletrados, a imensa maioria dos cristãos, que constituem um desafio aos historiadores, que inevitavelmente dependem em grande parte de textos escritos na elaboração de suas interpretações. Daí a importância de estudar figuras históricas que aparecem no limiar da letra, ou seja, que funcionam como ‘intelectuais orgânicos’ do vasto movimento de vivência cristã mística na base esquecida da sociedade.

Como este meu texto não pretende fazer uma exposição mais detalhada da tradição mística, evoco aqui apenas, à guisa de exemplo, quatro figuras místicas, cuja biografia demonstra que atuaram ‘no limiar da letra’, ou seja, que escreveram e ao mesmo tempo mantiveram uma relação orgânica com o universo iletrado. Limito-me ao período entre os anos 1000 e 1500.

– O primeiro nome é o de Hildegarda de Bingen (1098-1179). Ela vive numa aldeia à margem do Rio Reno, na Alemanha ocidental, cuida da alfabetização de camponeses em povoados e cidades ao longo do grande rio. Ela se faz de médica, farmacêutica, dramaturga, poetisa, pintora, musicista, profetisa, tudo isso a serviço da população ribeirinha. Cuida de doentes, estuda o poder curativo das plantas, compõe músicas, escreve peças de teatro e produz uma literatura hoje sempre mais valorizada. Hildegarda tem uma cosmovisão própria e instiga as pessoas a fazer perguntas sobre a natureza, pois é nela que o Espírito Santo se manifesta. Hildegarda é uma panenteísta avant la lettre. Ela escreve em latim, mas suas ações são direcionadas ao povo analfabeta das aldeias e seus textos só resistiram ao tempo por seu valor inconfundivelmente literário.

– O segundo nome é o de Mectilda de Magdeburgo (1210-1280). Já escreve em alemão, trezentos anos antes de Lutero (o primeiro a traduzir a Bíblia em alemão). Ela pertence a um dos mais originais movimentos da Idade Média, o movimento das beguinas, mulheres que não se submetem ao ‘jugo’ do casamento, mas, de outro lado, não emitem votos religiosos. Para se proteger, elas constroem beguinárias muradas dentro das cidades, onde reina um notável espírito de liberdade e uma não menos notável tenacidade em lutar incansavelmente contra a corrupção do clero (que está no apogeu de seu poder). Mectilda tem de migrar de béguinage em béguinage, já que sempre acaba expulsa depois de algum tempo. Escreve um livro baseado em metáforas de uma liberdade surpreendente: Vom fliessenden Licht der Gottheit (‘sobre a luz trêmula da divindade’). No final da vida, fica cega e é acolhida por uma comunidade de religiosas cistercienses em Helfta, na Saxônia (Alemanha), onde tem seguidoras famosas, como Gertrudes de Helfta e Mectilda de Hackeborn.

– Mestre Eckhart (1260-1328), o mais profundo e mais bíblico dos teólogos ocidentais, escreve igualmente em alemão. Ele elabora uma notável teologia da criação, em oposição à teologia hegemônica da redenção. Em vez de basear sua teologia na premissa do ‘pecado original’, ele exalta a vida em comunhão com Deus. Seu livro ‘Vom Adel der menschlichen Seele’ (‘Sobre a nobreza da alma humana’) é atualmente mais conhecido e valorizado entre budistas, sufis e hinduístas que entre cristãos. Suas teses são impressionantes (e, mesmo para os dias de hoje, de uma novidade surpreendente): (1) o ser de Deus é idêntico ao seu agir; (2) esse agir consiste em sua revelação a nós; (3) esse agir revelador desemboca num novo entender de nós mesmos e do mundo. Em outras palavras: Deus não é uma referência além do mundo, mas uma irredutível referência ao mundo que nos cerca e que está dentro de nós. Isso é panenteísmo, discurso pós-metafísico sobre Deus, pois vê Deus como revelação do ser, do agir, do existir no mundo, da vocação de cada um(a) de nós, pois vive dentro de nós.

– Termino evocando a figura de Juliana de Norwich (1342-1414), uma eremita que escreve o primeiro livro escrito em inglês por uma mulher. Durante uma doença, ela tem visões que relata em seu ‘Sixteen Revelations of Divine Love’ (‘Dezesseis Revelações de Amor Divino’), um texto igualmente panenteísta, que hoje suscita renovado interesse por despersonalizar a figura de Deus.

