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(A Diaconia Social e Política: tarefa essencial da Igreja na Sociedade Humana)

  Introdução

A perspectiva desta reflexão é teológica, isto é, trata-se de recordar princípios básicos da fé bíblica, que assumimos como orientadores da maneira de viver da sociedade, pessoal e coletivamente. A Bíblia não é apenas para pessoas religiosas, ela aborda todas as dimensões humanas, desde a dimensão antropológica mais profunda até a superior esfera dos valores que dirigem a vida (cultura-religião), passando pela dimensão econômica, a social e a política. Ora, se princípios teológicos não são algo simplesmente teórico ou abstrato, mas a reflexão sobre a prática da fé, mediante a qual captamos a Revelação de Deus (a Vida fala), é evidente que a reflexão teológica tem repercussão na prática espiritual, moral, pastoral, missionária e sociopolítica da Igreja, como coletividade, e de seus membros enquanto pessoas convertidas. Na verdade, a ação depende, em boa medida, da visão e esta, por sua vez, também se deixa marcar pelo que fazemos na prática. Visão e prática, reflexão e ação se interpenetram na “práxis”. Além disso, temos de ter presentes repercussões sociológicas da reflexão teológica, pois a vida da Igreja e de seus membros se desenvolve no contexto concreto da sociedade na qual se dá nossa inserção, ou seja, a partir da inspiração de nossa fé e dos princípios bíblicos aos quais se refere, é que temos orientação para compreender devidamente a realidade social, mediante a análise sociológica, e para nela atuar, mediante a ação pastoral, missionaria e sociopolítica. Se Jesus é nosso ponto central de referência, a prática de Jesus em favor das pessoas e categorias marginalizadas e pobres, e Sua visão “integral” do Reino de Deus, a saber, sem dualismos de espiritual e material, é a seta que está a indicar o caminho de Deus. Eis que a situação sociológica  tem radical dimensão teologal, que tem de ser explicitada pela reflexão teológicacomo “revelação”. Em resumo, reflexão teológica e realidade da sociedade e análise sociológica dessa mesma realidade são dimensões intimamente ligadas. Pois a realidade da vida é o substrato imprescindível para que a Palavra se faça ouvir e manifeste seu resplendor (cf. 2Cor 3; Lc 24, 13-35). É pedagógico pensar que a tradição sapiencial popular nordestina percebeu com clareza e profundidade esse fato e o formulou, por exemplo, nas histórias das andanças de Jesus com São Pedro, “quando Jesus andava no mundo”…

1. Princípios fundamentais da Diaconia Social

A Bíblia compreende o ser humano como imagem e semelhança de Deus. Este é um princípio universal que alcança toda criatura humana no mundo, independentemente de sua condição concreta. Nos dois primeiros capítulos de Gênesis, macho e fêmea constituem o conjunto humano designado como “Adam”, “Terrestre” (cf.1, 26). A imagem de Deus se expressa no homem e na mulher em conjunto, ou seja, na humanidade enquanto coletividade sexuada: “Deus criou Adam a sua imagem, à imagem de Deus o criou, macho e fêmea os criou”. “Adam” é um ser no plural, com duas expressões complementares (cf. Gn 1, 27). No 2º capítulo, acrescenta-se que o marido é “ix” e a mulher “ixah”, ou seja, são o masculino e o feminino do mesmo ser, destinados, por isso, “a tornar-se uma só carne” (2, 23).

 A simbologia é muito expressiva, o ser humano é feito do “húmus” da terra, “humano” vem de “húmus” e quer dizer ‘da terra’. É da “argila” do solo que também brotam todos os vegetais e é dela que são feitos os animais (2, 9.19). Há, portanto, profundo parentesco entre todos os seres terrestres, dos minerais ao ser humano. E assim como há o vínculo matrimonial entre homem e mulher, assim também tem de ser entre o ser humano e a terra, pois são apenas o masculino (adam) e o feminino (adamah=barro) da mesma realidade terrestre.

 A Bíblia joga poeticamente com as palavras para expressar em símbolos a mensagem de nossa íntima relação com a Terra: somos da mesma “casa” e da mesma “carne. Por isso, falamos de “ecologia”, lógica da casa. No 2º capitulo, o macho se chama “Adam” (do barro, da terra) e a fêmea se chama “Vida” (hayah, em hebraico, que deu Eva em nossas línguas). Sendo da terra e, ao mesmo tempo, máxima expressão da vida, a ponto de ser capaz de transmitir a imagem de Deus que está em sí (cf. Gn 5,1-3), a humanidade é como jardineiro do jardim de Deus (cf. Gn 2,15). Sua tarefa de cultivar, guardar e governar (cf. Gn 1, 26) requer a atitude de cuidado amoroso, como se dá no casamento, pois são uma só carne, “Adam” e “Adamah”. Por isso, Economia ( “lei da casa” (a lei que criamos para reger a casa) tem de ser radicalmente respeitosa da Ecologia, “lógica da casa”, já anteriormente impressa nas coisas desde a Criação.

Nos tempos antigos da Igreja, por influência da antropologia grega, se interpretou “a imagem de Deus” como simplesmente o equivalente da natureza racional do ser humano. Seríamos imagem de Deus porque somos capazes de pensar e querer. Na mentalidade da Bíblia, porém, não é exatamente assim. Claro que não se despreza essa dimensão racional (o que chamariamos de “consciência” de si e do mundo em redor), mas a ênfase recai sobre a capacidade humana de agir, trabalhar, como representante de Deus para governar a criação. É “semelhante”, como embaixador plenipotenciário para atuar em nome de Deus, como se no meio do jardim estivesse o retrato da divindade impresso na humanidade. Ora, o ser humano é eminentemente “cultural”, cultiva, “recria” os seres mediante a culturacultua o mistério, guarda, governa e transforma o mundo; governo, no entanto, que supõe amoroso cuidado matrimonial, pois a terra é “osso dos meus ossos e carne da minha carne”: Adam e Adamah, como se dá entre esposo e esposa (cf. Gn 2, 23).

No Novo Testamento o tema da “imagem de Deus” se aprofunda ainda mais e se radicaliza em Jesus, a imagem perfeita de Deus, princípio da reconciliação e da plenificação do universo (cf. Cl 1,15-20; Ef 1,3-23; Hb1,1-4). Por isso, não somos apenas “semelhantes” ao Criador, mas, por Cristo, revela-se que somos filhos e filhas de Deus (cf. 1Jo 3, 2), não mais escravos ou escravas ou crianças menores de idade, mas com o direito pleno de maioridade à posse da “casa” que é o mundo (cf. Gl 3, 23-4, 11). Esse é o fundamento mais profundo dos direitos de “cidadania do Evangelho”, que devem  manifestar-se em nossa cidadania terrestre, como se expressa claramente o Apóstolo:“Somente vivei com dignidade, comportando-se como cidadãos do Evangelho  de Cristo” (Fl 1, 27).

