Homenagem a Dom Pedro Casaldáliga em seus gloriosos 90 anos

“Esperança, vamos manter a Esperança, Esperança ecumênica”

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Quando estive em São Félix pela primeira vez, acompanhado de minha mulher Madalena, ajoelhei-me junto a sua cadeira e lhe disse: “Aqui é para chegar de joelhos porque estamos a penetrar num santuário”, e beijei sua face com emoção. E ele me respondeu com a frase citada acima. Dom Pedro é dessas pessoas inteiras, que você ou admira ou despreza e até odeia. Assim tem sido ao longo de sua vida. É feito de contrastes tão fortes que não deixa margem a ambiguidades. Capacidade de viver qualidades e carismas aparentemente opostos pode ser sinal de santidade, dizia meu professor de Introdução à Teologia. Sua ternura impressa em olhos quase de criança se combina, em paradoxo, com a indomável coragem de leão; sua humildade, a ponto de suportar alegremente humilhações, se entrelaça com indomável rebeldia. Seus sonhos são celestiais, projetados bem além das estrelas, mas os pés afundam no húmus de sentimentos e pensamentos que se fazem as próprias raízes de seu ser. Por isso, como poucos seres humanos e raríssimos eclesiásticos, é radicalencarna no agora de hoje as utopias do amanhã. Nisto é admiravelmente discípulo, semelhante ao “Verbo que se faz carne” (Jo 1, 14) e que é passado, presente e sempre futuro (cf.  Gn 1, 1; Cl 1, 14-20; Ef 1, 15-23). Não apenas projeta, mas é, em seu próprio ser: opção por pessoas e povos empobrecidos, pobreza evangélica, Igreja da Libertação e de comunhão, bispo servo e irmão, “rebelde fidelidade”, Pátria Grande Afroameríndia, Macroecumenismo… pequeno “palito” do rincão de São Félix, cuja meridiana luz e a benfazeja sombra se projetam sobre todos os continentes.

Dom Pedro orientou toda a sua ação missionária e pastoral a partir do chamado que lhe fazia a escandalosa situação de opressão e abandono do povo que lhe fora confiado. Era para ele evidente o encargo divino, o mesmo dado a Moisés: “Eu vi, eu vi a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi o seu clamor por causa de seus opressores; pois Eu conheço as suas angústias. Por isso desci a fim de libertá-lo da mão dos egípcios (…).  Vai, pois, e Eu te enviarei” (Ex 3, 7-10). Por isso, para ele, desde o início, era evidente que a Igreja deveria estar a serviço dos pobres e de suas causas. Assim, o eixo se deslocava do que se vê habitualmente por aí: da Igreja ao Reino de Deus, ela apenas “ministra”, completamente servidora. Como tal, não se identifica com o Reino, pois este é infinitamente mais amplo e chega a alcançar e encantar agentes e servidores muito além da Igreja. Esta era razão mais que suficiente para perceber com clareza que os pobres e seus(as) aliados(as) eram protagonistas de primeira linha: “O Reino une, a Igreja divide, quando não coincide com o Reino”, era sua clarividente meditação.

Daí, surgia nova e radical compreensão da missão do Evangelho. A ação missionária e pastoral tinha de ir além do aspecto religioso da Igreja e mais ainda de sua institucionalidade. “Religião” se deve compreender como linguagem para provocar ao exercício da “Fé” ou manifestá-la e celebrá-la.  Por isso, é sempre linguagem poética e gestual, instrumento privilegiado de expressão e comunicação no interior de uma determinada cultura. O conteúdo, porém, que se veicula, a ser praticado e comunicado, é a “Fé”, a saber, o testemunho de firmeza (“fides”), de confiança inabalável (“fiducia”) e de fidelidade (“fidelitas”) no Caminho (cf. At 9, 2; Jo 14, 6) de entrega da própria vida, para que haja “vida e vida em plenitude” (Jo 10, 10).