Como se vê, são principalmente mulheres que trabalham o temário da criação divina, contrariamente aos que desenvolvem uma teologia a partir do temário ‘queda (no pecado) – redenção’ e com isso aderem ao dualismo antropológico platônico. Os místicos não insistem no tema da ‘redenção’, mas preferem exaltar a beleza da criação, a felicidade do ser, a ‘nobreza da alma humana’. Se essa tradição mística ‘no limiar da letra’ é desconhecida por muitos/as, é porque ela emerge do mundo submerso secularmente analfabeto, um mundo largamente desconhecido pelos que recorrem às letras para se comunicar.

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Helder Câmara em perspectiva histórica.

Helder Câmara tem algo a ver com Hildegarda de Bingen, Mectilda de Magdeburgo, Mestre Eckhart, Juliana de Norwich? À primeira vista, não. Mas na medida em que o situamos num amplo panorama histórico, fica claro que convém inclui-lo na grande tradição mística ‘no limiar da letra’, que percorre toda a história do cristianismo.

O misticismo de Helder é devedor de uma sólida tradição brasileira, que se manifesta em figuras como Antônio Conselheiro, Padre Ibiapina e Padre Cícero (para só falar de cearenses). Uma tradição baseada numa teologia da criação, da vida, e que, implicitamente, rejeita a teologia do pecado e da redenção. Se Padre Cícero ‘acredita’ nos milagres da beata, é que neles vislumbra a presença de Deus. Se Padre Ibiapina dedica sua vida às populações esquecidas do interior nordestino, é que ele espera dias melhores. Se Antônio Conselheiro lidera a maravilhosa experiência de Canudos, é que ele acredita que Deus criou a terra para que nela vivamos felizes e tenhamos condições de criar nossos filhos. Eis a tradição em que Helder se insere quando se considera voz dos sem voz. As fontes largamente submersas de uma teologia da criação alimentam sua mente desde a infância e lhe conferem uma indefectível saúde, ao mesmo tempo em que constituem um antídoto diante dos apelos à ascese, introspeção, perfeição, penitência, convicção e obediência que se lhe apresentam ao longo de sua preparação ao sacerdócio. Helder se distancia dos nove paradigmas que acima relatei como sendo característicos da tradição teológica letrada na maioria de seus posicionamentos: 1) a prática de uma teologia da redenção em detrimento da teologia da criação; (2) a ascese; (3) a obediência; (4) a procura da perfeição; (5) a introspeção; (6) a construção da Igreja; (7) a justiça acima da compaixão; (8) o patriarcalismo; (9) e principalmente a convicção inabalável de andar no caminho certo.

Termino destacando alguns elementos da teologia helderiana: (1) ‘redenção não, criação sim’; (2) ‘ascese não, disciplina sim’; (3) ‘obediência não, liberdade sim’; (4) ‘introspeção não, atenção sim’.

– ‘Redenção não, criação sim’. Helder ama a criação de Deus e nisso segue as lições de Mestre Eckhart. Seus sete mil poemas testemunham disso de forma abundante. Neles, Deus se revela em tudo, no fio oculto que prende as contas de um colar, no mato teimoso que insiste em crescer na calçada, na cana posta na moenda, no reflexo da lua numa poça d´água, nos primeiros cajus do ano, das primeiras mangas, primeiras jacas, primeiras frutas. Por que não oferecer ao Pai os peixes todos, de tamanhos, feitios e cores tão variados, com maneiras de nadar e mergulhar que lembram baleias? No cimo das montanhas contemplamos os primeiros raios de luz, ainda não tocados, não poluídos, tais como brotaram do Poder Criador. Acordem, intérpretes da Criação, cantores de Deus! Quanta maravilha esperando para ser, de desejo, de coração, tomada nas mãos e apresentada ao Senhor e Pai? (Zildo Rocha, ‘Papel da Vigília na Espiritualidade de Dom Helder’, Mesa Redonda do lançamento do Primeiro Tomo das Cartas Circulares, Recife, 1995).

Mas são principalmente as criaturas de Deus que retêm sua atenção. Num questionário enviado aos bispos católicos em preparação ao Concílio Vaticano II (1962-1965), acerca do que eles consideram ser os principais problemas do mundo, a grande maioria responde: o comunismo, o ateísmo, o secularismo, o protestantismo, o espiritismo etc. Helder pensa de forma totalmente diferente. Para ele, o grande problema é que dois terços da humanidade vivem na pobreza. Em sua primeira Carta Circular, redigido em Roma na noite entre os dias 13 e 14 de outubro 1962 e que relata suas impressões após a cerimônia de abertura do Concílio Vaticano II, Helder escreve: O Concílio vai ser dificílimo. A maioria dos bispos nem pensa na questão da pobreza mundial. Esse tipo de observação faz de Helder Câmara um dos poucos homens de visão na assembleia, como comentou na época o teólogo Yves Congar: É preciso dizer com todas as palavras que Helder Câmara é um dos pouquíssimos homens do Concílio que têm visão.

