Dou-me muitas vezes ao trabalho de olhar alguns programas religiosos na televisão e enfrento um duplo pensamento e sentimento. Primeiro, ouvindo os ardentes pregadores podemos acreditar que somos dirigidos por forças ahistóricas poderosas que se revelam a alguns poucos privilegiados, na maioria das vezes a homens, capazes de curar enfermidades, expulsar demônios, devolver riquezas e até fazer você encontrar um grande amor. É como se estas forças conduzissem os rumos de nossa história pessoal e nos levassem a aceitá-las como se fosse Deus. Segundo, tenho a impressão de um impressionante reducionismo da dimensão religiosa da vida à obediência quase cega às forças manipuladas por estes líderes que se apresentam como representantes de um extraordinário poder. O povo que frequenta estas igrejas, na maioria gente carente de diferentes bens, revela uma impressionante orfandade. Busca talvez um pai ou uma mãe, capazes de ouvir seus lamentos, enxugar suas lágrimas e curar suas feridas.

As imagens televisivas ora focalizam o pregador ora uma multidão imensa de fiéis orando como se estivessem diante de alguma divindade; ora aparecem muletas e cadeiras de rodas acumuladas como se fosse uma montanha sagrada testemunhando os milagres realizados. A quantidade de programas religiosos é impressionante, sobretudo nas televisões de transmissão privada. É como se uma nova solução para quase todos os problemas pudesse ser dada e estivesse ao alcance de todos.

Dou-me também ao trabalho de ouvir as notícias transmitidas pela rádio e ver pela televisão os jornais mais populares. Muitas vezes tenho a impressão de estar vivendo os últimos dias da destruição da humanidade e da Terra. Até a voz dos locutores se ajusta aos dramas da vida cotidiana! Há uma repetitiva insistência das tragédias que não só acaba cansando, mas provocando um estado de pânico em muita gente. Por exemplo, assaltos à mão armada, corrupção, roubos, acidentes, estupros, acidentes, casos de pedofilia, droga nas escolas são mostrados à exaustão. É como se estes acontecimentos fossem o cotidiano em todas as escolas e em todos os bairros, sobretudo da periferia. A repetição da mesma notícia de cunho destrutivo parece apresentar-se como um antídoto da violência cotidiana. Temos que erradicar a violência, dizem as muitas vozes e, no entanto, é com outra violência que se pretende erradicá-la. As cidades enchem-se de policiais armados e entre eles também aumenta a marginalidade e a corrupção. Como quebrar a espiral da violência? Como sair de seu jugo? Como encontrar novos caminhos de convivência social? Foi uma pergunta que muitas pessoas, sobretudo no século passado se fizeram. Tentaram criar movimentos de não violência ativa, de objeção de consciência, de boicotes a produtos de procedência duvidosa para tentar um enfretamento diferente na linha da diminuição da produção sistemática da violência social. Hoje pouca coisa resta destas iniciativas passadas. Os tempos e os espaços políticos são outros.

Parece que estamos caminhando em areia movediça. Estamos afundando nos caminhos que escolhemos e não escolhemos trilhar. Algo se escolhe, mas muito é não escolhido. A dominação dos impulsos imediatos e do desejo de afirmar a força da individualidade parece ser o novo comandante de todas as nossas ações. E isto nos dois casos que assinalei acima, apesar das diferenças.

O que me preocupa em tudo isso é que muitos de nós afirmamos que temos o direito de deixar que os programas religiosos sejam o que são e que os noticiários sejam aquilo que os donos das empresas querem passar, ou seja, apenas o lixo que produzimos. Dizemos muitas vezes que isto é democracia e que isto é a liberdade cidadã. Confesso que tenho dúvidas sobre a questão e as respostas dadas, pois percebo que estranhas formas de dominação e mesmo de crueldade têm se manifestado nos meios de comunicação, no meio dos bairros e das famílias. Estas são batizadas com lindos nomes como “liberdade”, “respeito”, “democracia” ou “cidadania”. É com muita cautela que expresso minha rebelião interior e minha dúvida em relação aos modelos de educação transmitidos pela mídia, pelas expressões religiosas das Igrejas eletrônicas e por alguns métodos educacionais que se denominam avançados e modernos. E a cautela é não só pela dificuldade do problema, mas pela dificuldade de encontrar saídas possíveis a esta nova invasão religiosa consumista que vem colonizando mentes e corações.

