Introdução: qual é o problema?

No atual momento da conjuntura nacional e mundial algumas Igrejas cristãs se preocupam em compreender algo mais sobre o uso das palavras Deus e Diabo especialmente na Política. Afinal o que significam? Há uma abundância de discursos, justificações, invocações, motivações com implicações nas diferentes decisões políticas que sempre terminam clamando por Deus ou acusando o Diabo pelos acontecimentos hodiernos. Estes dois substantivos- Deus e o Diabo – têm múltiplos sentidos, origens e histórias. Hoje, seu emprego nos causa espanto porque muitos de nós imaginávamos que o uso delas como justificações de nossos atos já estava superado pela razão humana contemporânea. Imaginávamos que possessões demoníacas e exorcistas haviam quase desaparecido frente ao extraordinário desenvolvimento da ciência psiquiátrica e da medicina. Imaginávamos o Diabo aposentado e que Deus, na sua infinita bondade reinava agora tranqüilo na diversidade das pessoas que o invocam. Mas não é isso que está acontecendo. O palco nacional e internacional tem revelado a volta dos conflitos entre Deus e o Diabo no palco da História Maior e, essa volta envolve não só as limitadas vidas de muitos indivíduos, mas a história atual de nossa República. Por isso refletir sobre Deus e o Diabo é tema da atualidade e merece uma reflexão de tipo filosófico e teológico.

Desde tempos antigos, muitas pessoas identificaram as palavras Deus e Diabo, este último também nomeado de Demônio, Lúcifer ou Satanás a personagens ou forças míticas conhecidas em sua tradição. Comumente os usaram como conceitos recebidos de sua cultura, particularmente religiosa, para explicar as mais variadas situações que pareciam fugir à habitual quotidianeidade das coisas. Não era possível aceitar que todo o bem e todo o mal moral viessem somente do individuo. A crueldade que nos caracteriza não pode ser apenas nossa. Assim a introdução de forças externas obedecia a uma lógica compreensível a partir da constatação da limitação humana.

Podemos dizer que essas forças expressas de diferentes formas existiram e de certa forma existem na maioria das culturas e expressões religiosas. Elas têm a ver com algo próprio do comportamento humano que indica o que parece ser bom para o grupo ou para o individuo e o que parece prejudicar-lhes. Indicam igualmente a existência de uma força exterior do mal e uma força exterior do bem que parecem decisivas na escolha dos caminhos humanos. Em outros termos o bem e o mal que fazemos não é apenas nosso, mas tem a ver também com algo exterior a nós que nos influencia e ao qual aderimos ou recusamos a adesão. Essas forças embora ajam em nós aparecem quase sempre como superiores a nós. Poderíamos até falar delas como imagens ou figuras que orientam o agir humano e se apresentam como uma espécie de constante antropológica pré-científica ou para além do científico. Elas nos caracterizam e se manifestam através de formas e expressões diferentes embora tenham um fundo comum. Além disso, há também nelas algo de extremamente criativo e sábio que é a constatação de uma enorme interdependência em nossas formas de atuar no mundo. Essa interdependência revelaria o fato de que nenhuma ação é totalmente isolada ou individual embora as gradações de interdependência sejam diferentes e também observáveis. Dizer que o bem e o mal estão em nós e exteriores a nós é fruto de uma observação honesta sobre nós e nosso vasto mundo.

Creio que o problema não está exatamente nas palavras e imagens que usamos, mas na maneira como nós as interpretamos e as vivemos, uma maneira que encerra grandes limites e grandes consequencias. A grande questão é que quase sempre, para nos orientarmos na vida social acreditamos que essas forças malignas e benignas estão apenas fora de nós. Em relação ao mal, ao diabólico, ao nefasto acreditamos particularmente que elas estejam sobretudo nos outros. Além disso, que elas são forças existentes em si mesmas, ou seja, forças com vida própria e com ações próprias reconhecíveis. De fato podemos compreender porque nós seres humanos nos interpretamos dessa maneira visto que é através de uma experiência de certa forma exterior a nós que os malefícios nos atingem. É alguém que me fere com uma faca, me agride, me escraviza e pode até me matar. É o outro grupo que faz guerra ao meu, é o ditador que manda matar, é o patrão que suprime meu emprego, é o policial que me prendeu, é o hospital que não me atende, é a prisão que me ameaça. É o mosquito que picou meu filho e o levou à morte, é o raio, a enchente, a seca e a cobra traiçoeira que nos ameaçam. É o contagio de uma doença ou a ingestão excessiva de álcool que fragilizou meu corpo. É minha mulher que me traiu, é meu marido que me golpeou. Todas essas vivências constroem o que se poderia chamar de experiência da exterioridade do mal como se ele fosse uma força fora de nós. Mas também somos capazes de intuir o quanto esse mal experimentado tem também uma raiz na nossa interioridade, na nossa própria constituição antropológica pessoal. Somos nós que tramamos a vingança, o roubo, as guerras, os armamentos e cultivamos o ódio em nós. Somos nós que levantamos falsos testemunhos e destruímos a reputação das pessoas como se fizéssemos o bem para nós mesmas/os. Somos nós que nos apossamos de terras alheias e escravizamos pessoas. Há uma parte importante dos malefícios que vêem de nós e que se objetivam exteriormente nos atingindo e atingindo os outros. Da mesma forma podemos falar do bem, do nosso bem que atribuímos a Deus muitas vezes sem pensar que o bem que foi para mim pode ter sido um mal para outro. Na complexidade dos comportamentos humanos, exterioridade e interioridade do bem e do mal se encontram num mesmo individuo.

Em relação a essa exterioridade individualizada do mal muitos filósofos se debruçaram. Lembro-me do conhecido adágio de Sartre o ‘inferno são os outros’ ou ‘o diabo são os outros’, uma frase bem presente em nossa cultura popular e na política. O outro diferente de mim, sobretudo aquele que me atrapalha e me prejudica, assume essa forma maligna que tento repelir de diferentes maneiras. É por essa razão que essa experiência é classificada ou expressa com uma ‘palavra metáfora’diabo – que indica sua malignidade exterior particularmente reconhecida por mim porque me divide, me ameaça e instaura medo em mim mesmo. Dessa forma objetivamos o mal vivido classificando-o ou personificando-o de forma imaginaria, mas não menos real visto que acreditamos nela. Por outro lado, em relação ao bem, podemos também chegar ao extremo da consideração de que o divino, Deus está em mim e que o que faço revela uma quase identificação entre minha vontade e a Sua. O outro, o que se apresenta contra meu eu e meus interesses seria o Diabo que é, por conseguinte, o oposto de Deus. Da mesma forma aqueles que estão comigo, estariam também do lado de Deus. Dessa forma, Deus também aparece como uma metáfora real que simbolizaria o bem que busco e o bem ao qual me identifico e que tento realizar. A partir de minha experiência com Ele, exterioridade e interioridade do bem se encontram como se o mundo cósmico de fora e o mundo psíquico de dentro se unificassem.