Por isso mesmo, Helder se torna um dos principais arquitetos e executores do Pacto das Catacumbas, que reza: procuraremos viver segundo o modo ordinário de nosso povo no que toca a casa, comida, meios de locomoção, e a tudo que disso se desprende (Mt 5, 3; 6, 33s; 8-20). Voltando a Recife, ele dispensa o carro particular, o secretário particular, a comida pronta na hora certa, a cozinheira do Palácio dos Manguinhos. Doravante, seu cardápio é precário e ele vai morar na sacristia de uma igreja. Seu quarto de dormir comporta uma cama e uma cadeira. A salinha tem uma mesa redonda e três cadeiras. No fundo, uma rede cearense estendida. Nas paredes algumas lembranças de viagens e alguns textos.

-. ‘Ascese não, disciplina sim’. A vida de Hildegarda de Bingen não tinha nada a ver com ascese, mas mesmo assim era feita de disciplina contínua a favor de maior rentabilidade nos trabalhos sociais. Do mesmo modo, Helder não é um asceta, ele não vê no sofrimento o salário do pecado, não acredita que santidade seja perfeição de virtudes, não aceita que a alma esteja em guerra contra o corpo, não crê que se deve preferir a Dama Continência (a expressão é de Agostinho) à Dama Pobreza (uma expressão de Francisco de Assis). Seu jeito não tem nada do recolhimento de um homem ascético. Pelo contrário, ele é expansivo, monta um espetáculo quando fala, espalha em seu entorno um sentimento de simpatia misturado com cumplicidade, um misto de admiração e ‘conjuração’. Tem um jeito inimitável, original, livre, único de se comunicar. Seu corpo, minúsculo e frágil, cresce quando toma a palavra. Em todo lugar, ocupa com naturalidade o centro da cena, tranquilo e absolutamente mestre da situação, seja nos aposentos reservados de um Papa ou numa casinha de taipa na periferia de Recife. Anda com a mesma naturalidade pelos corredores do Vaticano e pelos becos de Recife. As pessoas nele reconhecem o melhor de si mesmas e o saúdam por onde passa. Um artista da palavra livre, nos meandros da diplomacia, um gesto inesperado em meio a formalidades e subserviências, um improvisador no drible político, abrindo espaços onde aparentemente não existem, um ‘sedutor’ magistral, um artista na arte de espalhar suas ideias e seus sonhos. Artista na poesia, principalmente. Como escreve Zildo Rocha, comentando as Cartas Circulares, Helder redigiu nada menos que sete mil poemas. Os do ‘Padre José’ tratam de espiritualidade, enquanto os atribuídos a ‘Frei Francisco’ tratam de temas sociais. Esses poemas respiram o ar das vigílias noturnas. Alguns deles poemas se encontram espalhados nos diversos Tomos das Cartas Circulares (veja, por exemplo, a Circular n. 20 de 21/22.10.1963), outros aguardam publicação.

-. ‘Obediência não, liberdade sim’. Aqui me vem a lembrança de Mectilda de Magdeburgo, a incansável beguina que anda de cidade em cidade difundindo o espírito da liberdade. Já como seminarista em Fortaleza, Helder demonstra invejável liberdade. Certa vez, o Reitor lhe entrega um livro para ler, mas adverte: grampeei algumas páginas, porque não prestam. Prontamente, Helder devolve o livro e diz: se algumas páginas não prestam, Padre, é que o livro todo não presta. Já no último ano antes de sua ordenação sacerdotal, o mesmo Reitor lhe proíbe escrever poesias: quem se prepara ao sacerdócio não faz poesia. Helder responde na hora: Padre Reitor, vamos fazer um trato: doravante eu não faço mais poesia, mas o Senhor não abre mais as gavetas dos seminaristas.

Ninguém precisa dizer a Helder como agir. Ele é como Catarina de Siena ou Teresa de Ávila, que expressavam suas opiniões com inteira liberdade, diante das mais altas autoridades eclesiásticas. Quando o Papa Paulo VI, no final do Concílio Vaticano II, numa conversa particular, pede a Helder sua opinião acerca dos trabalhos conciliares, ele responde em toda liberdade: O Concílio ainda não corresponde aos anseios do Terceiro Mundo (Rocha, Z. (org), Hélder, o Dom, Vozes, Petrópolis, 1999, 106). Helder se declara contrário à Encíclica ‘Humanae Vitae’ de Paulo VI (1968), é a favor do divórcio se necessário, apoia a proposta de se readmitir Cuba na OEA (Organização dos Estados Americanos).

