Breve introdução

No complexo mundo que é o nosso, cada vez mais pensadoras e pensadores têm buscado expressar sempre de novo o que constitui a base da fé cristã nos diferentes momentos e contextos da história. Esta tarefa foi e é um desafio constante e uma história sem fim desde que o fenômeno Jesus de Nazaré ou Movimento de Jesus ou Igreja Cristã irrompeu há mais de dois mil anos. Na pergunta sobre as bases da fé cristã as questões sobre Deus e Jesus como Filho único de Deus têm uma centralidade especial visto que tocá-las implica em tocar elaborações filosóficas e teológicas milenares e multiculturais. E não só isso, os enfrentamentos entre as várias interpretações provocaram conflitos e rupturas que misturadas a questões políticas criaram divisões religiosas e países marcados por separações religiosas.  Os séculos XX e XXI foram também bastante desafiantes nesse processo de reinterpretação das crenças religiosas e das teologias. As filosofias da suspeita representadas especialmente pelas escolas de Freud, Nietzsche e Marx nos seus diferentes desdobramentos enfrentaram não apenas a questão do papel das religiões, mas especialmente do cristianismo no ocidente. Da mesma forma é preciso lembrar as novas rupturas contemporâneas operadas no Cristianismo através do nascimento de novas igrejas e da ascensão de diferentes movimentos sociais e políticos que abriram fendas na homogeneidade teológica das velhas tradições. Continuamos hoje sendo desafiadas por novas e diferentes problemáticas acrescidas às anteriores. Um dos grandes desafios lançados ao pensamento teológico contemporâneo vem do feminismo. Desafio porque toca em questões antropológicas e sociológicas profundas muitas das quais ainda não reconhecidas e acolhidas por muitas Igrejas, instituições universitárias e Estados. Nessa perspectiva se pode afirmar que o não reconhecimento se constitui também em desafio visto que é revelador da continuidade de certa visão do mundo da qual temos grande dificuldade de nos desfazer. Apesar dos grandes avanços tecnológicos e científicos desse século, a produção das desigualdades continua avançando a largos passos mesmo nas chamadas democracias ocidentais. Continuamos a denunciar a anti-democracia, as muitas formas de violência e as novas injustiças como variações de “algo” que parece ser constitutivo da vida humana. Em nossa própria existência, em nossa constituição ontológica, em nossa carne e subjetividade, na relação a nós e aos outros se manifesta continuamente e de formas variadas a mistura da grandeza e da pequenez do ser humano.  Capazes de amar ao próximo e capazes de odiar até a crueldade mais refinada, não conseguimos dar o salto qualitativo que desejamos em nossas utopias sociais e educacionais. As religiões não estão isentas desse limite, ambigüidade e contradição. Nelas também o amor e a crueldade se delineiam de muitas formas. No que se refere à acolhida das reivindicações feministas limito-me apenas ao Cristianismo. Este enfrenta grandes dificuldades de acolher as reivindicações feministas, sobretudo quando elas tocam questões de fundo relativas a tradição patriarcal que deu forma àquilo que recebemos e vivemos como tradição cristã. À luz da novidade do feminismo e do mal estar que ele provoca proponho uma breve reflexão sobre algumas questões contemporâneas na sua relação com a teologia cristã e com os feminismos.