A vida dos pobres estava no centro. A pregação, a catequese, a doutrina e a liturgia e a própria organização da Igreja deviam refletir aquela centralidade da vida. Ora, na região o problema da posse da terra tinha tudo a ver com a possibilidade de viver. Era a questão crucial da vida do povo. Essa perspectiva, naturalmente, transbordava em opção política, em conflito com latifundiários e grileiros do agronegócio, e com a ditadura civil-militar que incentivava e respaldava grandes projetos de ocupação do Centro-Oeste. Era inevitável que a fé se praticasse na luta para defender a vida dos pobres e seu sagrado direito à terra: indígenas, quilombolas, posseiros, ribeirinhos, migrantes… Por isso, Dom Pedro está na origem do CIMI (Conselho Indigenista Missionário) e da CPT (Comissão Pastoral da Terra), que queriam ser sinais e instrumentos expressivos de um povo de fé. Sem dúvida, por isso, a profecia revivia na intrépida proclamação do direito do povo pobre que é o direito de Deus e na denúncia da injustiça, da violência e da morte. A análise de conjuntura e da estrutura subjacente tornou-se a maneira concreta de atualizar a memória bíblica (cf. Deuteronômio, Levítico e Escritos Proféticos); e chegou a ser possível que até pessoas não religiosas se encantassem com a perspectiva  de trabalhar na Prelazia, oferecendo sua vida em favor da vida do povo. Para além da linguagem religiosa, a fé revelava sua capacidade de atrair e estabelecer “aliança de sangue”, mesmo que, eventualmente, as “linguagens” nem sempre coincidissem plenamente. É que o Reino ocupava o centro das preocupações e do compromisso de vida; a Bíblia era assumida como a preciosa herança da memória subversiva do povo de Deus; a profecia, em particular, era retomada em suas duas faces: análise/denúncia da sociedade de opressão e anúncio da esperança possível de um novo mundo sob o império da vontade de Deus.

O fundamento era posto, estabelecido de maneira radical, naquele nível profundo em que se joga a própria vida. Não era resultado de simples compaixão religiosa, muito menos ainda de sensibilidade humanista ou filantrópica, nem mesmo se tratava apenas de, diante das evidências da opressão, “optar pelos pobres”. Na verdade, a aliança se dava com radicalidade, a saber, na “raiz”, a partir do fato que se experimentava a solidariedade radical com os pobres, uma comunhão que tornava possível “optar por ser pobre”, ao adotar estilo de vida que marcava o dia a dia dos(as) agentes da Prelazia, a começar do Bispo,  que partilhavam, em comunidade, convivência, moradia e bens. Um detalhe pequeno mas significativo é que sandália japonesa ou havaiana ou de dedo passou a ser conhecida e designada, até pelos comerciantes, pelo nome de “prelazia”. Era, como dizem as Bem-Aventuranças, tornar-se pobres, não “de espírito” (interiormente, com coração desapegado de riquezas…), mas “segundo o Espírito (de Deus)”, fazer-se pobres por obra do Espírito, isto é, com “fome e sede de justiça”, e arriscar ser “perseguidos(as) por causa da justiça” (cf. Mt 5, 1.6.10). As três bem-aventuranças são, na verdade, os pontos cardeais da composição literária em série de oito, com íntima relação entre a primeira, a quarta (central) e a última, sendo a promessa “o Reinol dos Céus”. Fazer-se pobres por obra do Espírito (“espiritualidade”) e, a partir daí, experimentar a fé, e agir e falar do mundo, da Igreja e de Deus de uma nova maneira.

Quem sabe, tivemos na Prelazia de São Félix a experiência viva daquilo que hoje proclama o Papa Francisco: “Opção fundamental pelos pobres” (cf. Mensagem para o Dia dos Pobres). Na perspectiva do Papa, sua maneira de falar parece pretender superar um estranho debate que se arrasta desde que o Episcopado de nossa Afroameríndia, em Medellín, proclamou a “opção pelos pobres”. Vieram imediatamente os “reparos”: “opção pelos pobres”, sim, mas “preferencial e não exclusiva”. Ou seja, “optar pelos pobres”, mas não deixar de “optar pelos ricos”. Recomendava-se compreender (reduzir) “opção” como mera “preferência”, como a Igreja sempre o fez no curso da história, mediante  suas “obras de misericórdia” e assistência. Sem dúvida, temia-se a “radicalidade”, sob o pretexto de evitar a radicalização… Isto se fez ainda mais claro quando de altas esferas eclesiásticas veio a sugestão de não insistir no termo “opção”, mas só “amor preferencial”. Eis que agora, sem aludir explicitamente a essa acirrada polêmica, o Papa, de mansinho, radicaliza e simplesmente proclama “opção fundamental pelos pobres”, e explica que os pobres se acham nos “fundamentos” da Igreja, a saber, no próprio Jesus, Filho de Deus, o inspirador e modelo da fé (cf. Fl 2, 1-11; Hb 11, 1-40; 12, 1-4). O que, aliás, de outra forma, já o tinha sugerido o insuspeito Papa Bento XVI quando declarava que a pobreza é dimensão essencial do Evangelho e, por isso, marcada de dimensão cristológica.

Toda essa perspectiva e caminhada, Dom Pedro a sintetizou em frase memorável que o retrata da maneira mais perfeita: “Em rebelde fidelidade”, que assumo como título de um modesto quase-poema que tenta traduzir sua opção e seus sentimento

                                            “Em Rebelde Fidelidade”

A vizinhança da ameaça

e do martírio

impele

arrasta

à experiência do essencial

do único necessário:

a Vida

o Amor

a Justiça

sem hesitação.

 

Dar a própria vida

podia ser o preço

para que irmãos e irmãs

possam viver

e ia muito além

de qualquer credo

de qualquer expressão

religiosa

sempre  provisória.

Só a Vida

Tem gosto de Definitivo.

Por tudo isso, Dom Pedro se deixou marcar por uma atitude ecumênica sem fronteiras. Em geral se fala de Ecumenismo como a relação e o diálogo entre pessoas e Igrejas cristãs. Essa palavra foi sendo redescoberta, não faz muito tempo, em ambiente protestante e anglicano, e caracterizou a perspectiva do Conselho Mundial de Igrejas. As missões em países não cristãos fez surgir a pergunta: Como anunciar Jesus como Salvador, divididos, sem escandalosamente dividir o Cristo e perversamente dividir o povo e, assim,  enfraquecê-lo? Começou-se a perceber que a Missão exige a unidade. As Igrejas Ortodoxas e Orientais, talvez pelo sofrimento de sentir-se isoladas em países comunistas, aderiram à iniciativa. Só a partir do Concílio Vaticano II, e com reservas, a Igreja Católica Romana se aproximou oficialmente do Movimento Ecumênico. Rompia-se com a absurda ideia antiga de que “fora da (minha) Igreja não há salvação”. Com ajuda de bons teólogos se deu mais um passo. Rompido o Exclusivismo, já se tornava possível pensar que pelo mundo afora há muita gente que são “cristãos anônimos” (expressão cunhada por Carlos Rahner), ou seja, vivem como cristãos sem o saber. Do exclusivismo se passava ao Inclusivismo. Não tardou e nova pergunta se levantava: Por que temos de nos julgar o centro e todos incluir em nós (cf. Mc 9, 38-41), se o Cristo é já o Primogênito e Cabeça de todo o universo (cf. Ef 1; Cl 1, 13-20)? Por que não reconhecer que Deus se revela às pessoas e aos povos em suas variadas culturas e religiões? Aos poucos, penosamente, se passava do Inclusivismo ao Pluralismo Religioso, e do Ecumenismo ao DiálogoInterreligioso.

Permanecíamos, porém, sob o condicionamento de estabelecer a proximidade a partir do eixo da Religião, como o próprio Concílio Vaticano II o faz: Igrejas cristãs de matriz católica, Igrejas protestantes, povos monoteístas, povos adoradores de Deus (“deuses”), finalmente, “homens de boa vontade”. A prática da vida, porém, revela outra coisa: quantas vezes, as lutas da vida não revelam que cristãos ou pessoas religiosas podem estar mais próximas de gente não religiosa que de irmãos(ãs) religiosos(as)? Percebia-se uma experiência bíblica elementar: o que nos aproxima ou nos distancia não é, primeiramente, a crença (“credo”) ou a prática religiosa, mas a práxis da vida, como Jesus o indica claramente (cf. Mc 9, 38-41; Mt 25, 31-46). Fomos percebendo, sempre com mais clareza, que “Religião” é linguagem cultural, formulação de ritos, mitos (doutrinas) e crenças; enquanto Fé (Fides-firmeza; Fiducia-confiança; Fidelitas-Fidelidade) é o jeito de trilhar o Caminho (cf. Mc 8, 22–10, 52) que se revela na prática quotidiana das pessoas que se tornam livres para servir e partilhar, porque descobrem que “ser em si” só é possível quando se passa a “ser para além de si”, pela renúncia a “ser para si”. Ora, “ser para além de si” é apostar a vida jogando-se na direção da Transcendência a que damos o nome pessoal de Deus.