Em toda a Bíblia, há uma profunda unidade entre Libertação histórica, pela justiça e paz, e Salvação plena da vida humana. É o que se vê, por exemplo, nos Salmos. A corrente profética, desde o livro do Êxodo, passando pelo Deuteronômio e pelos escritos das profecias até os evangelhos, os Atos dos Apóstolos, as Epistolas e o livro do Apocalipse, tem como perspectiva uma sociedade livre fundada na posse comum ou partilha de bens, como condição de felicidade ou “bem viver” (xalôm). Isso porque a salvação equivale à realização total da pessoa e do universo, como nos dizem muito claramente a Epístola aos Romanos (cf. cap 8º) e a Epístola aos Efésios (cf. cap. 1-2). Ora, o que caracteriza a pessoa é a liberdade e essa se constrói em íntima relação com as condições materiais de vida, na medida em que a pessoa se liberta de seus condicionamentos e se possui cada vez mais plenamente para oferecer a própria vida mediante o amor, o qual se concretiza em serviço e partilha, ou seja, em atenção às necessidades humanas em redor de nós (cf. Gl 5). É esta a experiência humana da Transcendência ou de Deus: a pessoa se possui, não enquanto se retém para si mesma, mas na medida em que se ultrapassa. É em si, não enquanto é para si, mas enquanto é para além de si, Esse Mistério “para além”, que nos humaniza, é o que chamamos de Deus, pois de Deus mesmo, em seu íntimo, nada sabemos. Nós O experimentamos entre nós e em nós, quer dizer, como dimensão transcendente de(em) nossas pessoas e de(em) nossas relações.. O Nome, a identidade divina não se revela, o que Moisés escuta é “Eu sou o que Sou” ou “Eu Estou aí”, ou “Eu Estou contigo”… a saber, tu farás a experiência de minha presença contigo, em meio ao processo de Libertação (cf. Ex 3, 13-15).  A Teologia da Libertação tem trabalhado abundantemente esta temática. Mas já Santo Tomás nos dizia que de Deus podemos até perceber a probabilidade de Sua existência (é mais fácil explicar o mundo a partir da causalidade divina), mas nada sabemos sobre o que é em Si mesmo. Na verdade, Sua identidade é imanipulável, nos escapa absolutamente.

 A expressão “Reino de Deus”, assumida por Jesus como categoria central de sua pregação e ação (cf. Mc 1, 14-15), exprime a “política de Deus” quanto às relações entre as pessoas (comunidade: cf. Mc 10, 35-45), às relações e estruturas no país (nação justa: cf Is 1, 21-28; cf. Livro da Sabedoria) e às relações entre os povos (paz internacional: cf. Oráculos proféticos sobre as nações, e Ef. 2; e Apocalipse). A soberania de Deus sobre a terra instaura o “xalôm”, a felicidade e harmonia universal (cf. Is 2, 1-5; 9, 1-6. 11, 1-9).

 Segundo todos os evangelistas, é meridianamente claro que, no ministério de Jesus, a salvação de Deus passa pela restauração da vida das pessoas em seus corpos e em suas emoções. É o que vemos nos “sinais” de cura e nos gestos de defesa de pobres e humilhados ( Mt 10 e Lc 10; Lc 1, 46-55; 4, 16-30; 6, 20-7,30; 13, 10-17; Jo 9). Jesus se identifica com os “menores” que necessitam igualmente de viver; pessoas empobrecidas, enfermas, estrangeiras, desprezadas, mulheres, crianças, pessoas excluídas e alienadas até de si mesmas… Proclama inequivocamente que a prática ético-política está acima e além dos ritos e crenças, pois a fé se manifesta nas obras de restauração da vida (cf. Mc 1, 40-45; 2, 1-12. 23-28; 3, 1-6; 12, 28-34).

2. O objetivo da Diaconia Social é essencialmente politico

Se somos filhos, somos também herdeiros(as)”… a obra de Deus, a criação, foi entregue em nossas mãos (cf. Rm 8, 14-39), julgaremos o mundo e até os anjos, “quanto mais as coisas da vida quotidiana” (1Cor 6, 1-3). Não basta apenas “ajudar” ou “prestar assistência” às pessoas em suas necessidades imediatas. A tarefa que o Evangelho nos impõe é levar as pessoas a tomar consciência dessa dimensão profunda de seu ser divino, de sua “imagem e semelhança” com Deus, de sua filiação divina em Cristo: “com Ele nos ressuscitou e nos fez assentar nos céus” (Ef 2, 6).

 Nossa “cidadania celestial” (Fl 3, 20; Rm 8, 28-30), esse segredo escondido aos olhos do mundo, deve revelar-se na cidadania terrestre mediante nova maneira de viver a vida em sociedade (Cl 3, 1-11). Isto se dá no enfrentamento de um conflito com as potências adversárias a Deus, as quais se encarnam nas estruturas deste mundo (cf, Mt 4 1-11; Lc 4,1-13; Ef, 6, 10-20): “Não vos conformeis (tomar a forma) às estruturas do sistema deste mundo, mas transformai-vos profundamente” (Rm 12, 1-2).

Mediante o “ministério da reconciliação”, nosso objetivo é colaborar com Deus para que se manifeste uma realidade nova, a “nova criação” em Cristo (cf. 2Cor 5, 16-21; Is 43, 16-21), cuja revelação é a derrubada das barreiras e o estabelecimento da paz internacional, como haviam anunciado os profetas (Gl 3, 28; Ef 2, 11-22). É o mesmo que dizer “o Reino de Deus”, anunciado pelos profetas e por Jesus, como afirmação da soberania de Deus sobre a criação e a sociedade humana, cuja manifestação é o “xalôm” produzido pela prática da Justiça (cf. Is 2, 1-5; 11, 1-9; Os 6 6; Mq 6, 6-8).