Nos tempos atuais os demônios e os deuses são numerosos e mudam de lado conforme as acusações que lhes são feitas e as que fazem uns aos outros. Suas personalidades muitas vezes se confundem assim como seus feitos. Estão presentes nas mais diferentes ações e formas de acusação de uns e de outros. São usados retoricamente mesmo que se saiba que nada está claro nem de um lado e nem do outro. Tudo isso nos convida a tentar entender mais alguma coisa sobre o que está acontecendo hoje e de maneira especial em nossas Igrejas cristãs que entram à sua maneira nos mesmos conflitos próprios de nosso tempo.

Para meu espanto a Igreja Católica Romana que havia deixado de lado por algum tempo os discursos sobre o demônio e os exorcismos volta agora oficialmente a legislar a prática de exorcismos. O Papa Francisco em 2014 reconheceu a Associação Internacional de Exorcistas e a CNBB publicou há três meses um subsídio próprio sobre o tema.1 Da mesma forma a Arquidiocese de São Paulo apesar da recomendação de prudência em relação aos fenômenos de possessão trabalha com alguns padres exorcistas que têm uma missão precisa. Alega-se a proliferação de textos sobre o demônio na internet e um medo dos fiéis em relação a essas práticas a nível local e mundial. Nessa linha é bom lembrar que acusar o demônio é um argumento de facilidade que acaba reduzindo responsabilidades frente a muitos delitos individuais e coletivos. Da mesma forma o pretenso apoio de Deus à nossas decisões bebe da mesma fonte de irresponsabilidade. O assunto é atual e nos desafia a pensar sobre ele, haja vista a preocupação do CONIC com a questão.

É interessante notar que, na mesma linha vocês manifestam uma preocupação em relação ao sentido da compaixão e da vocação profética. Esta já é uma indicação da escolha de lado que de antemão vocês acreditam estar fazendo. Em outros termos falar de vocação profética e de compaixão significa também falar da escolha de Deus. Qual seria ela hoje? E quem fica com a escolha do Diabo? Nada está claro… Por isso vou continuar minha breve reflexão de hoje apresentando dois momentos intimamente ligados. Talvez, juntos possamos discernir algo dessa intrincada problemática de velhos e novos tempos.

O primeiro momento será sobre Deus e o Diabo ambos escritos em maiúscula e o segundo momento mais breve sobre compaixão e profetismo. Ambos os momentos, mas, sobretudo o primeiro parece ter hoje um lugar de ‘uso’ público preocupante: a política. Mas, a política tornada também quase religião e a religião tornada também quase política como se os conceitos que outrora as distinguiam já não guardassem mais sua especificidade.

  1. Deus e o Diabo

Muitas vezes nos surpreendemos quando alguém nos diz que o uso dos conceitos, sobretudo os religiosos precisa ser contextualizado e datado. Não são eternos mas profundamente mutáveis. Consequentemente as mudanças são inerentes à vida. Entretanto, parece que resistimos imaginando sempre que ao dizer ‘Deus é eterno’ possamos eternizar uma forma na qual ela foi expressa e que nos foi ensinada. É como se precisássemos nos agarrar a algo quase ahistórico para firmar nossa realidade histórica. É nesse sentimento que, na maioria das vezes imaginamos que quando dizemos Deus ou o Diabo estamos todos entendendo um mesmo significado. Mas não é assim tão simples. Nosso Deus e nosso Diabo são plurais, têm história plural e se revestem de nossa imagem e semelhança também plural. Por isso, gostaria de contextualizar o Deus e o Diabo do qual vou falar. Trata-se de um Deus e de um Diabo de tradição cristã e limitados a uma compreensão de hoje. Há outros semelhantes em outras tradições, como assinalei na introdução, mas só tenho melhor conhecimento desses personagens na tradição cristã por ter sido nela educada e, ainda assim, falo delas de forma bastante limitada e tentando precaver-me de afirmações absolutas. Além disso, constato que minha reflexão é marcada por um aspecto talvez ligado a uma experiência de obscuridade da ‘alma humana’ nos dias atuais como se Deus e Diabo enfrentassem conosco a grande tragédia da falta de sentido das instituições que criamos e nas quais vivemos. Deixo de lado, por exemplo, a experiência da grandeza do mundo, de sua extasiante beleza, da evocação ao mistério que nos envolve e anima. Aqui também a palavra Deus tem uma história ligada a diferentes experiências e extraordinárias percepções humanas.

Assim sendo, já de inicio minha reflexão é limitada e limitada a um tempo e contexto específicos. A história de Deus e do Diabo, ligada às diferentes concepções de ser humano que tivemos no Cristianismo é vasta e complexa. Apresenta conflitos e alianças históricas entre seus fiéis e representantes. Produziu atos de heroísmo e de crueldade a tal ponto que podemos dizer que se matou em nome de Deus e contra Deus. Mas esse Deus ou esse Demônio era apenas um nome do poder que justificava alguns na execução de seus atos e conquistas enquanto condenava outros ao exílio e à morte. Nos muitos processos de evangelização e colonização realizados pelos cristãos no mundo, Deus e o Diabo, foram identificados e difundidos em geral pelas poderosas etnias brancas e especialmente pelo clero e missionários ligados a reis e ricos senhores. Sua expressão popular e acolhida tem provavelmente outra história, mas o fato é que eles entraram também no imaginário popular da forma ‘branca’ fortalecendo ou enfraquecendo suas lutas. Deus e o Diabo ajudam a instaurar uma ordem na pretendida desordem dos povos não cristãos considerados presa fácil dos demônios. A luta para submetê-los é uma espécie de guerra santa contra a chamada barbárie. Essa lógica de dominação e de consideração da ignorância do povo persiste ainda em muitas formas atuais de difusão do cristianismo.

A partir do ponto de vista dos ‘doutos’ pensadores e conquistadores de ontem e de hoje Deus está do lado dos bons, dos que são fiéis à sua proposta. Mas quem são os bons? Qual é sua proposta? Ora não é difícil perceber que este Deus e este Diabo estão ligados ao poder dos reis, dos príncipes, dos governadores, dos colonizadores, da Igreja hierárquica, da visão dos missionários. Portanto, Deus e o Diabo já pertencem à classe, à cor, à cultura e ao poder daqueles que os difundem. E, na mesma lógica o bem está sempre mais presente do lado do poder político e econômico do que dos ‘sem poder político e econômico’. Eles usam a Deus como legitimação poderosa numa sociedade compreendida de forma dual, ou seja, conforme o Bem e o Mal no conflito de suas múltiplas expressões. E o Bem e o Mal não estão isentos de interesses e de fronteiras, de expressões hibridas de toda espécie que se misturam na complexa sociedade em que vivemos. O Deus cristão tornou-se um nome confuso, uma espécie de palavra que tem múltiplo uso, que pode terminar uma frase ou uma reflexão quando já não se sabe mais como avançar. Tornou-se palavra de ‘efeito’ quando já não se sabe o que dizer ou palavra que esconde o que não se quer mostrar, palavra que desculpa o que aparentemente é imperdoável.

