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O tempo está nublado em São Paulo, mas não chove.  Faz tempo que precisa chover e não tem jeito. A situação já é caótica. O tempo está cinzento em todos os sentidos no país e fora dele. As crises tomam conta de pessoas, de cidades, de sistemas, de pensamentos, de razões, de sentimentos, de vontades… Elas, as crises, têm proporções ilimitadas, duração indefinida, alcance imprevisto. São globais e globalizantes. Ninguém está livre de uma ou mais crises que se interconectam e podem abalar os fracos e também os “fortes”.

O interlocutor sobre o assunto era meu amigo Fernando. Crises sérias e intensas – concordou ele – estão na política, na igreja, na universidade, na sociedade, em organizações sociais, na vida em geral… Porém, ao invés de reafirmar o que quase todo mundo repete de que não tem jeito mesmo, tudo está perdido ou se perdendo, Fernando foi lúcido e sábio. Disse da importância e da possibilidade de todos promoverem revoluções moleculares. A ideia advém do filósofo e militante revolucionário Félix Guattari e foi retomada oportuna e apropriadamente por meu amigo. Trata-se de pequenas e significativas transformações possíveis no dia a dia. Não crendo nisso e não lutando por elas, pode-se, no atual contexto, desanimar facilmente de tudo, já que há uma forte tendência ao instável e gelatinoso.

E citou o exemplo do que aconteceu em sala de aula, na universidade em que é professor. Disse ter convidado um líder operário que fora perseguido e torturado durante a ditadura militar, no Brasil, para falar sobre as perversidades provocadas por aquele regime que deixou marcas inapagáveis e traumáticas em muitas pessoas. Diante da exposição, uma jovem de tenra idade interveio mais ou menos nesses termos, com algum desdém: Por que o senhor está contando isso para nós? Quer agora se vingar dos torturadores ou de seus representantes? Ou quer provocar em nós sentimento de pena? O convidado, então, declarou: É preciso que todos saibam o que vivemos para que isso não venha se repetir com você e com mais ninguém. Após considerações que seguiram por esse caminho, choraram comovidos o que fora torturado, a jovem, o professor e outros estudantes que compreenderam o profundo sentido daquela aula.

Ainda na mesma noite, o professor recebeu e-mail da estudante que indagou o convidado, afirmando que aquela tinha sido a melhor e mais significativa aula de sua vida. Dizia que sua ingenuidade, sua indiferença e sua bem formatada arrogância tinham terminado diante do que ouviu, viu e sentiu.  Dito isso, Fernando concluiu comigo: Enquanto estamos lutando para que se esclareçam os fatos sobre as torturas, os desaparecimentos e as mortes produzidas por aquele nefasto regime e se faça justiça, em sala de aula aconteceu uma revolução molecular. Embora pequena, foi uma importante transformação.

Revoluções moleculares são fundamentais. E são suficientes? – interroga-me agora outro interlocutor. Suficientes nunca são, mas indispensáveis sempre serão. E o são em todos os âmbitos da vida pessoal, social, política, educacional e cultural. São insuficientes, pois diante das grandes crises do nosso tempo não bastam pequenas mudanças. São necessárias grandes transformações. E como se farão essas? Certamente um bom caminho é articular as revoluções moleculares, propósito tal que não pode se esvair na retórica, na utopia ou na poética.

Grandes mudanças (reformas) são necessárias na política. Os quase oito milhões de votos obtidos no Plebiscito Popular por uma Constituinte Exclusiva e Soberana do Sistema Político, realizado de 01 a 07 de setembro desse ano, com 97,5% dos votantes concordando com a necessidade da reforma do atual sistema, são exemplo de revoluções moleculares fomentadas por pessoas que entendem que a política é (deve ser) assunto sério. Oxalá esse processo tenha o êxito desejado de um plebiscito oficial e das reformas adequadas, para o que a sociedade precisa seguir empenhada, vigilante e participativa.

Outro sinal de uma possível revolução molecular, agora no campo da Igreja Católica, é a convocação de um conjunto de lideranças de movimentos populares de vários países para um encontro com o papa Francisco nos próximos dias 27 a 29 de outubro em Roma. É a primeira vez na história da Igreja que isso acontece. Entre outros objetivos, o encontro visa propor alternativas para “enfrentar os problemas que o capitalismo financeiro e as transnacionais impõem aos pobres, com a perspectiva de construir uma sociedade global com justiça social, a partir da realidade dos trabalhadores excluídos”. Trata-se de um “inédito viável” (Paulo Freire) e importante. Porém, é preciso que a Igreja avance muito mais e com rapidez em reformas de fundo, evitando cair em modismos novidadeiros e ao, mesmo tempo, superando modelos ultrapassados e inócuos. Precisamos passar das reformas moleculares para as estruturais. Essas são mais difíceis, mas certamente não se farão sem aquelas!(10.10.14)

Obs: O autor é Doutor em Sociologia, pós-doutor em Educação e professor da Universidade Federal do Sul da Bahia



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