Há um caso que não posso deixar de relatar aqui. Em 1980, quando já tem 71 anos, Helder redige, em francês, o texto que deve acompanhar a execução da Symphonie des Deux Mondes (Sinfonia dos Dois Mundos), cujo compositor é o sacerdote Pierre Kaelin, de Friburgo, na Suiça. Satisfeito, Helder escreve: A música transfigurou meu texto. Mas o que é extraordinário nessa sinfonia é o texto mesmo. Nele, Helder chega a dar conselhos ao próprio Deus. No ato da criação, Deus fica indeciso: criar o homem dotado de liberdade pode dar no melhor ou no pior. É o momento em que Helder exclama: Créez, Seigneur!

Se eu estivesse a teu lado, Senhor,
antes da criação,
eu gostaria de te ajudar.
Se qualquer dúvida
Ameaçaria levar-te a não criar,
Eu te diria:
Vá, Senhor, vá, não tenhas medo
Não duvides, vá em frente:
É preciso criar, é preciso construir.

Não tenhas medo. Não foi Catarina de Siena que disse ao papa de não ter medo, não foi a camponesa Joana d’ Arc que encorajou o rei da França a enfrentar o rei da Inglaterra? Aqui, Helder rouba a cena…ao próprio Deus. Na Missa dos Quilombos (1982), dois anos depois, ele rouba a cena a Maria e a transforma em Mariama, a deusa dos negros. No final da missa, Helder sobe ao palco, na frente da Igreja do Carmo em Recife, e exclama: Mariama! Maria negra, Maria dos negros e das negras! Maria vira a profetisa da liberdade da população negra e proclama, com todas as palavras, que o cristianismo só é evangélico quando atua na perspectiva do pobre. Um frisson de emoção perpassa a multidão.

– ‘Introspeção não, atenção sim’. Helder não é introspectivo, não se recolhe num canto para rezar, não mantém os olhos baixos. Pelo contrário, ele os tem bem abertos, o que faz com que enxergue coisas que outros parecem não ver. Ao participar das cerimônias de abertura do Concílio Vaticano II, ele observa o impressionante cortejo de mitras, casulas, báculos e caudas cardinalícias. Imagens alucinantes o assaltam e Helder se vê transportado à Corte Imperial Romana, enxerga o Imperador Constantino a atravessar a Basílica de São Pedro num cavalo fogoso em pleno galope, o Papa a jogar a Tiara no Tibre, atar fogo à Basílica de São Pedro (o próprio Deus atiça) e andar enlouquecido pelas ruas de Roma, espalhando pelos pobres o dinheiro do Banco do Vaticano:

Sonhei que o Papa enlouquecia
Ele mesmo ateava fogo
Ao Vaticano
e à Basílica de S. Pedro.
Loucura sagrada,
porque Deus atiçava o fogo
que os bombeiros, em vão,
tentavam extinguir.
O Papa, louco,
saía pelas ruas de Roma,
dizendo adeus aos Embaixadores
credenciados junto a Ele,
jogando a tiara no Tibre,
espalhando pelos pobres
o dinheiro todo
do Banco do Vaticano.
Que vergonha para os cristãos!
Para que um Papa
viva o Evangelho,
temos de imaginá-lo
em plena loucura!

Obs: O autor : “Nasci em Bruges, na Bélgica, no ano de 1930. Estudei línguas clássicas na universidade de Lovaina e teologia em preparação ao sacerdócio católico, entre 1951 e 1955. Em 1958 viajei ao Brasil (João Pessoa). Fui professor catedrático em história da igreja, sucessivamente nos institutos de teologia de João Pessoa (1958-1964), Recife (1964-1982), e Fortaleza (1982- 1991). Sou membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA), fui coordenador para o Brasil entre 1973 e 1978, responsável pelo projeto de edições populares entre 1978 e 1992, e entre 1993 e 2002 responsável pelo projeto “História do Cristianismo”. Entre 1994 e 1997 fui pesquisador visitante no mestrado de história da universidade federal da Bahia. Durante esses anos todos administrei cursos e proferi conferências em torno de temas como: história do cristianismo; história da igreja na América Latina e no Brasil; religião do povo. Atualmente estou estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.”

Explicação do painel(foto)

O autor é o primeiro à direita.

“O painel do fundo, é um quadro desenhado pela Irmã Adélia Carvalho, salesiana (Filha de Maria Auxiliadora) de Recife e ‘artista da caminhada’, que tem muitos trabalhos na linha de uma Igreja libertadora e colabora em diversos programas de conscientização pela arte.
O tema do quadro pode ser descrito assim: ‘a proposta cristã na confusão do mundo em que vivemos’.”



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