Esta visão parece se confrontar com outra que podemos ler na tradição cristã primitiva. Nos Evangelhos a luta entre Jesus e os demônios se apresenta através de diferentes formas e é uma marca importante desde o início de sua missão. Por exemplo, em Mateus 4, 1 a 11 Jesus é levado pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo diabo. Este parece um fato inusitado e intrigante. Segundo o evangelista Mateus, o encontro de Jesus com o Demônio no deserto marca o início de sua vida pública ou de sua missão, marca o lado social onde Jesus se situa. Tal encontro torna claro que Jesus toma o lado de Deus, ou seja, um lado específico de Deus, vencendo as tentações do ter, do poder e do valer e mostrando que sua vida se inicia como uma luta entre o mundo de Deus e o do Diabo, entre o mundo da luz e das trevas. Essa é talvez uma representação da missão do ser humano de ser um para o outro, ou seja, uma missão coletiva a partir da qual é possível tentar vencer as forças do demônio que fortalecem o individualismo e o egoísmo. Dizem as Escrituras que Jesus tentou fazer o bem toda a sua vida, mas termina historicamente vencido pelas forças das trevas, aquelas que acusam e traem na obscuridade, que roubam, que obrigam o pagamento de impostos sobre o grão de mostarda, que abandonam os órfãos e as viúvas e acabam crucificando inocentes. Nessa luta entre Deus e o Diabo não há vencedor. Talvez apenas perdure um empate de forças que continuam dando o tônus para a continuidade da história humana. Por isso é fácil transpor a vitoria do Bem para um mundo celeste, para um misterioso consolo para além da história.

Nessa perspectiva, o lado de Deus nos processos de colonização e missão foi apropriado pelos poderosos e o drama de Jesus continuou se reproduzindo, embora passassem a falar que Jesus vence a morte, ressuscita e está à direita do Pai… Muitos séculos depois, a teologia da libertação tenta retomar o lado dos sem poder, dos que nada têm, dos que nada valem aos olhos do mundo, ou seja, retoma nas igrejas e na sociedade a defesa da causa e das necessidades dos pobres e oprimidos. A teologia feminista, a negra, a indígena e outras tentam o mesmo processo, mas ainda não se chegou a nenhuma vitória. Mais uma vez há uma história contextual do uso de Deus e do Demônio na vida cristã, história que necessita ser sempre retomada para compreendermos algo mais do que estamos vivendo. É essa nova compreensão que é necessária e urgente como construção de sentidos atuais para nossa vida.

Como já afirmei, quando as palavras Deus e Diabo são pronunciadas, elas aparecem em geral como representantes de forças distintas que agiriam a partir de fora e em sentidos contrários, como se fossem exteriores aos seres humanos, com interesses superiores e diferentes, embora atuando nas relações humanas. É claro que hoje, quando falamos delas estamos falando do uso, da instrumentalização que se faz delas a partir de um contexto político específico, um contexto em que também a política precisa ser redefinida e compreendida. Falamos de seu uso a partir de um argumento de autoridade que parece justificar um ou outro comportamento. Entretanto, gostaria de propor de ir mais longe do que a instrumentalização atual dessas duas palavras referentes a dois personagens com múltiplos significados. Gostaria de ir além do uso indevido que os políticos brasileiros fazem delas. Precisamos talvez tocar mais profundamente o campo da vida humana, o lugar de onde germinam crenças, conceitos e teorias. Precisamos compreender o humano que somos e buscar as razões do ‘por que’ se plantou e como brotaram as idéias sobre Deus e o Diabo. Por que subsistem ainda hoje e de que forma continuam sendo reproduzidas?

  1. As duas faces da mesma moeda

Meu trabalho como filósofa e teóloga, me convida a pensar nos dois conceitos Deus e o Diabo como profundamente interdependentes e isso não só na atualidade, mas desde seu uso na antiguidade em diferentes religiões e culturas, além de seu uso na arte e na literatura. Onde está um o outro também está. Dessa forma Deus e o Diabo são de certa forma um prolongamento de nós, ou crença metafísica ou uma projeção imaginária de nós mesmos. Nós somos seus descobridores, produtores ou criadores partir e para além de nós mesmos e de nossa diversidade humana. Eles são a mesma moeda que quando em movimento faz com que as figuras cunhadas de um lado e de outro se misturem a ponto de não sabermos distingui-las. Mas quando em estado de lentidão ou paradas podemos distinguir uma da outra, mas sem conseguir separá-las. Nosso discurso sobre elas é sempre inseguro, contingente e provisório mesmo quando lhes negamos a uma existência autônoma.

Dois textos me vêm ao espírito a título de exemplo do que quero expressar. O primeiro é o “Evangelho segundo Jesus Cristo” de Saramago2. O segundo é o livro de .

Saramago monta uma cena em que Jesus vai ao encontro de Deus numa manhã de espesso nevoeiro no meio do mar. O Demônio também está presente mesmo se esta conversa se anunciava como íntima e reservada visto que Jesus necessitava saber quem era ele e o que Deus queria dele. Desde o inicio da conversa Deus adverte: “Meu filho, não esqueças o que vou te dizer: tudo quanto interessa a Deus interessa ao Diabo”.3 Tal afirmação tem uma lógica que começa por desvendar a condição existencial do próprio Deus. Deus para quem ‘não há tempo, tudo é presente’ confessa a Jesus algo de sua insatisfação e ganância. Conta-lhe que quer sacrificar Jesus, seu próprio filho porque é habitado por uma imensa insatisfação. Confessa-lhe que faz pelo menos 4004 anos que é o Deus dos judeus e eles não passavam ainda de um punhado de gente. Queria mais, muito mais. Queria alargar sua influencia sobre o mundo e sobre muito mais gente. Por isso escolhe Jesus para seu continuador. E a verdade que descobre é que não há outro caminho senão aceitar que “quanto mais Deus crescer mais cresce o Diabo!”.4 Ainda em meio ao nevoeiro no encontro entre os três, o Diabo se dirige a Deus pedindo-lhe para voltar de novo a ser o amado Lúcifer antes da queda. E isso para que as tragédias e horrores do mundo se resolvessem. Pede para ser recebido de novo no céu para que todo mal se acabe e a paz se instaure. Deus se nega e o Diabo lhe pergunta de novo por quê… E Deus categórico responde: “Porque este Bem que eu sou não existiria sem esse Mal que tu és, um Bem que tivesse que existir sem ti seria inconcebível, a um tal ponto que nem eu posso imaginá-lo… Enfim se tu acabas, eu acabo, para que eu seja o Bem, é necessário que tu continues a ser o Mal (…)5