  1. Rupturas antropológicas e teológicas provocadas pelo feminismo.

Falar de rupturas antropológicas e teológicas significa que com o feminismo houve quebras nos pensamentos teológicos considerados como normativos ou como verdades indiscutíveis. Foram as teólogas feministas que no labor conjunto com as feministas, especialistas em diferentes áreas do saber e militantes sociais, que abriram fendas no saber monolítico masculino. Verdades teológicas ensinadas e fundadas em palavras de autoridade como garantia de veracidade estão agora abaladas. A proclamação da vontade divina segundo modelos hierárquicos excludentes está se tornando insuficiente e já não tem a aceitação da maioria dos fiéis. A Bíblia como uma fonte privilegiada de autoridade apesar da multiplicidade de interpretações possíveis está sendo questionada como referência de máxima autoridade. O controle hierárquico sobre os corpos os costumes e os papéis sociais com garantia celeste já não se sustenta em muitos lugares. As transgressões passíveis de condenação não apenas terrena, mas depois dessa vida são agora consideradas atos de resistência e de verdade histórica. As muitas almas gemendo no fogo do inferno por não terem observado as ordens eclesiásticas e as leis ditas de Deus estão sendo glorificadas, incluindo as das mulheres. Uma convulsão nas interpretações, usos e costumes pode ser observada em muitos lugares.

Hoje podemos dizer que as afirmações de autoridade e a as fontes legitimadoras são criticadas por seu caráter até certo ponto mítico e por sua pretensão de validade universal. Muitas dessas chamadas verdades de fé ainda são ensinadas como se tivessem uma existência para além da história e das construções contextuais do pensamento humano. Ou ainda, são ensinadas como se proviessem de um mundo de perfeições ou de essências puras que norteariam nosso mundo tão cheio de limites e contradições. Expressões como “Vontade de Deus”, “Palavra de Deus”, “Sofrimento de Deus”, “Bondade de Deus”, “Justiça de Deus” revelam não apenas a crença em um SER em si perfeitíssimo, mas mostram que algumas pessoas têm a autoridade de “revelar” essas verdades sobre ELE. Essas autoridades que falam em nome DELE justificam uma maneira de pensar e ser no mundo e, de certa forma confundem a verdade dita “revelada” com sua autoridade masculina em revelá-la. Proferem sua palavra como se ela viesse de um universo de perfeições imutáveis capazes de julgar a história humana. O que o feminismo tem denunciado é que, “as verdades sobre Deus e seus desejos” se tornam, de fato, as verdades dos homens que as proclamam. Estamos no terreno filosófico das epistemologias e da metafísica. Também estamos no terreno das crenças que sustentam a vida.  A partir daí fica claro que aqueles que justificam este ou aquele comportamento ou que exigem certas atitudes e pensamentos crêem que preservam a verdade de Deus. Talvez inadvertidamente confundem sua vontade de perfeição ou verdade com o que imaginam ser uma espécie de perfeição e de verdade para além dos limites humanos. Essa construção filosófica preside em geral os patriarcalismos religiosos monoteístas dependentes de uma visão hierárquica essencialista do mundo e de uma lógica dualista. Nela um termo é exaltado em detrimento de outro que é diminuído ou eliminado.

No presente texto a fenomenologia das crenças religiosas e seus vínculos profundos com os medos, desejos e esperanças de nossa plural humanidade não terão muito espaço para serem refletidos. Assinalo apenas sua importância, na medida, que fiel às metodologias feministas quero referir-me a situações e experiências próximas do vivido. O que nos importa agora é sublinhar como a exteriorização de crenças religiosas e sua modificação tem efeitos culturais, sociais, políticos e afetam a fé religiosa na sua expressão cotidiana. É nesse sentido que os diferentes movimentos culturais, sociais e políticos, assim como as aquisições da ciência e da tecnologia em relação aos processos vitais afetaram e afetam as crenças sobre nós mesmas/os e modificam nossa maneira de ser no mundo.