 Segundo o Apóstolo São Paulo, quem é discípulo ou discípula de Jesus pertence à “ecclesia”, ou seja, à “assembleia alternativa” (o rebanho do Bom Pastor segundo Jo 9 e 10). Nela se reúne quem está despossuído de poder e de posse na sociedade – a vocação da Igreja é inspirar um movimento alternativo no seio da sociedade civil. O famoso teólogo Carlos Barth compreendia a Igreja como “conspiração de testemunhas” (“conspiratio testium”) contra o sistema estabelecido na sociedade. Como deveríamos estar longe dos costumes eclesiásticos de nos sentir “poder religioso”, à vontade entre donos do poder, em vez de nos sentir em relação “natural” com as bases populares em meio à sociedade civil! Sim, porque é isto de que se trata: de lutar em vista de transformar as relações de poder, para que o controle sobre as instituições econômicas e sociais esteja nas mãos da sociedade civil e os recursos, que são originariamente de todos os seus membros, possam de fato servir ao bem estar coletivo. Reordenar o poder é tarefa eminentemente política, política do Reino de Deus.

 A categoria teológica “filiação divina” é a doutrina central do Cristianismo, o centro da Boa Nova de Jesus (cf. Jo 1 e 3), aprofundada pelo Apóstolo São Paulo (cf. Cartas aos Gálatas e aos Romanos).  Para garanti-la, é que os grandes concílios da Igreja antiga sentiram-se impelidos a elaborar a doutrina da Trindade e a Cristologia. Ou seja, a doutrina trinitária e a Cristologia foram elaboradas para garantir o que chamamos de Antropologia Teológica, a saber, nossa cidadania divina de filhos e filhas de Deus. Dizia o grande Santo Atanásio, em luta contra o arianismo (e o Imperador Constantino): “O que não é assumido, não é elevado”. Foi preciso lutar para afirmar a divindade de Jesus, uma vez que, se fosse um simples homem, não nos teria elevado à condição de filhos e filhas de Deus, nossa cidadania celestial. Ora, é essa condição que nos possibilita ser herdeiros e herdeiras da obra de Deus, que é Sua criação, como vimos acima no texto da Epistola aos Gálatas. Em termos sociopolíticos, a doutrina da “filiação divina”, que é o centro da vida cristã, se traduz como “cidadania” e nos garante que Constantino, a saber, o poder político e do Estado, não é deus, não pode ter a última palavra sobre os destinos do povo. Nesses antigos concílios faz-se claro que Teologia ou visão de fé tem tudo a ver com organização da sociedade e política. Em outras palavras, a luta pela cidadania teria de estar no centro da tarefa da Igreja, já que é a tradução “secular” de sua mensagem central, ou seja, lutar pela cidadania é o que dá credibilidade à mensagem de salvação anunciada à sociedade. Com ela, o Evangelho revela toda a sua energia libertadora e poder de transformação da vida dos povos. Com efeito, na Idade Média, o Papa Gregório VII proclamava a “libertas Ecclesiae” (liberdade da Igreja) contra o domínio dos Estados e dos príncipes; na Reforma, Lutero anunciava a “libertas christiani” (liberdade do cristão) no seio da Cristandade dominada pelo poder clerical; nas revoluções americana e francesa, o mote foi secularizado: “liberdade do cidadão”. Sempre em jogo a liberdade, o valor central do Evangelho, como vimos acima. Pena que a proclamação tenha ficado só no masculino… o Apóstolo, porém, estava infinitamente adiante: “Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, pois todos(as) vós sois um só em Jesus Cristo” (Gl 3, 28).

3. O método da Diaconia Social e Política é o serviço

Nos evangelhos, Jesus se apresenta como o SERVO por excelência, encarnação histórica do ideal proclamado particularmente pelo profeta Isaías nos “Cânticos do Servo Oprimido e Vitorioso” (Is 42; 49; 50; 52-53): “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate pela multidão” (Mc 10, 45). Esta perspectiva está presente de forma evidente no Evangelho segundo Marcos, quando narra a subida de Jesus a Jerusalém: o conjunto das sucessivas cenas da caminhada tem como objetivo mostrar que a proposta de Jesus é o método do serviço e da partilha, ambos intimamente associados (cf. Mc 8, 31—10, 45). Toda a caminhada, com efeito, está emoldurada pela figura da cegueira (cf. Mc 8, 22-30 e 10, 41-52).

A Igreja é a “comunidade messiânica” que se encarrega de levar adiante a obra de Jesus, enquanto, ao mesmo tempo, testemunha ao vivo Sua maneira de ser: mediante gestos e palavras, anunciar a proximidade imediata (“entre nós e em nós”) do Reino de Deus, pelo método do SERVIÇO. “Método” quer dizer caminho, servir é o caminho para a Igreja trilhar. Por isso a identidade da Igreja, de seu ser e de seu quefazer, não é a religião, mas o serviço como método de transformação do mundo; a “religião” é apenas um de seus veículos, particularmente lhe empresta a linguagem para expressar e comunicar sua experiência do Mistério da Fé, e celebrá-lo.

Porque o ser da Igreja é serviço, tudo nela tem de ser diaconia: diaconia da Liturgia, diaconia da Palavra ou do Ensino, diaconia da Ação Sociopolítica. Não se pode entender um culto cristão que não seja “serviço do povo” e ao povo (é justamente o sentido do termo “leitourgía”), um culto cristão clerical, centralizado, excludente seria uma contradição à própria identidade da assembleia cristã, infelizmente, pode ser a expressão do que a Igreja realmente é: uma aristocracia clerical a dominar um laicato considerado menor, incapaz e por isso precisado de permanente tutela: o jeito da celebração reflete, como espelho, o jeito das relações reais na vida. Na Igreja, o ensino não pode ser autoritário, “bancário”, como diria o saudoso Paulo Freire e conforme nos declara o Novo Testamento: “Vos, porém, tendes recebido a unção que vem do Santo, e todos vós possuis a Ciência” (1 Jo 2, 20). No v27, o texto acrescenta algo que, por sinal, está impresso na pedagogia libertadora de Paulo Freire: “Não tendes necessidade de que ninguém vos ensine…” “Ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinho, todos e todas nós nos educamos em comunhão.” Da mesma forma, na ação sociopolítica, não se trata de “assistir” as pessoas, mas de ajudá-las a ser mais plenamente, não se trata de “dar”, mas de servi-las em sua “caminhada” de conquistar a própria vida.

4. As Cinco Marcas da Missão da Igreja

Há anos, a Comunhão mundial das Igrejas Anglicanas, através do chamado Conselho Consultivo Anglicano (espécie de “parlamento” do Anglicanismo mundial, com representantes do episcopado, do clero e do laicato de todas as partes da Comunhão) formulou o que chamamos de “Marcas da Missão”. Uma síntese breve e clara de qual é a tarefa da Igreja na sociedade. Essa síntese parece-me um dom para a Igreja universal, pois nos ajuda a ter, sintética e claramente, a visão do que deve ser a Igreja de Jesus. Aliás, a “Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi”, do Papa Paulo VI, de 1975, coincide na mesma perspectiva de compreensão da tarefa missionária da Igreja.