Deus e o Diabo são por isso as duas faces da mesma moeda. São as expressões supremas, as melhores metáforas do Bem e do Mal que nos habitam e, um não pode existir sem o outro porque estas dimensões (não as suas representações) são inerentes à condição humana. As forças que nos amedrontam e as que nos acalmam parecem se encontrar e parecem ter a mesma substância em nós mesmos. O diálogo entre Deus Pai e Jesus na presença do Diabo é uma impressionante peça filosófica do pensador José Saramago. Trata da condição humana, de suas buscas e atropelos, de seus sonhos de perfeição e de suas esperanças em Deus e contra os muitos demônios. Quantas mortes cruéis, assassinatos, enclausuramentos em conventos e prisões, jejuns, mortificações, guerras, escravidões, inquisições, açoites e castigos foram vividos em nome de Deus ou para evitar a tentação e soberania do Diabo. E vividos também em relação ao Filho único de Deus por seus seguidores e seguidoras… Era como se Deus e o Diabo dividissem necessariamente seus poderes sobre a carne e o espírito humano, divisão que de fato continua a existir até os dias de hoje. Há, pois um componente da própria existência humana dessa proximidade e mútua alimentação das forças que nos habitam e se expressam em todos os nossos comportamentos.

No Livro de Jó, Deus permite ao Diabo de tentar corromper Jó visto que o Diabo levanta a suspeita sobre a fidelidade de Jó considerado justo por Deus. A suspeita é levantada como uma espécie de dúvida em relação a validade da teologia da retribuição. Em outros termos, a crença de que Deus retribui sempre o bem com o bem e o mal com o mal é colocada em dúvida pelo Diabo. Jó era um caso excepcional desses corretos beneficiários de Deus e era preciso colocá-lo à prova. Deus permite ao Diabo de retirar todos os bens de Jó sem que tire a sua vida. Então, o Diabo com a permissão de Deus começa a enviar uma multiplicidade de sofrimentos e males a Jó. Conhecemos a estória: ele perde a mulher, os filhos, as terras, é acometido de lepra, e vive muitos outros males, até que chega finalmente ao reconhecimento do mistério de Deus para além do bem e do mal, para além do mérito e demérito, para além das acusações e justificações, para além de sua bondade ou maldade pessoal.

Na realidade o Livro de Jó expressa um aspecto da sabedoria judaica que mostra que apesar do comportamento justo de Jó ele não é isento de sofrimento e as tragédias do mundo podem igualmente atingi-lo. Não é sua bondade e justiça social que o protegem dos males da vida e nem lhe garantem o premio do reconhecimento divino. A vida é isso aí… Eivada de contradições e paradoxos e nossas teorias e doutrinas são apenas tentativas de resguardar o nosso ‘não saber’ e a nossa nudez.

Mais uma vez o que aparece no texto é essa espécie de amizade e inimizade constitutivas desses aparentemente dois seres, mas que são na realidade expressões constitutivas do próprio ser humano. Do momento em que personalizamos e materializamos estas duas forças, em que as tornamos pessoas distintas e fora de nós lhes entregamos força e poder sobre nós. Fazemos delas ideologia no sentido negativo do termo, capazes de nos alienar de nossa frágil realidade. Obedecemos a ordens de outros que se julgam representantes dessas forças maiores. Nosso medo da vida e da morte nos distancia dessas ‘criações’ de nós mesmos e passamos a atribuir-lhes um poder sobrenatural. Passamos a usá-los segundo nossos limitados interesses fazendo com que os mesmos se identifiquem a vontades superiores e poderes metafísicos. Esses poderes de certa forma correm o risco de eximir-nos da responsabilidade diante dos acontecimentos e nos deixam à mercê de forças imaginárias usadas pelos detentores de muitos poderes. Essa irresponsabilidade maior ou menor tem sido muito difundida no meio de nós e nos leva a certo abandono da luta por nosso direito a ter direitos assim como de nossa responsabilidade coletiva de uns em relação aos outros.

Deus e o Diabo na terra do sol’, um filme de Glauber Rocha mostra na mesma perspectiva que a capacidade de amar e trair, ajudar, corromper, seduzir e roubar está inscrita em nossas ações. Quem nomeia Deus e o Diabo somos nós seres humanos misturando-os as nossas vidas. Outros exemplos na mesma linha podem ser apreendidos no cinema, nas artes plásticas e na literatura.

Por isso, é preciso começar por compreender nossas vidas, ou seja, compreender a necessidade ou as razões da introdução de uma metafísica divina ou diabólica que significaria a atuação de seres imaginariamente para além do universo humano. E falar dos seres humanos é falar das instituições religiosas e dos comportamentos religiosos dos fiéis quer sejam eles laicos ou políticos ou religiosos de oficio. Deus e o Diabo podem ser forças imaginárias poderosas, transformadas em seres com figurações reais e pessoais, originadas de nossos medos, êxtases, forças e fraquezas e usadas para reforçar os nossos comportamentos e interesses. Por que necessitamos exteriorizá-los e referir a eles nossos feitos bons e nossos malefícios? Por que temos que atribuir a eles a responsabilidade pelas boas e más coisas que nos acontecem? Por que necessitamos pedir socorro a Deus ou exorcizar-nos quando é o Diabo que parece atormentar-nos? ‘Viver é perigoso’, já dizia Riobaldo de ‘Grandes sertões veredas’ (Graciliano Ramos) e por isso imaginamos a existência de cúmplices e protetores para enfrentar os muitos perigos que se apresentam.

Escrevi há algum tempo atrás sobre a transcendência do bem e a transcendência do mal no cotidiano da vida.6 Nela, ambos nos transcendem, isto é, ultrapassam nossas tentativas de compreender o que nos passa porque muitas vezes a grandeza do mal que nos aflige é insuportável e incompreensível assim como as dádivas gratuitas que irrompem em nossas vidas. Por um lado, o sentimento de abandono, de solidão profunda, de medo, de proximidade da morte faz nascer o grito de ajuda. Já clamava o salmista: ‘De onde me virá socorro?’ E mesmo que ele não venha, o grito passa a quebrar a solidão e sustenta aquele que grita. Meu lamento tenta tornar suportável a minha dor. Infelizmente esse grito e sua imaginária resposta foram banalizados e grosseiramente materializados na religião e na política. Na mesma linha podemos falar da grandeza de certos gestos de amor que excedem a explicação que podemos lhes outorgar. Gestos que significam a coragem de ajudar, de partilhar, de abrir mão de glórias, gestos de imensa solidariedade nos mostram uma grandeza tal que temos quase necessidade de atribuí-las a uma Bondade Maior que nos ultrapassa. E muitas vezes, necessitamos até personalizá-la para torná-la acessível, para torná-la mais à nossa imagem e semelhança, para colocá-la à altura de nossa pessoalidade limitada ou de nossa pequenez, para torná-la presença possível ou acessível ao nosso desejo de fazer o bem. Mas não é só isso. Precisamos personalizá-la e exteriorizá-la para também esconder nosso narcisismo que no fundo acredita no próprio poder e se vangloria dele. Ao dar glórias a Deus ou governar em nome de Deus, ou dizer-se escolhido por Deus o sacerdote e o político escondem-se e revelam-se ao mesmo tempo. Sua aparente submissão nada mais é do que um convencimento interior e uma identificação ao poder que afirmam representar. É a tentação do orgulho de julgar-se superior aos outros. É de fato isso e bem mais do que isso! Vivemos uma mistura exterior e interior e como Jó muitas vezes falamos de muitas coisas sem entender “as maravilhas e os mistérios que superam nossa compreensão”.7