Enquanto nos movemos com conteúdos religiosos quase mágicos e com o uso fundamentalista da Bíblia somos levados, por um lado a acreditar em forças superiores e, por outro, uma onda crescente de crença no poder e na vontade do indivíduo parece também crescer entre nós. E cresce não apenas entre os adultos, mas no meio das crianças, dos adolescentes e jovens. Há um paradoxo, um conflito e uma cumplicidade de poderes. Um é o poder do alto, o poder de um chamado Deus poderoso e o outro o poder dos indivíduos, cada um tentando passar a perna no outro para obter um melhor lugar ao sol. Cada um busca obedecer a sua própria vontade e busca seu próprio prazer acreditando que há apenas um Deus acima deles. No fundo há um único poder que se expressa de formas diferentes. De um lado a submissão aos poderes divinos e do outro a exaltação cada vez maior de centenas de migalhas de poderes cada dia novos e cada dia diferentes a se imporem através dos meios de comunicação. Somos dominados por nossos impulsos individuais e passamos a ser tiranos dos outros e de nós mesmos. Basta ver a escravidão da massa ao violento desejo consumista e suas conseqüências na vida de crianças, jovens e adultos. Basta constatar a vontade de brincar com a vida alheia através da perseguição a estrangeiros, aos indígenas, aos homossexuais, a queima de mendigos, a pichação de muros e praças públicas. Basta constatar o roubo dos bens públicos feito por empresas e por políticos. A vontade da violência aflora a cada instante como se fôssemos bárbaros guerreiros uns contra os outros a lutar em uma guerra contra nós mesmos. O outro já não é mais meu próximo e eu já não sou mais o próximo do outro. Afinal quem somos nós? E o que queremos fazer de nossas vidas?

Anos atrás as igrejas cristãs insistiam no fato de que a Bíblia nos ensinava que “somos imagem e semelhança de Deus”. E como Deus era bom tínhamos que ser educados à bondade, à justiça, à solidariedade, ao amor ao próximo. Mas hoje nada mais resiste a essa imagem do Deus bom. Diante da produção de tanta crueldade, diante da destruição das pessoas e dos ecossistemas começamos a ter dúvidas sobre esta velha crença de que nós somos a imagem de um Deus bom. Então, de que Deus, somos hoje imagem?

No fundo, parece que cada um de nós faz sua própria divindade e a adora como sua própria imagem. O Deus comum, a divindade que busca o bem coletivo, a divindade que convida ao amor ao próximo como a si mesmo foi há muito tempo destronada ou quase tornada objeto de museu. Dela apenas restam palavras, as belas palavras ditas, mas não vividas. Dela apenas restam os discursos inflamados dos políticos religiosos e dos religiosos políticos que continuam a encher-se de moedas de ouro ao preço da desgraça alheia e das promessas indecentes feitas aos pobres e incautos.

Não quero ser pessimista, nem moralista e nem uma realista chata. Acho desafiante o mundo em que vivemos e não gostaria de viver em outra época. Mas, preocupam-me as novas gerações e, é por elas e por nós que temos que fazer algo a mais ou diferente do que fazemos. É por elas e por nós que precisamos tornar nossa existência mais agradável e coletivamente prazerosa.

Não há receitas para voltar a encontrar um coração humano comum. Apenas a velha sabedoria de todos os povos que nos convida a nos colocarmos sempre na pele daqueles que sofrem de diferentes maneiras. E nessa linha abraçarmos a vida fora de nós tanto quanto a nossa própria vida.

Dependemos uns dos outros, vivemos uns dos outros. Por isso, somos convidados, sempre de novo a nos aproximarmos das dores alheias, a tornarmo-nos vulneráveis às múltiplas dores e também às múltiplas alegrias. Dores e alegrias devem fazer parte não só da vida cotidiana, mas de um processo educativo coletivo que deveria ser reafirmado em todas as instituições. E esta tarefa não pode ser apenas dos poderes públicos ou das instituições de ensino superior ou das igrejas, mas de cada um de nós no processo de autoeducar-se para o convívio em sociedade. Cada grupo pode buscar seus caminhos de reencontro com o coração humano comum, com nossas entranhas e perceber que na extraordinária diversidade que nos constitui, a vida, esse pulsar frágil e interdependente, é a mesma e única VIDA que está em todos nós. (Março – 2009)

 Obs: A autora é  escritora, filósofa e teóloga.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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