Missão não é uma tarefa determinada, mas é objetivamente o ato de Deus de enviar pessoas a participar de Sua própria tarefa criadora e redentora (cf. Ex 3, 7-12; Jr 1; Is 6); subjetivamente, é a consciência que temos de ser pessoas enviadas, participantes da “missão de Deus”. É o que vemos em todos os relatos de vocação na Bíblia.

Evangelizar é a tarefa de, mediante gestos e palavras de libertação das pessoas e dos povos, anunciar a Boa Nova do Reino de Deus (Lc 4, 16-21; At 10, 34-43). Isto se faz mediante o processo de conscientização do povo, de que é nele que reside a sabedoria e o poder de Deus, pois espontaneamente não o sabe e, por isso, não crê em si mesmo. Vale a pena ler com atenção a reflexão feita pelo Apóstolo São Paulo em 1 Cor 1-4. É um processo que só se pode descrever como recriador das pessoas, como o faz o evangelho segundo São João, capítulo nono: passar da cegueira à visão, da marginalização ao reconhecimento do próprio poder de pessoa livre, da integração no sistema de opressão à coragem de desmascarar a ideologia que o legitima (cf. Jo 9 e 10; cf. minha meditação “Da Cegueira à Visão – ação social e evangelização”, publicada na série “Palavra na Vida”, número 351, CEBI, 2017). Carlos Marx falou disso quando tratou da “alienação” e Paulo Freire quando fala de “introjeção do opressor no oprimido.”

Serviço não é uma das tarefas da Igreja, ao lado da tarefa de evangelizar e de celebrar o louvor de Deus, mas, como se disse acima, é o método de tudo o que a Igreja faz, pois ela só foi enviada, para evangelizar. Por isso é decisivo perceber à luz das Escrituras o que significa realmente “evangelizar”.

O que é EVANGELIZAR? Jesus é o modelo, quando anuncia o “Evangelho do Reino” (Mc, 14-15), por gestos e palavras, como acontece na magistral narrativa de “abertura dos olhos” do cego (cf. Jo 9). Acolher o anúncio é converter-se, isto é, conforme a imagem do Primeiro Testamento, “voltar a Deus” mudando a direção dos próprios caminhos no mundo. A conversão “espiritual” se manifesta mediante gestos “materiais” de ruptura com o sistema estabelecido (cf. Mc 1, 16-20; Lc 4, 16-21) e de partilha dos bens (cf. Lc 3, 10-14).

 A lógica interna das “Marcas da Missão” aponta para a unidade profunda das cinco dimensões do anúncio da Boa Nova, ou seja, da “evangelização”, a mesma intuição que tem inspirado muita gente a falar de “ecossocialismo” ou “sócio-ambientalismo” (Os 4, 1-3):

  • DIGNIDADE: o anúncio da Boa Nova (Evangelho) leva à conversão, a mudar de vida, o que corresponde a perceber-se com a dignidade de pessoa, filha ou filho de Deus, e, por isso, equivale a insurgir-se contra o que “escraviza” (idolatria), pois a pessoa passa a sentir-se livre para relações qualitativamente novas, o que São João chama de “vida eterna”. Confessar a fé corresponde a este primeiro passo;
  • COMUNIDADE: pessoas convertidas rompem necessariamente com o sistema ordinário do mundo, entram num novo rebanho mediante o Batismo (cf.9 e 10) e aí são “nutridas” por relações comunitárias. Estas se concretizam pela comunhão fraterna (“koinonía”); pelo aprofundamento da Palavra (“didaskalía”); pelo serviço recíproco (“diaconía”) e pela iniciação e aprofundamento no mistério de Cristo, Messias e Filho de Deus, Cabeça do Corpo da Igreja, Plenitude do universo, Senhor que a todos e todas unifica (mystagogía e leitourgía). Assim, a Igreja se “forma” para ser “ícone” e profecia viva de nova sociedade
  • SOLIDARIEDADE: o reconhecimento da dignidade de todas as pessoas na comunidade necessariamente transborda em novo olhar na direção da sociedade. Negar a dignidade de alguém é já simultaneamente negar a dignidade de qualquer ser humano e por isso a minha própria. Não sentir-se, enquanto humanidade, um único “sólido” é, pois, admitir que alguém possa fazer o mesmo que estou fazendo ao negar a outrem. A solidariedade universal é a única via coerente a quem faz a experiência da vida comunitária, por isso a verdadeira Igreja necessariamente “sai” (“Igreja em saída”, convoca o Papa Francisco) para encontrar-se com todas as diversas categorias oprimidas e marginalizadas na sociedade, através de “serviços de amor a quem necessite
  • JUSTIÇA: ao exercer a solidariedade, os olhos se abrem sempre mais amplamente e mais profundamente para enxergar as causas da opressão e, assim, restaurar a dignidade comum. Não basta abrir-se à solidariedade e prestar assistência a pessoas e categorias pobres e marginalizadas, aos “caídos da guerra, que tombam a nosso lado e mesmo a nossa porta”, como dizia Dom Helder Camara. A restauração da dignidade comum passa necessariamente pela “luta contra as estruturas injustas da sociedade”, pois nelas estão “as razões da guerra da miséria”, dizia novamente Dom Helder
  • CUIDADO (“compaixão universal”): quando o próprio planeta está em perigo e a própria vida se acha ameaçada, nossa fé no Deus Criador e Libertador exige de nós “cuidar da terra, zelar por seus recursos, mediante sua preservação e renovação”. Nisto a espiritualidade budista tem muito a nos ensinar; mesmo sem nos tornarmos panteístas (“tudo é Deus”), estamos plenamente autorizados(as) pela Bíblia a assimilar uma atitude espiritual “panenteísta (“tudo em Deus”), para tratar com fina delicadeza todas as coisas, pois os seres criados são participação no próprio ser divino, que é o Ser em plenitude, já nos ensinava Santo Tomás.

Quando se reflete mais profundamente sobre as Marcas da Missão, percebe-se que, por elas, se elabora um conceito unitário de Evangelização. As duas primeiras falam da constituição da comunidade cristã: proclamação do Evangelho, conversão e constituição da comunidade pelo Batismo, com o traço característico da “diaconia de amor fraterno” (diakonía de agapé). Uma Igreja assim constituída se torna por si mesma anúncio vivo do Evangelho de Jesus, cresce por irradiação, faz-se proclamação por sua vida, é Evangelho encarnado em gestos e jeito de ser: “Vejam como se amam”, diziam os gentios sobre o grupo cristão nos começos do Cristianismo.

As três seguintes apontam para fora, abrem a Igreja a serviço da sociedade. Uma vez constituída, não é chamada a se fechar num “clube” religioso. Por isso, pergunta-se: “Para que nos congregamos?” Chama a atenção que são três entre cinco: solidariedade mediante “serviços de amor a quem necessite”, “luta pela transformação das estruturas injustas” (promoção da justiça) e “cuidado com a criação” mediante o respeito pela “lógica da casa” (ecologia). É o Evangelho testemunhado por gestos de redenção do mundo, “diaconia de testemunho de amor universal”. Tudo isso em vista de estabelecer na terra o “xalôm” de Deus, a felicidade ou plena paz ou o “bem viver” (cf. Sl 85). Fica claro que o conceito de evangelização é compreendido como anúncio mediante gestos e palavras, como se deu na própria atuação de Jesus. Por isso, o conceito de “evangelização” é bem diferente do que, em certos ambientes, se chama de “evangelismo”, este contempla apenas a explicitação pela palavra.

5. Diaconia Social e Política na Igreja

Pelo que se disse até aqui, deve ser evidente que a diaconia social e política não é dimensão ou tarefa paralela ou agregada ao que seria a tarefa própria da fé cristã e da Igreja na sociedade, como se a tarefa só dissesse respeito essencialmente ao campo religioso; nem é ação subsidiária, substitutiva, em relação às tarefas do Estado ou da sociedade civil, algo que se acrescentasse, eventualmente, à tarefa de “evangelismo”. É bastante frequente pessoas, sobretudo poderosas, dizerem que a Igreja deve restringir-se ao “espiritual” e não se imiscuir em assuntos econômicos, sociais, políticos e culturais. Essa visão refletiria o dualismo herdado da cultura do Helenismo (dualismo antropológico, teológico, ético, social e político e de gênero), cuja base é a oposição “espírito/matéria”, “alma/corpo”. E é bastante comum escutar lideranças eclesiásticas, ainda hoje, mesmo depois que a Igreja já tem caminhado tanto para ir ao encontro da sociedade, darem razão, mesmo sem querer, a essa maneira de ver, quando dizem “candidamente” que “a missão da Igreja é essencialmente religiosa” e sua interferência “no social” é “ação de suplência” que não tem a ver com sua tarefa específica. Para quem lê a Bíblia com atenção, o sentimento é de estarmos aqui a perceber a força de contaminação que tem a ideologia dominante dos poderosos do mundo… ou a dificuldade de a Igreja deixar definitivamente de se imaginar parte do estamento de poder junto ao poder mundano.

A Igreja sempre é enviada a evangelizar por gestos e palavras que sejam relevantes para a vida pessoal e coletiva, no contexto concreto de determinada sociedade e de cada época. Ora, anunciar libertação na vida coletiva, no contexto concreto de determinada sociedade, equivale a interferir necessariamente na dimensão econômico-social, política e cultural. Restringir-se ao “espiritual”, na verdade, significa limitar-se a tratar apenas com “indivíduos” desvinculados da coletividade humana. Que monstruosidade! Ao contrário de “ação de suplência” ou substitutiva ao Estado e à sociedade civil, a  tarefa própria e essencial da Igreja é, em cada época e em cada sociedade, discernir quais são os “sinais” de vida, os gestos significativos do carinho de Deus por Seu povo, “os sinais dos tempos” (cf. Mt 16, 1-4). Dois campos têm sido privilegiados pela tradição social da Igreja na história, o da saúde e o da educação. Houve um tempo em que o abandono, a que os pobres eram deixados, levou a Igreja a fundar hospitais e escolas para responder a esses dois aspectos essenciais da construção das pessoas. Hoje em dia parece que já não é esse o campo privilegiado do testemunho. Há outras urgências prementes a clamar pelo socorro de Deus: a sorte dos povos indígenas, a terrível situação do povo negro, particularmente na própria África, a questão da posse da terra para trabalhar e habitar, a precária condição de trabalhadores(as), as crianças, as pessoas idosas, o flagelo das drogas e a violência contra jovens e mulheres, a educação política para recuperar a dignidade da cidadania, o trabalho de conscientização e educação política das pessoas, a fiscalização sobre quem exerce a função pública, etc.

A diaconia social e política é dimensão essencial à fé e à vida e ação da Igreja: “salvação” é restauração da criação em toda sua amplitude. O amor a Deus, a sintonia com Ele (“consagrar-se a Deus”) se faz em nós amor de Deus pelo mundo (Jo 1, 16 —  “ser consagrado(a) por Deus”– Deus nos devolve a nós mesmos(as) e aos demais: A mística profética e a condição de filiação se expressam em paixão pela obra de Deus, que é a vida de Seu povo: “O zelo por tua casa me devora” (Jo 2, 17; Sl 69, 10), foi o testemunho que nos deixou Jesus.

É significativo que Jesus, na última viagem a Jerusalém, no caminho com seus discípulos, tome o tempo para instrui-los a respeito do Reino de Deus. E qual o conteúdo da instrução? Poderia ter falado de inúmeros temas, de assuntos religiosos, de sacramentos, da organização da Igreja…. No entanto, só fala de dois assuntos: poder e posse. Insiste sobre os dois sentimentos mais profundos que afetam todos os nossos projetos e relações: o desejo de tudo dominar, inclusive as pessoas; e o desejo de tudo possuir, inclusive as pessoas – o estrato antropológico mais profundo sobre o qual se constrói ou se destrói a comunidade e a solidariedade. Para Jesus, portanto, nas relações políticas (de poder) e nas relações econômicas (de posse) é que se dá o grande conflito entre o Deus vivo e os ídolos. Ou servimos o Deus vivo, entregando nossas capacidades e dons pelo serviço às pessoas vivas (cf. Mc 12, 28-34), ou servimos os ídolos do poder, cuja imagem está gravada nas moedas, e as imagens são símbolos narcisistas de nossas carências e autocomplacência (cf. Mc 12, 13-17). Ou servimos a Deus ou o dinheiro (cf. Mt 6, 24). Ou compreendemos a vida como comunhão, mediante relações fraternas e partilha de bens, ou corremos desesperadamente a apropriar-nos das coisas e das pessoas a nosso serviço, para preencher o vazio de insegurança infantil que nos devora.