Outra vivência habitual presente em muitos e muitas é aquela que se vive quando damos ‘graças a Deus’ como um reconhecimento da dimensão coletiva do bem, da interdependência de seus múltiplos aspectos. O bem que reconheço viver vem em parte de mim e dos meus próximos e também em grande parte de meu contexto e da natureza. Por isso graças a Deus é graças a toda a rede de vida que sustenta o bem que chega a mim. Os exemplos são muitos ao longo de nossa história! Por isso, dobramos os joelhos no silêncio e proclamamos que todo o bem vem só de Deus. Um Deus de muitos rostos e expressões… Um Deus da Vida que encontramos ao nascer… Lembro-me de uma catadora de papelão que agradecia a Deus pela sujeira da rua… E daquela velha que misturando seu arroz e feijão agradecia a força da natureza no seu prato! Tudo se Mistura… Tudo é Mistura. Deus sai da metafísica e vira física ampliada, diversificada em muitas coisas, sem pretensões de ser um grande ser poderoso imaginado com vestes e barba branca.

Hoje, alguns intelectuais dizem que essas forças nascidas de nós não devem ser tornadas essências existentes em si mesmas e consideradas como seres à parte ou separados de nós. Mas essa experiência de alguns não necessariamente invalida a experiência de outros que julgam a metafísica da religião salutar e ética. A questão é assumir a vida com responsabilidade com ou sem religião, com ou sem metafísica. Mas, para que isso aconteça um longo caminho de autenticidade precisa ser andado e certamente grande parte das instituições religiosas e políticas não estão dispostas a fazê-lo. Temem perder o poder que adquiriram ao longo da História e temem que seus membros fujam de seu controle ou caiam na insegurança, no medo e no desespero ao sentirem-se desprotegidos.

Nesse processo antropológico teológico, repito mais uma vez, a bondade, a crueldade ou a maldade são personificadas e artisticamente esboçadas porque talvez as personificando possamos entender algo delas e controlá-las melhor a partir de nossa pequenez. Personificando-as, as dominamos por um lado e por outro é como se através delas, dividíssemos a responsabilidade por nossos atos, como se atribuíssemos a uma tentação maior o fato que nos fez cair na armadilha da destruição dos outros e de nós mesmos. E, quando o bem e a felicidade nos tocam, personificar o bem e atribuir a Outro sua presença em nossa vida é reconhecer que essa dádiva ou grandiosidade oferecida nos é dada sem mérito nosso. É tentar preservar essa preciosidade que recebemos como se ela estivesse contida em finos vasos de barro ou no mistério maior da vida que chamamos de Deus. Mas não é só isso. Deus e o Diabo têm seu lado tenebroso e conflitual. Têm classe social, tem sexo, tem gênero, tem raça, tem cor, tem poderes interesseiros que estão em jogo, ajudam a uns e fazem sofrer outros. Misturam-se aos mesmos conflitos da história humana e por isso mesmo são seus cúmplices através de suas diversificadas imagens e ações.

Finalmente falar de Deus e do Diabo é falar de nós mesmos, é explicar-nos tentando explicá-los. É também tocar os mistérios ocultos da vida sem que nos apossemos deles. Sem dúvida essa breve explicação mostra apenas nossa complexidade e nos convida à humildade em relação a nós mesmos e nossas criações. E estas não param… Continuam vivas desde o princípio e por todos os séculos dos séculos. Cada vez novos desafios e novas questões se acrescentam à História humana no mundo. Que dizer da ciência e da tecnologia contemporâneas em relação às criações de Deus e do Diabo? Seria um novo e desafiante capitulo a ser pensado, capítulo que nos entregaria muitos conhecimentos sobre nós mesmos e faria emergir muitos medos ainda não experimentados.

  1. Fé e Política

Tanto Deus quanto o Diabo podem manifestar-se segundo diferentes maneiras e ideologias na atualidade de nossa história brasileira. Especialmente a partir dos anos 1970 começou a haver em muitas partes do mundo e muito especialmente nas igrejas cristãs de tendência esquerdista da América latina um movimento chamado Fé e Política. Este era um movimento inspirado e fomentado pela Teologia da Libertação e nele também a Teologia da Libertação se expressou na produção de muitas de suas obras. Através desse movimento a religião institucionalizada sai não apenas de uma esfera privada que lhe era própria, mas sai de uma ingenuidade social e política a partir da qual instruía a massa de seus fiéis. Passa então a afirmar-se como comprometida com a política como arte de governar o povo e a afirmar a necessidade da ética cristã na política a partir de uma visão de classe social. É justamente a visão de compromisso com uma classe social que marca esse diferencial histórico visto que o cristianismo nas suas diferentes expressões históricas sempre foi aliado das políticas em geral conservadoras de muitos Estados, políticas de aliança e dependência entre ricos e pobres para evitar conflitos maiores. Entretanto, com a teologia da libertação a partir da década de 1970 se tratava de ‘optar pelos pobres’ de uma forma especial num mundo onde o Cristianismo tinha feito não só obra religiosa, mas obra de cultura e de política. A política que esses grupos de ‘Fé e Política’ descobriam nos evangelhos e na profecia lhes permitia alianças declaradas ou apenas simpatias em relação a alguns movimentos sociais revolucionários e partidos políticos de esquerda. Retomavam a Bíblia descobrindo nela alianças divinas políticas a favor dos oprimidos e a partir dela justificavam suas escolhas e ações. O estudo da Bíblia a partir da libertação se expandiu por todo o continente latino-americano; formou grupos que se articulavam por todos os lados e fortaleciam políticas de esquerda. Essas escolhas políticas foram notórias e por isso mesmo as decepções com os partidos para muitos se transformou também em decepção com a religião. Cada vez mais constataram a inoperância das teorias religiosas com as novas exigências da sociedade contemporânea e muitos foram pouco a pouco se afastando do convívio com as comunidades cristãs. Esse afastamento lhes custou uma falta de espaço de atuação e formação, espaço que outrora gozavam junto às comunidades populares.