Porque o tem vivido intensamente – é a fonte secreta de sua experiência espiritual e de sua poesia – Dom Pedro foi capaz de intuir o que proclamava em assembleia continental de nossa Afroameríndia: Macroecumenismo, Ecumenismo sem fronteiras, a não ser aquelas que a Vida mesma estabelece. A aliança não se dá necessariamente em torno da “Religião” (seria ficar no nível da linguagem, da cultura). Mas, sim, em torno da “Fidelidade” prática. Lembremo-nos de Jesus: “Não é quem diz: ‘Senhor, Senhor’, mas quem faz a vontade do Pai”… A grande linha de fronteira passa entre quem vive “para si” e quem vive “para além de si”. Sim, porque não é possível amar a não ser se já se está em Deus, mesmo que não se saiba dizer. Pois não se trata de “saber”, mas de ser e fazer. É o que nos ensina São João: “Quem ama, ‘conhece’ (por experiência) a Deus” (1Jo 4, 7-8).

Por sua profunda, e diria, sensível experiência de Deus, Dom Pedro percebe intensamente, lucidamente, quem está do lado do Reino, categoria que lhe é familiar, e quem “está contra nós” (Mc 9, 40). Por isso entende o Ecumenismo “para além” de todas as aparentes fronteiras religiosas a ponto de se sentir irmão universal de todas as pessoas que se abrem à fraternidade com o Pobre, pois, pela sabedoria do coração, já suspeitam, intuem que aí está Deus. Como respondia Madre Teresa ao pobre que lhe perguntava: “Qual é o teu Deus?” E ela: “O meu Deus é você”. A oposição já não se estabelece entre “crença” e “ateísmo”, mas entre Amor e Idolatria ou, como dizia Jesus, entre Serviço/Partilha e Afirmação de si mesmo(a), entrega da própria vida e perda de si (cf. Mc 8, 34-37).

Assim, Ecumenismo simplesmente alcança sua dimensão mais ampla – o que Dom Pedro diz com o termo “Macroecumenismo” —  pois diz respeito às dimensões do infinito coração de Deus e do nosso em toda a extensão da terra. Na verdade, trata-se de construir ou reconstruir a “Casa Comum”. ECU-MENISMO é o direito de todas as pessoas de permanecer (“meno” – verbo grego que indica “permanecer”) na Casa (oikos-eco-ecu). Para isso, a Casa deve ter uma “lei”, uma administração: ECO-NOMIA, lei da Casa. E essa “lei” deve corresponder à ECO-LOGIA, lógica da Casa.

Não há como escapar. Se Ecumenismo é o direito de todos os povos permanecerem na Casa comum (assim já pensavam os romanos, só que limitavam o direito aos povos de dentro do Império e sob as armas do Imperador), a Economia tem de ser a lei que garanta de fato esse direito (é sugestivo lembrar que, ao tratar da Trindade, os Pais da Igreja falavam de Economiada salvação…). E essa lei tem de estar de acordo com a “lógica da Casa” (Ecologia). Assim, ECUMENUSMO por si mesmo é “macro” e, de conceito teológico (as dimensões universais do coração de Deus) se faz princípio político de alcance universal: Economia em proveito de toda a humanidade (solidariedade, e luta pela justiça e a paz) e Ecologia, cuidado, zelo pela preservação e renovação dos recursos da terra, nossa Casa Comum (assim o proclamam as “O5 Marcas da Missão” no Anglicanismo: Anunciar a Boa-Nova, formar a comunidade cristã, para a Solidariedade, a Luta pela Justiça e o Cuidado. Ah, quem dera que a linguagem de todas as religiões e credos chegasse a manifestar essa intuição profunda da Fé, de modo que se tornassem instrumento eficaz de Caminho firme, confiante e fiel!