A diaconia sociopolítica é dimensão constitutiva do objetivo e do método da Evangelização. O “serviço de amor fraterno” e as lutas pela justiça na sociedade são caminho (método) e instrumento de anúncio do Evangelho; e a experiência mais plena de liberdade e felicidade do povo é o objetivo do anúncio de “novo céu e nova terra” (cf. Ap 21. 1; Is 65, 17; 66, 22). É o que vemos no padrão de evangelização iniciado por Jesus: entrar nas casas, ir às praças públicas, cuidar/curar as enfermidades (enfermidades querem dizer fragilidades), expulsar as forças satânicas que dominam e alienam as pessoas, “exorcizar” a marginalização e anunciar que a felicidade (xalôm) é possível, eis a chegada do Reino de Deus, do “xalôm”, do bem viver (cf. Mt 10; Lc 10, 1-16).

A diaconia sociopolítica se realiza, primeiramente, mediante a presença e o engajamento de cada crente na sociedade (família, profissão, organizações sociais, entidades e redes do Movimento Social, instâncias políticas…), como sal, luz e fermento de transformação do mundo ( cf. Mt 5, 13-16); mediante a presença da Igreja, como coletividade e instituição, em movimentos, organizações e redes da sociedade civil (CONIC, Diaconia, CESE,  rede FEBRASIL, Fórum Social Mundial, esforço conjunto para cumprimento das Metas do Milênio, etc); mediante projetos de iniciativa da Igreja, como gestos-veículos que facilitem o diálogo evangelizador com segmentos e grupos pobres, vulneráveis e excluídos.

Diaconia sociopolítica é também processo de reeducação da própria Igreja para perceber corretamente o horizonte profético-político de qualquer gesto de serviço em sua vida e ação. O trabalho de diaconia social e política tem de ser, antes de tudo, de reeducação, fazer-nos perceber a essencial dimensão sociopolítica da fé cristã, daí por que é fundamental o papel da releitura bíblica, da informação sobre a realidade social, da capacidade de analisar o sistema vigente em suas contradições e da participação direta na vida e nas lutas do Movimento Social. Na verdade, durante toda a história, se revelou que a relevância da Igreja depende de sua capacidade de ser agente de civilização, o que se dá mediante sua incidência real sobre as dimensões da vida da sociedade: ou na economia, ou no campo das relações sociais, ou na política ou na cultura e religião. O período medieval mostra-o de maneira irrefutável.  

O fato é que, apesar de sermos um povo bom, generoso e sensível a ajudar os pobres; apesar de promovermos “projetos sociais” até apreciáveis; apesar também de termos pessoas com significativos engajamentos na sociedade, na verdade, o nível de participação do povo cristão no Movimento Social e nas lutas da cidadania, e o nível de consciência política são muito baixos, há uma densa nuvem de alienação política que paira sobre as nossas congregações e comunidades. Somos, paradoxalmente, Igreja enviada ao mundo, “chamada a sair” e deixar de “auto-referenciar-se” (como denuncia o Papa Francisco e a liderança da Comunhão Anglicana mundial) que, no entanto, vive muito voltada para dentro, para si mesma, quando não apenas preocupada em manter-se à maneira de uma “religião” ou um “clube de piedosos” para conforto de seus membros. Dizia um famoso arcebispo de Cantuária que “a Igreja se destina a ser, certamente, a única associação cuja finalidade é cuidar de quem não faz parte dela”. Vejamos bem: não basta “gostar de Deus” ou tentar seduzi-lo por nossas pequenas obras, particularmente observâncias religiosas; a finalidade da vida é “tornar-nos semelhantes a Deus”, por entregar-nos às outras pessoas e ao mundo.

6. “Ação de Serviço” e “Ação de Desenvolvimento”

Não se trata de ações alternativas (ou uma ou outra) nem de ações cumulativas (uma e outra). Temos de ter muito cuidado com estes termos:

SERVIÇO: toda ação da Igreja (liturgia, ensino, estruturas de convivência e governo, ação social) tem de ser serviço, é seu método essencial, como se disse acima. Serviço, porém, não deve equivaler a mera “assistência” aos pobres, pois qualquer “serviço de amor” só o será se for transformador de quem se ama: o “serviço de amor” é expansão da Graça, por isso nasce da gratidão e se manifesta como gesto de gratuidade, isto é, torna-se graça outra vez para outrem. Ora, a Graça é sempre regeneradora. Daí por que o “serviço de amor” é solidariedade, em termos bíblicos, misericórdia ou compaixão com quem necessita. Palavras muito expressivas: “misericórdia” quer dizer sentir no coração (cor, cardia) a miséria de outrem; “com-paixão” significa sofrer com outrem, compartilhar sua paixão. É o que podemos ver, por exemplo. na relação de Jesus com o leproso (cf. Mc 1 40-45), com o homem da mão aleijada (cf. Mc 3, 1-6) e a mulher hemorroíssa (cf. Mc 5,25-34). Por isso, cria relações horizontais de “estar-com”, de “carregar” em conjunto, “assumiu nossas dores e carregou nossas enfermidades” (Mt 8 17)) e visa a promover as pessoas em sua dignidade a partir do ponto em que se acham na vida, e leva a participar. Toda “ação de serviço” tem de ser, ao mesmo tempo, e, ao menos, virtualmente “ação de desenvolvimento”, de crescimento de outrem e por isso mesmo educativa. Com efeito, educar é fazer crescer, participar como autor de um processo de aumento. “Autor” vem do latim “auctor”, que por sua vez deriva do verbo “augere” que significa aumentar, crescer.

DESENVOLVIMENTO: o conceito de “desenvolvimento” tem forte carga ideológica, da “ideologia do progresso”, e seu padrão é o processo de enriquecimento e bem estar dos países chamados “desenvolvidos”, processo alicerçado na opressão econômica, na dominação politica, na alienação cultural e na depredação da Natureza pelo progresso tecnológico sem limites. O filosofo espanhol Ortega y Gasset definia a técnica como a “produção do supérfluo”. É urgente redefinir o padrão que preside a nossa civilização: O que é desenvolvimento? Quais devem ser seus indicadores? Vamos preferir índices de mero crescimento econômico ou índices de desenvolvimento humano? De fato, há populações extremamente pobres, como é o caso de povos aborígenes, que são grandemente ”desenvolvidas” no que toca ao cuidado para com a Natureza.