A direita, por sua vez, continuava sua política inspirada por uma religião aparentemente privada, personalista, mas na realidade também atuante no domínio público político. As autoridades religiosas quase sempre estavam presentes quando se tratava de cerimônias públicas organizadas pelo Estado. Abençoavam empresas, instituições e muitas vezes participavam de reuniões para discutir políticas do Estado, sobretudo em setores educacionais. Até bem pouco tempo o governo brasileiro admitia a presença de um bispo católico nas reuniões do Ministério da Educação. Ditadores eram devotos e pertenciam a movimentos religiosos tradicionalistas. Dizem que o general Pinochet tinha uma capela privada e um capelão especial para celebrar suas missas diárias. Muitos políticos brasileiros de hoje pertencem aberta ou secretamente ao movimento ‘Opus Dei’, movimento internacional conhecido por suas extremadas posições econômica e políticas de direita. São fiéis cristãos dentro de suas comunidades mais ou menos secretas acreditando que sua atuação é inspirada pelo Evangelho de Jesus.

Hoje acontece algo inédito em certo sentido e espantoso dado o seu crescimento como fenômeno social. Com o advento crescente do neo-pentecostalismo de muitas origens e sua inserção na política, muitos partidos políticos se tornaram também de certa forma religiosos apesar da declaração de laicidade do Estado. Funcionam formalmente como instituições religiosas com adeptos e com fidelidades e infidelidades partidárias. Mas, os mesmos membros dos partidos são também membros de suas igrejas e misturam política e religião em sua vida corrente. Além disso, muitas igrejas se apropriaram da política, da economia, da cultura, da ciência tornando-se elas mesmas as instituições capazes de dar resposta às muitas carências do povo. O Estado se retira e cede lugar às políticas da religião. E o povo carente, manipulado por estas instâncias aparentemente do Bem se deixa levar. Recebe curas, casas e o cêntuplo em bens numa ação milagrosa de Deus intermediada pelos pastores políticos. Fazem o espetáculo das curas e retomam as curas presentes nos Evangelhos tornando-se aos olhos de si mesmos e do povo novos Cristos. É isso na prática o que chamamos de fundamentalismo religioso que no caso descrito não deixa de apresentar uma boa dose de charlatanismo e enganação do povo.

Sabemos que sem a existência da direita não há esquerda e vice-versa. Da mesma forma o centro necessita dos dois extremos. Assim também o público e o privado misturam-se, como as leis e as emoções na jurisprudência. Por isso não acredito na possibilidade de uma separação radical entre políticas e religiões e entre Religião e Estado laico neste momento de nossa História. A separação legal resolve apenas em parte o problema. Dá um verniz legal às reivindicações de respeito ao próximo. Na última Parada Gay de São Paulo do dia 18 de Junho de 2017 na abertura o líder da Parada insistiu na importância fundamental do Estado laico. “Nenhuma religião no Estado” gritavam muitos participantes. Mais uma vez uma séria reflexão se faz necessária. Imaginamos Religião e Política como duas realidades absolutamente separadas. De fato podem ser distintas institucionalmente. Entretanto, sabemos bem, a partir da experiência histórica e de nossas vidas que as coisas não são resolvidas em forma de decreto e mais, não são radicalmente separadas. Somos políticos também a partir de nossas crenças religiosas e religiosos também a partir de nossas crenças políticas, mesmo quando vivemos nossa fé e nossa política em regime de catacumbas. Da mesma forma nossa ética individual se mistura à nossas convicções políticas coletivas mesmo quando não aderimos a nenhuma religião. Na realidade podemos fazer esforços de objetividade, mas o fato é que sempre caímos na dominação do subjetivo. E este dado é uma constatação importante reveladora do lugar, ou melhor, da ubiqüidade de nossa subjetividade. Daí a necessidade de pensar e de aprender a pensar para acolher aquilo que somos individualmente e socialmente. Acolher o que somos é uma tentativa de não fantasiar em demasia o que queremos e podemos ser. É também desmistificar a pureza dos grupos aos quais pertencemos tanto em relação ao passado quanto em relação ao presente. Não somos puros ou impuros. Somos misturados e é essa mistura que nos constitui. Nessa linha, gostaria de chamar a atenção para um fato observável nos dias de hoje. Do momento em que há uma enorme politização da religião há uma intolerância religiosa que se faz sentir no interior mesmo do universo cristão. A polarização religiosa cria antagonismos não apenas de classes, mas de posições políticas e morais sobre diferentes problemas. Em certo sentido a questão de classes é minimizada porque deuses e demônios se misturam nas diferentes classes. Uns demonizam os outros e uns deificam os outros. Nessa perspectiva também a questão do enriquecimento ilícito das esquerdas e das direitas, dos totalitarismos de esquerda e de direita nos confundem e mostram que Deus e o Diabo estão com todos e é cada vez mais difícil distinguir as obras de um e de outro. O novo rosto do demônio para a esquerda se estampa nos grupos denominados de direita e vice-versa. Da mesma forma se poderia abrir outro capitulo de reflexão em relação a Deus, o Diabo e o Feminismo. Aqui também as polarizações e conflitos estão na ordem do dia.

Como sair dessa polarização das violências que a religião e a política geram à nossa cidadania? Como pensar a democracia ou outra coisa parecida, e até com outro nome a partir de outros referenciais, visto que esta democracia na qual estamos não parece ser a que sonhamos? Ikram Antaki, pensadora síria mexicana escreve sobre nossa dificuldade de pensar e reconhecer os limites da razão que nos caracteriza. Diz ela: “ La razón apareció en todo el esplendor de una nueva revelación, reivindicó su autoridad en todos los campos, remodelo la educación, la religión, las costumbres, la literatura, la economía, el gobierno… según su propia imagen. Los filósofos admitieron la fragilidad de la razón; sabían que esta podía equivocarse, perderse en una mala lógica o una falsa interpretación de la experiencia, que es a menudo la sirvienta del deseo y la esclava de la voluntad. La razón tiene límites; el sentimiento es a veces mucho más fundamental que ella y, además, la mayoría de los hombres aún en la más civilizada de las naciones dependen demasiado de las necesidades económicas para encontrar el tiempo para cultivar su razón. A las masas las mueven más la pasión y los pre-juicios que la razón.8

Cultivar a razão é deixá-la florescer em seus diversos e novos terrenos de sustentação. E, é também reconhecer seus limites, suas imagens contextuais, suas marcas temporais. A razão ou nossa capacidade de pensar e interpretar nosso mundo não é algo em si mesmo, mas algo mutável em nós, algo que evolui e se recria. De fato no momento atual, paixão e preconceitos nos movem mais do que a razão criadora e também mais do que o coração necessitado de outros corações. Tornamo-nos prisioneiros de conceitos, de palavras de ordem, de tradições caducas e formas religiosas e políticas do passado identificando-as a uma verdade atemporal. Ikram Antaki nos faz o convite para pensar a importância da razão e também os limites da razão atual herdada. Em outros termos, estamos sendo convidadas/os a refletir sobre nosso pensamento, sobre nosso conhecimento, sobre a formação de nossos conceitos, sobre os limites de nossa própria racionalidade, de nossas próprias posições políticas muitas vezes tomadas como objetivas e possuidoras da verdade. Acreditamos que a verdade está, por exemplo, com a esquerda ou com a direita à qual pertencemos. Não nos damos contas que nos refugiamos muitas vezes em convicções e compreensões do mundo já superadas pelos acontecimentos. Como sair desses círculos fechados e pouco criadores? Como, ao menos provisoriamente como forma de aprendizado, sair do círculo ou do quadrado em que vivemos e habitarmos outro para compreender o mundo desde outras perspectivas?