Nessa perspectiva podemos dizer que também o feminismo teve esse mesmo papel na vida de diferentes grupos e pessoas em relação à sua fé religiosa. Depois de ler Mary Daily[1] quantas mulheres se perguntaram se ainda podiam chamar Deus de Pai? Depois de ler Dorothée Sölle[2] quantas de nós reviveu os esquemas de autoridade e obediência que nos fizeram pensar no nazismo, nas ditaduras da América latina e outros tantos totalitarismos? Depois de constatar e vivenciar a violência doméstica sobre nossos corpos quantas refutaram os ensinamentos recebidos nas igrejas em relação à submissão aos esposos, à fidelidade conjugal e a moral sexual? Essa literatura e a consciência da violência sobre nossos corpos indiretamente atingiu as instituições religiosas que embora guardem seus antigos conteúdos patriarcais não podem mais ocultar a contradição de suas posições como o faziam no passado. O feminismo abriu fendas no conceito absoluto essencialista de Verdade apoiada na vontade de um Ser superior. Podemos dizer que quebrou a pretensa homogeneidade desse conceito. O feminismo chamou-nos para o pragmatismo da realidade cotidiana no movimento contínuo de refazer e repensar os sentidos de nossa vida. Somos desafiadas a sentir nossos corpos, a falar de nossas relações, a perceber as diferentes formas de socialização de nós mesmas. Somos acuadas a pensar a partir de nossa situação de classe, da cor de nossa pele, da orientação de nossa sexualidade como componentes de nossas relações sociais e de trabalho. O feminismo nos convidou e convida a olhar o mundo não a partir de uma pré-definição da verdade sobre o ser humano em geral, mas a partir do que vemos, do que ouvimos, tocamos, sofremos, desejamos ou tememos. Esse é o primeiro passo de proximidade a nós mesmas e aos outros. Essa é a primeira verdade que podemos captar experimentar, partilhar apesar de suas sombras, limites, mutações e contradições.  O acesso a nós mesmas sem o intermediário masculino normativo ou sem o julgamento da perfeição vigente é um significativo avanço nas novas antropologias que se delineiam. É importante lembrar que nós mesmas nos impúnhamos esses ideais a partir de critérios exteriores a nós mesmas e nos tornávamos de certa forma dependentes de comportamentos pautados em visões de perfeição pré-estabelecida. Nesse sentido a ‘revolução’ pessoal e social se entrelaça e abre novo capítulo de nossa história.

O feminismo tenta conjugar verbos saindo do infinitivo abstrato com fortes tendências de dominação patriarcal. Saímos de uma verdade eterna e de um amor eterno romantizado, de leis estabelecidas para sempre e entramos na dinâmica histórica do provisório, do cotidiano, de nossos corpos, de meu corpo, do seu corpo, de nossa responsabilidade comum. A quebra nos conceitos e nas referências não se dá por novos decretos, mas por um chamamento de atenção ao real no qual vivemos e a uma necessidade de tocar em meu solo existencial primeiro. Este solo é meu corpo e seus contornos, meu corpo e suas emoções, meu corpo e suas atrações e repulsões, meu corpo e sua história, meu corpo e suas dores e medos, meu corpo e seus prazeres, meu corpo e minha fé. Dizer ‘meu corpo’ no singular é afirmá-lo também como plural na relação fundamental com outros corpos.

Quebrar hegemonias de comportamento cultural significa ao menos abrir fendas, sair da homogeneidade, criar novos espaços de pensamento, rebelar-se contra as pretensões da norma estabelecida, do eterno, da vontade soberana de um Deus ou da Natureza. Quebrar a intransigência ideológica da lei natural, da naturalização dos gêneros, do pré-estabelecido e do pré-definido socialmente não pelo prazer de quebrar, mas para respirar, para soltar a voz, erguer a cabeça, abrir novas significações. É essa quebra que significa em grande parte a “ruptura epistemológica” que o feminismo tem introduzido na cultura contemporânea e especialmente na teologia. A epistemologia não é mais apenas uma descoberta e uma construção teórica erudita aplicável à vida ordinária, mas é continuamente ditada, confirmada ou corrigida pela vida ordinária.