O conceito de “desenvolvimento”, como o temos recebido e assimilado, deve ser urgentemente completado ou até superado pelo de “envolvimento”, isto é, solidariedade com todos os seres humanos e “compaixão” por todos os seres do universo, que é a perspectiva socioambientalista ou ecossocialista, sem esquecer a dimensão ecofeminista. “Desenvolver” é o oposto de “envolver” pois quer dizer “desembrulhar”, desdobrar. Desejamos apenas “desdobrar”, expandir o mesmo sistema que tem produzido os resultados que lamentamos, ou queremos transformá-lo? Trata-se de “desenvolvimento” ou de “transformação”, de “crescimento” ou de “libertação” das pessoas e povos? Por que não pensar que o autêntico crescimento (para não usar o termo “desenvolvimento”) só se faz mediante o serviço, através do qual irradiam as potencialidades das pessoas em favor de outras?

O campo do “consumo” aparece hoje como desafio ético de primeira ordem, exigindo limitar o crescimento econômico (já se fala hoje de aceitar “decrescer”), fala-se de educar-se para aprender como e o que  consumir: a salvação da vida, incrivelmente, está nas mãos das pessoas comuns, daí nossa tremenda responsabilidade. Deparamo-nos com graves problemas de agressão ao meio ambiente, de pobres privados de alimentos, de desperdício por força do consumo e das inovações tecnológicas sem limites, de despreocupação com esgotar numa geração os recursos vitais do planeta…. Hoje, já não só as Igrejas, mas sobretudo os expoentes da Ciência nos chamam à conversão e ao juízo: ou mudamos de vida ou perecemos com o planeta. No dizer de uma mulher aborígene, a terra se desvencilhará de nós como um imenso animal que se sacode para se livrar das pulgas… as pulgas somos nós; mais que nunca a conversão nos aparece como interpelação, além de religiosa, essencialmente ética e político-social. E a fé cristã, a fé bíblica se revela em toda sua atualidade: deixar-se atrair pelo brilho dos ídolos é correr em vão atrás de ilusões do vazio, como nos alertam as profecias. Nunca, talvez, como hoje, se revelou tão claramente que, se seguir a Jesus, ou os grandes mestres espirituais da humanidade, nos custa alto preço, custo ainda maior é não segui-los. Baste olhar em redor e ver o preço que temos pagado por desviar-nos da vontade de Deus – no próprio pecado social nos sobrevém o castigo: desagregação, exclusão, fome, medo, praga das drogas e da bandidagem, violência, guerras, confiança na pedagogia do terror…

Estamos de prontidão para lutar por uma economia em favor da vida, como nos convidava a Campanha da Fraternidade Ecumênica 2010? Ou ainda pensamos que essa não é a tarefa central da fé e da Igreja? Ainda julgamos que transformação econômica, social e política da sociedade não tem de estar no coração da Igreja? Ora, o que está em jogo é a obra de Deus, o mundo é a obra de Deus. Seremos tão irresponsáveis a ponto de abandonar a criação ao poder das trevas? Seria terrível dizer: “que posso fazer, eu que sou pequeno e pobre? Só os poderosos teriam como resolver problemas tão grandes”. Na verdade, são justamente os poderosos a causa principal do problema, como nos alerta Jesus no episódio da partilha dos pães (cf. Mc 6 37-38). Os discípulos imaginavam que a fome do povo só se resolveria com muito dinheiro. Ora, os homens do poder e do dinheiro estão se banqueteando no palácio de Herodes, enquanto decidem matar o profeta que protesta em nome do povo (cf. Mc 6, 14-29). Que ironia, como esperar que a solução venha justamente de quem é a causa do problema? Nunca como hoje a sorte da vida dependeu tanto das pessoas comuns, de gente como nós. Ricos e poderosos não desejam mudanças profundas, baste pensar no fracasso da Conferencia de Copenhague sobre mudanças climáticas e aquecimento global. E agora recentemente a saída dos EEUU do acordo do clima, justamente um dos países que mais poluem o planeta. Os governos também não querem as mudanças ou já não as podem fazer, de tal maneira, estão enredados na “engrenagem internacional do dinheiro” (Dom Helder Camara). Incrivelmente, a sorte do mundo está em nossas pobres mãos, na mão das pessoas comuns. A tragédia é que estamos frente a desafios imensos e tudo indica que ainda não temos maturidade suficiente para enfrentá-los. Nossa vida quotidiana, que até há pouco nos parecia “natural”, se torna sempre mais um desafio ético a envolver-nos a cada instante, a começar das pequenas coisas: abrir a torneira d’água para escovar os dentes ou tomar banho sem levar em conta que a água se torna sempre mais escassa e poluída e que já falta a vários povos da terra; comer, sabendo que povos inteiros sofrem de fome crônica e quase já não podemos avaliar quanto de veneno ingerimos; usar automóvel, sem se importar com o fato de que se trata de uma das principais fontes de poluição do ar, sem pensar nos acidentes de tráfego e nos engarrafamentos nas cidades e rodovias; usar aparelhos eletrônicos com informação de que seus componentes são construídos com minerais surrupiados de países africanos mantidos em níveis desumanos de miséria; comprar objetos produzidos a custo de mão de obra escravizada; produzir lixo sem nenhuma consciência de zelo pelo planeta…

 Praticamente já não é possível para nós, pessoas comuns, interferir nos processos de produção e muito menos ter possibilidade de decidir, tal a complexidade a que chegaram, mas quem decide nosso consumo ainda somos nós, podemos escolher o que comprar ou não comprar, e está em nosso poder resistir e não nos submeter à propaganda, cuja função é fazer-nos pensar necessário o que, na verdade, é supérfluo. Enquanto consumidores e consumidoras ainda temos enorme poder do qual ainda estamos terrivelmente alienados(as). Como voltar a discernir entre essencial e acidental, principal e secundário, necessário e supérfluo, eis um dos campos de luta espiritual, ética e política de primeira importância, desde agora e nos anos vindouros.

7. Algumas características da ação transformadora, ou de promoção humana, ou libertadora, ou simplesmente evangelizadora.

A ação evangelizadora deve ser educativa, capaz de despertar as potencialidades da pessoa. Educar vem do latim “e-ducere” que quer dizer “conduzir, guiar a partir de dentro” tanto como ação “transeunte” (cujo efeito passa aos benefíciários) quanto como ação “imanente” que transforma os próprios operadores sociais.

Deve ser processual: importa, antes de tudo, o processo, mais que o “produto”. Importa sobretudo o processo educativo mediante o qual a pessoa “se produz“ enquanto “produz”.

