Frei Betto 1 de junho de 2018

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Vivemos na era de incertezas. Há mais perguntas que respostas. Mais dúvidas do que certezas. Navegamos à deriva na terceira margem do rio. Abandonamos a primeira, a modernidade com sólidos paradigmas filosóficos e religiosos, e ainda não sabemos como se configurará a segunda, a pós-modernidade.

Estão em crise as grandes instituições pilares da modernidade: o Estado, a Família, a Escola e a Religião. Vigoram modelos e propostas para todos os gostos. 

Em meio à turbulência, emerge com nitidez o mundo hegemonizado pelo capitalismo neoliberal. A financeirização da economia supera a produtividade. A regulação da sociedade se desloca das mãos do Estado para as do mercado. 

Se no século passado a Europa fez concessões à socialdemocracia como antídoto à ameaça socialista, agora os direitos sociais retrocedem e novas tecnologias tornam obsoleto o trabalho humano.

Como tudo que é sólido desmancha no ar, é preciso criar exceções e dar consistência ao sistema globocolonizado de consumismo e hedonismo. Assim, difunde-se a ideologia da privatização, concomitante ao esgarçamento das instituições. Privatiza-se a política. Já que os políticos fracassaram, entrega-se a administração pública a empresários bem-sucedidos. Já que os partidos se desmoralizaram, cada um que lance mão de seu celular e faça dele sua tribuna de ódio ou aplauso. 

Para sustentar essa democracia virtual sobre abissal desigualdade social, cria-se a cultura da apartação. UPPs, não para combater o crime organizado, e sim para assegurar que a turba ignara desça dos morros em fúria ensandecida. Se desaba um prédio ocupado por sem tetos, a culpa é das vítimas. O discurso do ódio é legitimado até pelo STF ao confundir graves ofensas à honra alheia com liberdade de expressão. 

Passamos da era analógica à digital. Mudam também os padrões de relacionamentos. O valor do outro depende de sua posição no mercado. E fora do mercado não há salvação. 

Nem tudo, entretanto, se ajusta à mercantilização do planeta em detrimento dos direitos humanos. E o maior desajuste reside em nossa relação com a natureza. Esgotou-se o tempo. A ânsia de lucro poluiu o ar, o mar e a terra. Ou mudamos os nossos paradigmas socioambientais ou a Terra voltará a viver como ao longo de milênios, sem a nossa incômoda presença.

Há que se adotar o desenvolvimento sustentável, no qual estejam incluídos o ecológico, o social e o cultural. No fim da década de 1940, o Japão, arruinado pela guerra, era mais pobre que o Brasil. E quarenta anos depois, quando o nosso país se destacou como a 8ª economia do mundo, o Japão já figurava entre as cinco primeiras. Havia promovido uma revolução educacional, o que jamais fizemos. 

Nosso modelo de desenvolvimento continua predatório e são tímidas as iniciativas para que, neste país ensolarado, as energias eólica e solar prevaleçam sobre as fósseis, tão poluidoras do meio ambiente. É preciso mudar os paradigmas do que entendemos por progresso e avanço civilizatório. Os países europeus e os EUA comprovam que crescimento do PIB não significa redução da desigualdade social. E como tem acentuado o papa Francisco, desenvolvimento que não tem centralidade no ser humano, e sim do acúmulo do capital privado, é antiético. 

Quiçá os índios andinos tenham algo a nos ensinar quando sublinham a diferença entre “viver bem” e “bem viver”.

Obs: Frei Betto é escritor, autor do romance “Hotel Brasil” (Rocco), entre outros livros.

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