Ir.Emanuela Mélo de Souza 15 de março de 2018

VÓS SOIS O MISTÉRIO, SENHOR,
NÓS VOS CONTEMPLAMOS NO AMOR

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Hoje em dia, fala-se muito em mística. Mas, o que é mística? E como entendê-la na cultura atual de pluralidade teológica e do diálogo inter-religioso? “[…] as experiências místicas das diferentes tradições religiosas continuam sendo experiências de comunhão com Deus e de conhecimento de Deus por experimentação”.[1]  Na raiz de cada religião está a experiência do mistério. Os que experimentam o mistério são os místicos.

 Os místicos dão nomes ao Mistério. É sua ousadia, pois o Mistério é inominável. Chamam-no de Deus, Atma, Tao, Yahweh, El, Pai… Não importa o nome. Será sempre uma etiqueta para o sem-nome.

 Antes de tudo está a experiência do mistério, a experiência de Deus. Somente depois vem a fé. Esta não é, em primeiro lugar, a adesão a uma doutrina, por mais revelada e sobrenatural que se apresente. A fé só tem sentido e é verdadeira quando significa resposta à experiência de Deus, feita pessoal e comunitariamente. Fé é então expressão de um encontro com Deus que envolve a totalidade da existência, o sentimento, o coração, a inteligência, a vontade. Jacó deu um nome ao lugar onde encontrou Deus; chamou-o Fanuel, pois disse: “Vi Deus face a face” (Gn 32,31).

E qual é a característica da experiência mística no cristianismo? “[…] é a experiência de um Deus encarnado. Fora deste dado central e absolutamente necessário, não há cristianismo”.[2] Significa que jamais encontraremos a comunhão com Deus e o amor e o conhecimento de Deus fora da realidade, fora de nossos relacionamentos, fora das experiências, prazerosas e dolorosas, de nossa vida pessoal e social, fora de nossas lutas por uma sociedade de iguais, respeitosa da variedade de pessoas, povos e culturas. Mesmo tendo experiências de Deus comuns ou semelhantes com as de outras tradições, nossa referência principal, como cristãos, será sempre JESUS CRISTO: “com os olhos fixos em Jesus, autor e consumador de nossa fé” (Hb12,2). É por meio de Jesus que somos mergulhados na comunhão da Santíssima Trindade, no mistério de Deus, ao mesmo tempo íntimo e insondável, inefável, infinito.

E qual o lugar da liturgia nesta mística? É na assembleia litúrgica que nos encontramos, mística e comunitariamente, com o Cristo Ressuscitado que nos faz passar com ele da morte para a vida, da escravidão para a liberdade, do apego a nós mesmos para o transbordamento do amor. Ele nos faz juntas mergulhar no âmago da realidade, intuir o coração da vida, o mistério insondável, inexprimível, presença viva do Deus Amor entre as sombras e as luzes de nossas buscas e experiências. E nos envia em missão a serviço do Reino no mundo. Por isso, em toda a trajetória do povo de Deus da Antiga Aliança, a mística ou a espiritualidade está sempre ligada às assembleias, solenes ou cotidianas, que o povo faz, atendendo à convocação de seu Deus para encontrar-se com ele, ouvir sua Palavra e colocá-la em prática, comprometer-se com o seu projeto. O povo chora suas dores, implora ajuda, festeja as vitórias, pede perdão, celebra a Aliança e sai fortalecido na fé no Deus Libertador. Mas há momentos também nos quais as liturgias merecem as críticas dos profetas (cf Am 5, 21-27), por não estarem ligadas à realidade do povo, por não engajarem o povo nas lutas, por não reforçarem o projeto da Aliança de Deus.

As comunidades da Nova Aliança reúnem-se para fazer memória de Jesus (anamnese), invocando a ação do Espírito Santo sobre a comunidade (epiclese). A partir daí, profundamente unidos a Jesus, o Crucificado-Ressuscitado, vivendo e crescendo em sua intimidade, os cristãos se tornam testemunhas vivas do Cristo; anunciam e propagam a Boa Nova do Reino de Deus. Os escritos do Novo Testamento nos oferecem indicações preciosas sobre estas reuniões litúrgicas do povo de Deus, as quais eram como o coração de sua vida e missão.[3]

E hoje? Como fazer celebrações verdadeiras, autênticas, orantes, proféticas, ligadas à vida e à luta dos pobres, em continuidade com a tradição genuína do povo de Deus? Como fazer para que essas celebrações alimentem nossa espiritualidade, nossa mística, nossa ligação com o Deus da Aliança, o Deus dos pobres, para que alimentem o nosso seguimento de Jesus? Como redescobrir a liturgia como fonte de nossa espiritualidade cristã, de nossa mística? De fato, muitas vezes a espiritualidade e a liturgia caminham separadas em nossa vida. Isto tem uma explicação histórica: durante séculos, a liturgia ficou confinada nas mãos do clero, era celebrada em latim, com ritos estranhos à cultura dos povos que iam sendo “evangelizados”. O povo, impedido de participar da liturgia, foi criando outras formas para expressar seu amor a Deus e sua devoção, como: procissões, terço, via sacra, danças, folias, congadas… Ao longo dos tempos, foi surgindo uma série de “espiritualidades”, a maior parte delas sem ligação com a liturgia.

 No início do século XX, o Movimento Litúrgico, Bíblico e Ecumênico foi abrindo espaços e colocando as bases para que, pouco a pouco, o povo de Deus fosse tomando consciência de sua missão de povo sacerdotal ao celebrar a memória de Jesus Cristo, cantar os louvores de Deus e interceder pelo mundo inteiro, na ardorosa expectativa da vinda do Reino de Deus entre nós. A abertura para as liturgias celebradas na língua do povo, na linguagem poética, musical e gestual própria de cada cultura, com o resgate de expressões da piedade popular, torna possível ao povo voltar a beber da liturgia como “primeira e necessária fonte do espírito verdadeiramente cristão” (SC14).

Para refletir

  1. Onde alimento minha mística ou espiritualidade?
  2. Até que ponto as celebrações litúrgicas, os textos bíblicos, os salmos, hinos, cantos alimentam a minha espiritualidade, me ajudam a fazer experiência de Deus?
  3. Deixo-me tocar pelo sagrado?

DEUS está presente,

Tudo em nós se cale

E se dobre interiormente à sua presença.

Místico Teersteegen

 Mantra: O nosso olhar se dirige a Jesus, o nosso olhar se mantém no Senhor.

[1] BINGEMER, Maria Clara Luchetti. A mística cristã em reciprocidade e diálogo; a mística católica e o desafio inter-religioso. In: TEIXEIRA, Faustino (org.). No limiar do mistério; mística e religião. São Paulo, Paulinas, 2004. P.37.

[2] Idem, ibidem, p.68.

[3] A título de exemplo, seguem algumas passagens: Lc 24,13-35; At 2,42-47; At 4,23-31; At 13,1-3; At 20,7-12; Rm 3,6-11; 1Cor 10,16-17; 1Cor 11,17-24; 1Cor 12,13; 1Cor 14,26ss; Hb 10,19-25; Ap 5; Ap 7,9-17; Ap 11,15-18; Ap 19.

Obs: O texto acima foi uma proposta de reflexão realizado em um retiro bíblico-litúrgico para Irmãs beneditinas missionárias.

Imagem enviada pela autora.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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