Deve ser metodologicamente correta, pois o mais importante não é o que se faz, não são as “obras” ou as coisas ou resultados produzidos, mas o como se faz e como nos relacionamos; antes de nossos bens (produtos), importam nossas relações, pelas quais as pessoas se constroem. Um exemplo elucidativo é a distinção entre “sopa dos pobres” e “sopa evangelizadora”. Pensando ser solidário(a), posso dar sopa aos pobres por dez anos e eles se degradarem ainda mais pela dependência, a inércia, a perda de iniciativa, e não saírem de sua humilhação. E ao promover essa sopa beneficente saio iludido de que fiz uma boa ação em favor dos pobres, minha consciência de burguês bondoso continua a me enganar a respeito de mim mesmo(a). O gesto de promover sopa tem de ser evangelizador, por si mesmo, isto é, contribuir para a reconstrução das pessoas e de sua dignidade cidadã, esta, sim, ação segundo o Evangelho, conforme podemos ver no episódio do cego de nascença no evangelho segundo São João (cf. cap. 9º): Jesus possibilitou ao cego viver experiência alternativa ao sistema vigente: integrar-se ao rebanho de marginalizados de olhos abertos (cf. Jo 10), abriu-lhe os olhos para perceber a realidade própria e a seu redor, deu-lhe coragem até para enfrentar gente muito poderosa… Tudo depende do método: despertar a iniciativa, a participação, a conquista do próprio destino. Não basta ler a Bíblia junto com a distribuição da sopa para julgar que se evangeliza. O desafio maior é que a própria sopa seja evangelizadora, que as próprias pessoas pobres sejam ajudadas a conquistar seu alimento e se criem novas relações entre elas, conosco e com a sociedade em geral, A maneira, o método de produzir a sopa já tem de despertar a consciência crítica e ativar um nem que seja elementar projeto de emancipação humana. Tem-se de começar por “fazer com” e desbloquear o diálogo coletivo. Assim se passa da mera “assistência” à “promoção humana”.

Deve ser profética, isto é, capaz de manifestar e fazer entender denúncia e anúncio, levando a identificar causas e responsáveis pela situação em que se acha o povo; por isso provocadora da consciência crítica: das lideranças, dos beneficiários, da comunidade e da sociedade, ser capaz de tirar os pobres da invisibilidade e de pô-los no centro, como se vê no comportamento de Jesus (cf. Mc 3, 1-6). “É preciso apanhar os caidos da guerra que tombam a nossa porta, mas sobretudo perguntar-se pelas causas da guerra e combatê-las” (Dom Helder Camara).

Deve ser elaborada estrategicamente a partir da realidade do povo que passamos a conhecer, e ajudar para que se consiga discernir entre “urgente”, “desejável” e “necessário”.

Deve ser participativa (em equipe) na informação, na reflexão, na decisão, na ação e na avaliação: “estar com” e “fazer com”. Um passo decisivo de nossa conversão é passar de “trabalhar para os pobres” a “trabalhar com os pobres”. Dom Helder falava dessa passagem como uma das grandes marcas de sua biografia. Há pequenos gestos significativos: deixar aguardar do lado de fora, tolerar que se façam intermináveis filas ao sol, “receber” coisas doadas que podem soar a “esmola”, não ter opinião a dar, até a maneira de arrumar as cadeiras em reunião… são aparentemente pequenas coisas que revelam grandemente a qualidade de nossas relações e de nossos projetos com os pobres.

Deve ser recriadora da pessoa como “nova criatura”, mediante o resgate da cidadania, o que se dá através de processos muito concretos de ação: no início, muito pequenos passos, pequenas experiências de reivindicar direitos, pelas quais a consciência de dependência se vai desbloqueando, verbalizar as próprias angústias e penas, aprender a analisar a realidade da vida coletiva, experimentar refletir, decidir e agir coletivamente para resolver problemas da vida, avaliar as ações empreendidas.

Deve ser realizada, não em horizonte eclesiástico, mas no horizonte do Reino de Deus: “evangelizadora”, mas não proselitista. A Graça é gratuidade e é universal e includente. Não deve ser “isca” para conquistar “fiéis”.

Deve ser consciente e sistematicamente planejada. É interessante ver que Jesus se referiu a planejamento justamente quando falava sobre o discipulado (cf. Lc 14, 25-35). Hoje temos de tirar proveito do processo de PMA (Planejamento, Monitoramento, Avaliação). No diagnóstico, é preciso identificar as carências, as fragilidades, mas também os recursos e as forças locais da comunidade, os instrumentos de políticas públicas já existentes, e animar o povo a reivindicar do poder público tudo a que tem direito, para não agir de maneira paralela e substitutiva. Cinco passos são importantes: analisar a realidadeplanejar a açãoatuar para realizar o planejado, celebrar a obra de Deus através de nossas mãos, avaliar as ações realizadas ou não.

monitoramento é a avaliação que vai acontecendo ao longo de todo o processo, de tal forma que já se possa corrigir rumos ou implementar o que se revela mais positivo e eficaz que nem sempre foi previsto no ato inicial de planejar.

Deve ser marcada pela coerência entre ação pública (politica) e “costumes” pessoais e familiares, implicação mútua de ação sociopolítica e conversão pessoal. É que a ação política deve estar fundada numa opção espiritual e numa atitude ética frente ao mundo, particularmente ética da posse e do poder frente a nossos semelhantes.

Observação final

Se somos um povo pequeno e pobre, isto não nos deve paralisar. O que importa, acima de tudo, não é o contingente numérico, mas a qualidade das pessoas, seu compromisso de vida e o processo correto de atuação. Não nos esqueçamos de que grandes façanhas tiveram como protagonistas pessoas aparentemente solitárias. Pensemos em profetas e profetisas, pensemos em Jesus (que morreu sozinho), em Paulo de Tarso, em Francisco de Assis, em Teresa de Calcutá, em Rosa Parker (negra norte-americana que se recusou a sentar-se em banco de ônibus reservado a gente negra e, assim, desencadeou a revolta pelos direitos civis que mudou a Constituição), em Gandhi, em João XXIII (“o Papa de transição foi a transição do papado”, teólogo alemão Carlos Rahner), em Martin Luther King Junior, em Helder Camara… uma pessoa pode marcar a história e impulsioná-la adiante. Mesmo sendo pouca gente e de poucos recursos, podemos ser relevantes, tudo depende da nossa significação na sociedade e da estratégia de nossas alianças. Tudo depende de nossa qualidade humana, espiritual, ética, teológica e de nossa qualificação política em vista da ação, para dar de Cristo um testemunho competente, que vá além dos templos e chegue à arena da praça publica.

Obs: O Autor é Bispo Emérito da Diocese Anglicana do Recife
Igreja Episcopal Anglicana do Brasil – IEAB….

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