A qualidade da assistência à saúde é produto de inúmeras variáveis, que interagem num complexo e desafiador contexto e que podem ser agrupadas de diferentes maneiras. Entretanto, poderíamos afirmar que a mesma devia ser embasada em pelo menos 4 grandes pilares. Em primeiro lugar, e como condição sine qua non, tanto do ponto de vista preventivo quanto curativo, nenhuma intervenção (individual ou coletiva) pode ser utilizada sem antes ter sua eficácia científica rigorosamente comprovada. Parece óbvio, mas não é o que ocorre no dia-a-dia. Apenas um único trabalho científico (ou poucos), ou uma racionalidade, ou uma opinião de um grupo de experts ou uma recomendação de uma sociedade de especialidade (muitas vezes em forma de “consenso”) não se constitui em “prova confiável” de uma verdade científica. Para tal se faz necessário um quantitativo de trabalhos de qualidade, produzido por pesquisadores independentes, isto é, sem conflitos de interesses, submetidos a revisões sistemáticas ou meta-análises, realizadas por grupos de reconhecida excelência, independência e confiabilidade. Infelizmente, pesquisas científicas que “fazem a diferença” na área da saúde são geralmente demoradas e custosas, sendo mais exceção do que regra. Estando diante de uma aparente verdade científica, passaríamos ao segundo pilar que seria uma avaliação do custo/benefício/malefício da intervenção proposta. Ela poder ser comprovadamente efetiva (e confiável) em termos de beneficência, mas produzir efeitos colaterais ou maleficências que a tornam contraindicada. Ou ter um custo proibitivo, particularmente quando se pensa em utilizá-la em um sistema público de saúde. Hoje em dia é bioéticamente inaceitável a “antiga visão” de que devo, se necessário for, gastar todos os recursos financeiros disponíveis com um único paciente sob meus cuidados, sem ter que me importar se estou prejudicando indiretamente milhares (ou milhões) de outros, pela falência do sistema. O terceiro pilar seria o da individualização dos casos e contextos, característica impar da Arte do Cuidar (que, claro, inclui diagnosticar, tratar e, algumas vezes, curar). Cada caso é um caso, único em todo Universo. O processo saúde-doença, apesar de possuir muitas semelhanças é diferente em cada pessoa ou comunidade. A sabedoria, a experiência e a sensibilidade são fundamentais, inclusive para não atrapalhar a Natureza que, no fim das contas, é quem verdadeiramente cura. Numa decisão compartilhada e informada, é possível até mesmo ir contra as evidências científicas, desde que tudo esteja esclarecido da melhor forma possível, sem sonegações de nenhuma espécie, e a palavra final seja sempre do paciente, da família e/ou da coletividade. Por fim (quarto pilar) temos a “otimização” da relação profissional-paciente (que se inicia com a pergunta: como posso lhe ajudar?), que sempre deve incluir uma abordagem biopsicossocial e existencial, apoio incondicional e amor fraternal a aquele ser humano que sofre. Além disso, acolher sem julgar, escutar, examinar e confortar (inclusive os familiares) são, em conjunto, tão (ou mais) importante que solicitar exames e prescrever remédios, porque essa relação, além de terapeuticamente valiosa, é insubstituível. Jamais uma inteligência artificial ocupará o lugar de “gente cuidando de gente”. Em minha opinião, esses quatro pilares formam um desejável e necessário paradigma na assistência à saúde no século XXI.

Publicado no jornal Diário de Pernambuco, 14-4-2018 e 15-4-2018, página 1.2

Obs: O autor, Prof. Dr. Aurélio Molina, Ph.D pela University of Leeds (Inglaterra) é membro das Academias Pernambucanas de Ciências e de Medicina, professor da UPE



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