Há anos atrás, li, em revista semanal brasileira, crônica do famoso escritor Antônio Callado, era sobre Dom Pedro. Começava evocando encontro no Rio de Janeiro para conversa com intelectuais e políticos. Dizia que, ao olhar para o conferencista que falava sobre a situação do país em tempos da ditadura civil-militar, era como se estivesse “diante de um violinista que distraidamente dedilhasse o violino”. Em certo momento, ele começou a falar de Deus, então “eu percebi que o concerto tinha começado”. E acrescentava mais ou menos o seguinte: “Ele conseguia falar de Deus a ponto de perturbar um ateu como eu”… e prosseguia com sua narração. Certa feita, acompanhava Dom Pedro em viagem pela Prelazia, inclusive porque lhe interessava fazer pesquisas sobre o mundo indígena (é autor do romance “Quarup”). O amigo bispo portava uma pequena maleta. Até que chegaram a um pequeno povoado ribeirinho. À beira do rio, debaixo de uma árvore, puseram uma pequena mesa. Pedro abriu a maletinha e começou a  estender os “imaculados paramentos da missa”. Em seguida se revestiu para celebrar “e eu olhei em seu rosto e ele estava transfigurado”… Macroecumenismo é isto: é viver a Fé a ponto de, com maestria, empregar a linguagem religiosa para chamar as pessoas à experiência da Fé, como o fizeram os bispos da geração de Medellín, os Pais da Igreja de nossa Afroameríndia. Lembremo-nos de Dom Fernando Gomes, Dom Paulo Evaristo, Dom Helder Camara, dos primos Lorscheid(t)er, de Oscar Romero, Leónidas Proaño e tantos outros. Dom Pedro está na mesma galeria, com brilho espiritual de tal intensidade a ponto de “perturbar um ateu como eu”…  e, “ao falar de Deus, fazer perceber que o concerto tinha começado”… que maravilha! Será preciso testemunho mais eloquente do que quer dizer Macroecumenismo?

                                A Dom Pedro, às vésperas da Páscoa

(Quase-poema para Dom Pedro Casaldáliga, irmão e pai, de fé ecumênica, herói, confessor da fé, nas terras significativamente vermelhas das margens do Araguaia)

Pedro

terra firme em margens

que se movem

serena placidez

de pedra

bem assentada, rochedo

inexpugnável

incrustado

nas areias

das beiras

do Araguaia

 

sacramento

mais que sinal

símbolo vivo

da Presença real

da Rocha, fortaleza, baluarte, refúgio, alto retiro, cidadela, abrigo, esconderijo… (Sl 18; 31; 71)

 

rochedo

inabalável, para suportar

o peso de pés e passos

inumeráveis

de multidão em movimento: aborígenes, quilombolas, posseiros, pequenos lavradores, gente sem terra, desesperada

descrentes

crentes sem lugar…

feitos movediças terras

de enchente

migrantes de tantas buscas

peregrino caminhante

pés quase descalços.

 

Pedro

pedra da Igreja

epíscopo

de largo olhar

sucessor na cátedra

de  Pedro

colega de tarefa

e de cabeça

de Cipriano de Cartago

fundamento do edifício

da ecclesia, alternativa

comunidade, amplo redil, abrigo aberto, imenso território

d’outro reino, d’outro mundo.

 

Pedro

pedra

de arremesso,

carismático inquieto, incômodo

tal o amigo de Jesus

tirada da funda  – coragem invencível –

de pequeno Davi

para entontecer por terra

gigante Golias

de tantas ditaduras:

do latifúndio, devastador de terras e de gentes;

dos militares e covardes civis, ameaçador, de tanques e tribunais;

do cruel jogo de poder das cúrias eclesiásticas

despistadas

escondidas

encobertas em batinas

de escarlate coloridas.

 

Pedro

pedra nas mãos

de criança travessa

a estilhaçar

protetoras vidraças.

 

Pedro

pedra preciosa,

pérola oculta

em campo distante

comprado por Jesus,

de beleza transbordante, para além

das margens

de toda medida

do dogma e da razão

“herético e erótico”,

sentenciava uma vez

o já defunto cardeal,

irradiante, brilhante

cor de rubi, salpicada

de sangue

da Paixão

de mártires, confessores e místicos.

 

Pedro

apaixonado

sereno, arrebatado

indefeso, indomável

violinista

dos concertos de Deus,

“rosto transfigurado”

a encantar, perturbar ateus

como Antônio Callado.

Pedro

pedra

livre, leve

alegria saltitante

chama  — impossível deter—

a subir, espalhar-se

na direção do sopro

do Vento

por todos os continentes.

 

Pedro

qual fogo

que aquece as noites (Lc 22, 55),

chama que se gasta

mais pequeno, frágil, enfermo

agora  pobre completamente,

luminoso clarão

alvorada em nós

de Ressurreição.

São Félix do Araguaia, 2013

Obs: O Autor é Bispo Emérito da Diocese Anglicana do Recife
Igreja Episcopal Anglicana do Brasil – IEAB….

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