No âmbito das instituições religiosas estamos igualmente pouco movidos pela razão criadora que pensa no que crê. Estamos nos movendo a partir de ordens, da autoridade Bíblica interpretada por nós no passado, da autoridade da tradição e da educação que recebemos. Nós nos esquecemos muitas vezes que nós também pensadoras/es somos presa fácil de conceitos passados, das emoções religiosas e dos processos de assimilação da religião pelos poderes políticos e vice-versa. Ao afirmarmos, por exemplo, a necessidade do ‘estado laico’ muitas vezes colocamos nessa proposta a resposta a todas as dificuldades que atravessamos hoje sem nos darmos conta da complexidade das relações humanas das quais somos parte e não à parte.

Constatamos que muitas vezes estamos sendo mais movidos pelos pré-juízos, pelos preconceitos, pelas emoções políticas, pelos dogmatismos do que pela razão criadora. Estamos nos negando a por os pés naquilo que é… Estamos abdicando da necessidade de pensar que nossos deuses e nossos diabos se expressam de forma inseparável de nós mesmos. E que o apelo atual a eles significa de fato uma carência e uma diminuição no uso de nossa própria racionalidade. É duro pensar e repensar a vida… Para muitos é perda de tempo filosofar, sobretudo porque tempo é dinheiro! Por isso em pleno século XXI há cada vez mais clérigos e exorcistas responsáveis pela expulsão dos demônios na maioria das Igrejas cristãs e menos pensadores.

Os demônios e os deuses não convidam ao pensamento, basta entregar-se a eles. Há fazedores de milagres em profusão e deuses e demônios em profusão. Explicar as mazelas que nos afligem atribuindo-as aos demônios é reinaugurar os antigos maniqueísmos que imperaram no passado e decretar até certo ponto a falência de nossa razão. A falência de nossa razão é ao mesmo tempo a falência de nossa responsabilidade em relação a nós mesmos. O medo à ação do demônio, um demônio que entra em nós nos toma, se apossa de nosso ser através da doença, da bebida, das drogas resulta mais barato e até mais convincente para as turbas. E a política vigente lhes dá carta branca para a atuação exorcista aparentemente solucionadora de muitos problemas. E essa solução torna-se espetáculo para a crença popular e o espetáculo é necessário para distrair o povo e torná-lo submisso e vulnerável a muitas formas de exploração e dominação. Nada de educação popular, nada de revigorar programas que façam pensar e assumir coletivamente responsabilidades. O tempo é ocupado para as curas mágicas ou para os programas de computador que nos alienam da dura realidade em que vivemos.

A religião entra na economia prometendo através da teologia da prosperidade dinheiro, emprego e os muitos bens desejados. Apossa-se da medicina e diz curar mais do que a ciência médica. Reduz cada vez mais a capacidade de pensar para dominar os espaços da vida pela ignorância e o pouco uso do pensamento. Tornam as pessoas manipuláveis, piedosas, submissas a um mundo de fantasias que tenta explicar os malefícios e os benefícios do mundo a partir de forças exteriores a ele. Sua catequese e seu sucesso parecem estar em alta.

Voltar a pensar o mundo se faz necessário. Voltar a organizar-se em pequenos grupos para pensar e descobrir juntos o que estamos querendo. Organizar-se para sair dessa espécie de ‘dilúvio coletivo’ e da ignorância sobre nós mesmos e sobre nosso mundo. É preciso refazer caminhos da razão pensante criativa, dar de novo algumas razões da nossa fé e de nossos atos. É preciso apontar para os problemas reais, cotidianos, pequenos e grandes ao mesmo tempo. É preciso senti-los de outras formas; mostrá-los nas suas diferenças, nos aspectos que antes não captávamos para voltar de novo a habitar o real, aquilo que simplesmente e complexamente é.

Nessa linha, creio que certo mundo da tecnologia, mais imediatista talvez, excite pouco o pensamento. Entrega as informações importantes, mas não levanta a dúvida fundamental que nos leva a pensarmos sobre nós e nosso mundo. O pensamento se faz no diálogo e nos desafios que fazemos uns aos outros. Sem negar a importância da tecnologia, especialmente a da comunicação, é preciso pensá-la também e aproveitar de seus extraordinários benefícios para considerar com lucidez seus limites. É preciso aprender a rearticular informações, duvidar, relacionar, pensar e nos tornarmos artífices de nosso conhecimento e de nossas ações. Toda essa tentativa de repensar nosso mundo não apagará totalmente os muitos dogmatismos e as necessidades de apelar a deuses e demônios. As cosmovisões são múltiplas e continuarão sendo. Apesar delas e com elas é preciso continuar fazendo-nos o convite para repensar o real que somos, o real que nos toca, mesmo se este real for imaginário como o dos deuses e demônios que criamos.

Convidarmo-nos mutuamente a buscar soluções para dores e problemas que nos afligem; convidarmo-nos a ousar saídas mesmo que provisórias para aprendermos coletivamente a assumir nossos problemas; convidarmo-nos a organizar em pequeno a vida social que queremos; ensaiar efetivamente caminhos para nosso bom e coletivo desejo de convivência mútua e situar aí a compaixão e o profetismo.

  1. Compaixão e Profetismo

Continuo a situar-me nas grandes e inconstantes linhas que marcam de nosso tempo. Continuo na mesma mistura que somos e que está em tudo. A partir dela, creio que não queremos perder nem a compaixão, virtude que nos aproxima uns dos outros e nem o profetismo, palavra indicadora de denúncias sobre o mal que fazemos e os anúncios de bons tempos que virão.

Hoje há uma espécie de medo de alguns cristãos de perder essas palavras dada a imprecisão de seu significado e a banalização de seu uso. Repetimos coisas de anos passados sem, no entanto, sentirmo-nos alimentados por elas. Mas, não queremos perder essas palavras porque evocam algo importante de nossa tradição e das escolhas passadas que fizemos. Elas nos entregam ainda, talvez algo de valioso presente em nós mesmos, algo que pode nos sustentar em meio às confusões criadas por nós usando Deus e o Diabo a nosso favor. Elas também denunciam os males que nos afligem e anunciam novos caminhos éticos.