O feminismo situa-se para além do absolutismo dos conceitos, expressão da dominação masculina e marca da colonização de nossos corpos. E, ao mesmo tempo tem se construído a partir de uma postura ética que ao denunciar os absolutismos excludentes afirma o direito à diversidade de construir uma ordem social que comporte a possibilidade de múltiplos diálogos em vista do respeito mútuo.[3]

Sabemos bem que a tentação da segurança nos ronda sempre. A contingência e o provisório nos atordoam. Mas o que há para além desse imenso fluxo histórico no qual nos movemos? O que há para além da cambiante beleza e feiúra que nos constituem? Essências? Puros espíritos? Perfeições eternas? Nós feministas preferimos ficar atreladas aos nossos corpos, à nossa solidariedade construída no dia a dia, falar delas, aprender e ensinar sobre elas. Preferimos contemplar as mutações da vida das flores e florestas, a mudança dos ventos e marés, da lua em suas fases… Preferimos o instante, o efêmero, o misturado… É a partir de nossos corpos que a busca por um mundo onde possamos caber com nossas diferenças se torna apesar das muitas dificuldades algo experienciável e mais ou menos possível.

  1. O mal feminino e suas conseqüências

Uma das linhas de reflexão que conseguimos desenvolver ao longo de décadas de teologia feminista foi a de resignificar a questão do mal na filosofia e na teologia. É uma questão chave muito embora queiramos acreditar que o que nos preocupa é apenas a prática do bem. Mas, a prática do bem só pode ser afirmada a partir de uma recusa em praticar o mal contra si e contra os outros/as. Que mal as igrejas e teologias devem deixar de praticar para ajudar a construir o frágil bem das mulheres? Que mal as mulheres devem deixar de reproduzir para mudar as relações humanas qualitativamente? E ainda, quem fala do mal cometido ou qual o sujeito que descreve o mal?

Sabemos que a acusação bíblica que recaiu sobre a mulher Eva, símbolo especial da humanidade feminina, desenvolveu uma história patriarcal do mal. Não é uma história apenas da mulher como tentação, como porta do pecado, como frágil de espírito, mas uma história de ocultamento do mal vivido e contado pelas mulheres.[4] Permanecemos durante muito tempo como objetos de uso e de acusação dos homens sem história própria, sem discurso nosso, sem poder expressar a profundidade das feridas que nos atingiam. Denunciamos hoje a história do mal na qual também fomos subalternas, coadjuvantes, auxiliares, complementos do mal ou tentadoras do mal masculino. No fundo, Adão apesar de sua inocente fraqueza diante de Eva sempre apareceu como o ator principal na história do pecado das origens. A Cristologia, por exemplo, se construiu a partir da entrada do pecado através de Adão e do resgate humano através de Jesus Cristo. Embora se diga que o pecado entrou no mundo através da irresistível tentação de Eva de provar do fruto proibido esta também não deixa de ser uma história de homens que se inocentam a si próprios para culpar as mulheres. Nós nos nutrimos dessa história durante séculos sem perceber os jogos de poder que as muitas interpretações do mito adâmico ocultaram. E essa diminuição do ser feminino presente igualmente em outros textos atesta os conflitos de gênero e a situação subalterna das mulheres, sobretudo nas hermenêuticas do mal desenvolvidas pelos homens.

Diante desse limite, podemos dizer que mesmo a história da salvação das mulheres é marcada pela interferência e benevolência masculina. Somos salvas por Ele, Nele, com Ele. Somos salvas seguindo-O, entregando-Lhe nossa vida, suprindo suas necessidades, amando-O até o final de nossas vidas. Sem que percebamos nossas crenças legitimaram a aceitação da dominação transformada em privilégio por servir um Homem-Deus e um Deus-Homem. Por isso nos submetemos aos homens e nos tornamos suas servidoras. Aceitamos ser o segundo sexo não só na ordem do mito da criação divina, mas segundo sexo na história das nossas relações, nas questões de poder e autoridade nas Igrejas.

O feminismo introduz uma quebra nesse processo abrindo-nos as portas para a vocação humana de denunciar os absolutismos tanto da natureza quanto os antropológicos e teológicos que matam a diversidade que nos constitui. