Brasil de Fato: Durante a votação da denúncia contra o presidente Michel Temer no Congresso Nacional, não vimos manifestações massivas. Ainda assim, você disse que não acredita na apatia do povo. Por que?

Ivone Gebara: Eu acho que apatia é talvez uma palavra que as pessoas do governo e da situação adoram usar pelo sentido que um povo apático é um povo que está aprovando a ação deles ou que não vai se manifestar de outra forma. Mas eu acho que não. Não estamos apáticos, mas no momento de buscar uma nova saída.

Nós estamos em uma luta contínua. O povo está em uma luta contínua pela sua sobrevivência. E os momentos de manifestação de rua são especiais, mas quando eles não acontecem, isso não significa que o povo não está consciente do que ele precisa. São momentos de respiro.

A gente tem que respirar para ver qual é o caminho. Qual é a democracia que defendemos? A democracia participava, a democracia branca ou uma democracia política sem a democracia econômica? Quais são as cores e os valores desta democracia?

Eu levanto a questão até mesmo se a palavra democracia é a que vamos usar daqui para frente. Talvez tenhamos que encontrar uma outra palavra que expresse aquilo que nós estamos querendo neste momento. Não saber não é defeito nem doença: é uma condição para que a gente possa saber coisas novas e diferentes.

Você teve ligação com a Teologia da Libertação, movimento marcado pelo trabalho de formação políticas por meio das comunidades eclesiais de base. Como você avalia o trabalho de base hoje?

O trabalho de base não é uma coisa separada do estado geral da política, da economia, da cultura. Eu acho que nos anos 1970 e 1980, com a ditadura militar, a gente sabia o que era o trabalho de base porque a gente tinha alguns objetivos a atingir. E agora a gente sente o mal-estar, mas a gente ainda não conseguiu detectar por onde vamos caminhar para superar esse mal-estar, a fome, a falta de moradia… Não sabemos mais.

O que sabemos é que só os meios legais não são suficientes. Há leis, por exemplo, que dizem que não pode ter preconceito racial, lei para dizer que todo mundo tem que ter moradia, para que todo mundo tenho direito à saúde, mas elas não funcionam. A questão não é reivindicar essas leis, mas repensar concretamente os meios para obter aquilo que é fundamental para a vida das pessoas. E, talvez, tenhamos que formar “a Igreja Tal”, “o Partido tal”, mas grupos pequenos.

Eu tenho ficado encantada com os grupos de teatro popular. Eu já colaborei com dois grupos na zona leste [de São Paulo] e estes grupos estão levando uma consciência política para estes participantes porque eles estudam — eu tenho ajudado, inclusive, no nível da reflexão — teatro, música…

Eu acho que tem uma mensagem que vem do rap que é interessantíssima. Ou seja, os meios de consciência política não são mais só os partidos. Tem os grupos de mulheres… Vi um grupo de jovens que dizia: “Somos feministas mas não como as velhas feministas”. E eu digo: “Maravilha! É assim que tem que ser”. Temos que tentar captar a diversidade da formação popular hoje.

Essa diversidade a gente deveria se articular. A gente deveria ter uma articulação maior com grupos de teatro, de intelectuais, de professores que pensam a história, a filosofia, política, grupo de médicos… A nova forma não tem que se estanque. A ideia de classe social tem que ser revista, temos que falar não apenas de classe, mas de grupos que são solidários a uma causa comum.

Tem muita coisa em ebulição e em transformação.

Você tem uma trajetória como teóloga e feminista. Como enxerga esse movimento atual das jovens, que até foi cunhado de “primavera feminista”?

Eu não gosto muito do termo “primavera feminista”. Por que a gente tem que se apropriar de coisas que são de outras pessoas? Eu acho que o movimento feminista está marcado pela diversidade, e isso é uma coisa maravilhosa.

É uma ilusão a gente imaginar que o feminismo começa com as mulheres brancas. O nome feminismo, talvez; mas as atitudes feministas não começaram com as mulheres brancas. Eu acho que começaram com as mulheres negras. Lembro das negras dos EUA, especialmente, mas as negras aqui no Brasil, e a literatura de tantas mulheres negras que agora estão de manifestando. Isso é feminismo. Só que não há mais, digamos, uma ordem estabelecida feminista, uma regra. Há muitas bandeiras e eu não sou obrigada a abraçar todas, mas a respeitar as bandeiras e o diálogo entre elas. E acho que é essa a situação que estamos vivendo hoje.

Os movimentos populares defendem as eleições diretas como um pontapé para um resgate do processo democrático. Qual sua avaliação do cenário para 2018?

Claro que eu sou pelas eleições diretas. Não tenho a menor dúvida. Mas agora eu vivo um problema: com todo o carinho que tenho pelo [ex-presidente] Lula, eu tenho algumas perguntas. Será que não estamos conseguindo abrir para outras lideranças, e da mesma linha política e ética? Me parece, na realidade, que não. Isso me preocupa e é uma questão que a gente vai ter resolver e discutir. Mas, sem a menor dúvida, “Diretas, já!”.

Edição: Camila Rodrigues da Silva  (9 de Agosto de 2017 às 09:24)

Obs: Ivone Gebara é filosofa e teóloga feminista. Foi professora do Instituto de Teologia do Recife e trabalhou na formação de agentes de pastoral para o meio popular sobretudo do nordeste do Brasil. Doutora em Filosofia e Doutora em Ciências religiosas é autora de muitos livros e artigos. Vive atualmente em São Paulo e pertence à Congregação das Irmãs de Nossa Senhora.

É autora de mais de 30 livros publicados e dezenas de artigos sobre a temática.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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