Hoje, igual e diferente de outros tempos compaixão e profetismo se dão as mãos numa expressão micro-social e micro-política anterior aos discursos macro. Enquanto a economia se torna cada vez mais trans-nacional as vibrações do coração humano por outro coração semelhante ou por outros seres vivos se dá mais através de uma expressão micro em expansão. As grandes organizações mundiais da década de 1960 e 1970 estão mais ou medos falidas. As organizações mundiais como a ONU e similares, as conferencias episcopais, os diálogos ecumênicos mundiais, as organizações internacionais anti-tortura parecem perder força. Ainda existem formalmente, mas sua eficácia prática e seu alcance mundial perderam intensidade visto que nasceram em outros tempos e contextos e não evoluíram para acompanhar os novos desafios.

O que chamamos de compaixão e profetismo segundo a experiência cristã se reveste hoje de uma expressão de iniciativas de pequeno alcance. Estão nos pequenos grupos de ajuda mútua, nas organizações independentes, nas solidariedades pontuais, nas músicas, nos teatros que se multiplicam, sobretudo os que têm uma mensagem social. Estão nas muitas solidariedades e denúncias que se fazem através das redes da internet e nos diferentes sites. Nem sempre essas duas palavras são usadas. Entretanto, somos convidados/as a reconhecê-las através de outras linguagens e outros vocábulos. E este é um grande desafio. Descobrir que estão vivas como atitudes e não como palavras; apreender sua força e vitalidade em novos conteúdos, novos comportamentos e gestos que diferem daqueles do passado.

Grandes denúncias e grandes anúncios parte das grandes narrativas do século XIX e mesmo das esperanças formuladas pela teologia da libertação no século XX não têm mais na atualidade lugar reconhecido de forma clara. Há uma espécie de crise dessas esperanças sociais universalizantes. Entretanto, a interpretação da profecia continua se dando como memória do passado e também nas pequenas ações e iniciativas do presente reconhecidas por alguns como sendo favoráveis ao bem comum. O novo mundo para hoje parece surgir como uma revolução incipiente que vai minando pouco a pouco os sentidos das formas do passado, criando mal estar e ao mesmo tempo introduzindo novas aproximações que nos convidam a estar continuamente em estado de mudança e de alerta. Ainda desconhecemos a maioria de seus contornos. Apenas sabemos que estão aí… Pressentimos que algo chega e está chegando… Não sabemos como e nem o quê de forma precisa… Há que esperar pacientemente… Há sinais múltiplos de compaixão social para além dos discursos das instituições religiosas e políticas. Há profetismos se anunciando sem estarem sendo levados em conta… Tanta gente anônima se organizando… Começando um grupo e desfazendo grupos… E, esse algo inseguro, inominável, desagradável e agradável nos une e nos dá um pertencimento comum ao tempo que é o nosso e ao espaço comum que habitamos. Relações tênues, começos e re-começos, ensaios, iniciativas pontuais parecem fazer parte desse novo desenho da compaixão e da profecia.

De fato, a compaixão, ou a proximidade solidária, de uns pelos outros do ponto de vista social e político macro parece ter diminuído em sua manifestação explicita institucionalmente organizada. Mas, apesar disso, continuamos sempre na tensão entre nosso coração de carne e nosso coração de pedra nas palavras do profeta Ezequiel. Ora um vence, ora o outro. É esta a mistura que nos constitui e influencia nossas vivências cotidianas. É esta imprevisível mistura de tantas coisas que nos faz apreender a diversificada surpresa de cada dia, e nela também a boa surpresa, aquela que nos faz sorrir ou chorar porque capaz de tocar as fibras íntimas de nossos corações levando-nos a agir em favor de outros. Compaixão e profetismo vivem no meio de nós talvez com outros nomes e outras expressões. É preciso ser capaz de reconhecê-los na sua frágil cotidianidade e, sobretudo na riqueza de sua diversidade. Mais uma vez, já não há mais as grandes narrativas proféticas e políticas nas quais todas e todos devemos entrar e esperar que se realizem. Nenhum guarda-chuva ou guarda-sol nos protegerá uns dos outros. Estamos expostos a um mundo de coisas complexas apesar de nossos ‘discursos cobertores’ ou de nossos ‘protetores solares’. Estamos expostos à cotidianidade de nossas buscas, de nossos pequenos amores e esperanças. Estamos expostos uns aos outros e não podemos fugir dessa condição. Assim existimos em meio à grandeza e pequenez da vida…

Certezas frágeis nos habitam… Em meio à obscuridade há vagalumes cruzando nossas noites e borboletas coloridas esvoaçando pelos jardins. É preciso reconhecê-los e acolhê-los… E, em meio às luzes que nos ofuscam levando-nos à cegueira dada sua luminosidade excessiva provinda dos muitos Lúcifer e de seus servidores há zonas de pouca luz que nos obrigam a estarmos atentos e a abrir mais os olhos para seguir adiante. De fato “caminhantes não há caminhos… Fazemos caminho andando…”

(Conferência dada aos membros do CONIC – Conselho Nacional de Igrejas Cristãs – Agosto de 2017 em Brasília)

Postado na Edição 519 – número 129 do Caderno de Teologia Pública do Instituto Humanitsa Unisinos – IHU

Obs: Ivone Gebara é filosofa e teóloga feminista. Foi professora do Instituto de Teologia do Recife e trabalhou na formação de agentes de pastoral para o meio popular sobretudo do nordeste do Brasil. Doutora em Filosofia e Doutora em Ciências religiosas é autora de muitos livros e artigos. Vive atualmente em São Paulo e pertence à Congregação das Irmãs de Nossa Senhora.

É autora de mais de 30 livros publicados e dezenas de artigos sobre a temática

_______________________________________

1 Ver: Jornal Estado de São Paulo, Domingo 06 de agosto de 2017 – Reportagem especial sobre “Rumos da Igreja Católica”. A Hora dos exorcistas em SP, no país e no mundo. (Priscila Mengue e Jamil Chade).

2 Saramago, José. O Evangelho segundo Jesus Cristo. Companhia das Letras, 1991.

3 Op. Cit. p. 369

4 Op. Cit. p.378

5 Op. Cit. p.392 e 393.

6 Gebara, Ivone. Rompendo o silencio. Uma fenomenologia feminista do mal. Petrópolis, Vozes, 2000.

7 Jó,42, 4.

8 Antaki, Ikram. Religión. México, DF: Penguin Random House, 2015, p. 239 e 240. ( Tradução: A razão se mostrou em todo o esplendor de uma nova revelação, reivindicou sua autoridade em todos os campos, remodelou a educação, a religião, os costumes, a literatura, a economia, o governo… conforme sua própria imagem. Os filósofos admitiram a fragilidade da razão; sabiam que ela podia equivocar-se, perder-se numa lógica má ou em uma falsa interpretação da experiência, que frequentemente é serva do desejo e escrava da vontade. A razão tem limites; o sentimento é às vezes mais fundamental que ela, e além disso, a maioria dos homens mesmo numa nação altamente civilizada dependem demasiadamente das necessidades econômicas para encontrar tempo para cultivar sua razão. As massas se movem mais pela paixão e os preconceitos da razão.)

Link para o artigo acima original em PDF:

Deus e o Diabo na política

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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