Frei Betto 15 de junho de 2018

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A paralisação dos caminhoneiros obrigou-nos a enfrentar, sem alternativa, a escassez de produtos essenciais ou ao menos a ameaça de que isso viesse a acontecer.

Durante a paralisação não houve diferença entre ricos e pobres. Aos primeiros também faltou combustível para se deslocarem até onde pudessem adquirir os produtos desejados.

Um abastado advogado paulistano se viu obrigado, pela primeira vez na vida, a andar de metrô. Em rua da Zona Norte do Rio vizinhos se puseram de acordo para alternarem seus carros como lotação até o centro da cidade. 

Em muitas famílias a incerteza quanto à volta dos caminhoneiros às estradas forçou-as a moderarem o consumo de alimentos, evitando o desperdício. 

Todos os dias, 45 mil toneladas de alimentos vão para o lixo no Brasil. As perdas sobre o que é cultivado chegam a 64% e acontecem por toda a cadeia produtiva, sendo, segundo o Instituto Akatu, 20% na colheita; 8% no transporte e armazenamento; 15% na indústria de processamento; 1% no varejo; 20% no processamento culinário e nos hábitos alimentares. 

De que vale ser rico quando não se pode fugir da escassez? No cerco romano a Jerusalém, no ano 70, as mais ricas famílias judaicas ofereciam barras de ouro em troca de um punhado de trigo ou uma cesta de tâmaras. Em vão. Ouro não é comestível…

A sabedoria é considerar suficiente o necessário. No entanto, somos pressionados por poderosa engrenagem publicitária que nos induz a considerar imprescindível o que é, de fato, supérfluo. O desejo incontido de possuir algo gera ânsia de consumo em alguns e lucro para outros. A fantasia estimula o desejo. A publicidade cria a fantasia. Não se compra uma roupa, e sim um estilo de vida.

Em Bogotá um padre me contou que, na Quaresma, não incentiva os paroquianos a se privarem dos         prazeres da mesa. Promove mutirão de coleta de supérfluos, tudo isso que, em casa, ocupa espaço nos armários e não é utilizado: peças de vestuário, carrinho do bebê, pratos e talheres fora de uso etc. Tudo é destinado a um bazar em bairro de famílias de baixa renda, onde os preços são simbólicos.

Livrar-se de excessos faz bem à alma e ao corpo. Seja de bens materiais, seja disso que acumulamos no espírito: mágoas, ódio, inveja etc. A vida fica mais leve quando ousamos nos despojar. 

 Europeus da geração do pós-guerra não costumam deixar comida no prato. Guardam a lembrança da escassez. Mas quem sempre teve o privilegio de desfrutar da abundância sofre frente à possibilidade de escassez. A simples ideia de se privar de certos confortos causa tormento. Como a meu vizinho enfurecido diante de seus dois possantes carros estacionados na garagem com gasolina suficiente apenas para uma situação de emergência.

A maioria da população vive em permanente escassez: de salário digno, moradia confortável, serviços de saúde adequados, educação de qualidade, transportes individual e coletivo, acesso à cultura e arte etc.

Isso nada tem a ver com despojamento, e sim com flagrante injustiça, fruto de um sistema econômico que torna os ricos cada vez mais ricos e multiplica a multidão de pobres e excluídos.

Vim para que todos tenham vida e vida em abundância”, proclamou Jesus (João 10, 10). A escassez de bens essenciais e direitos é grave violação de direitos humanos e ofensa a Deus. Frente a isso não devemos admitir a escassez da bem-aventurança da fome e sede de justiça.

Obs: Frei Betto é escritor, autor de “O que a vida me ensinou” (Saraiva), entre outros livros.

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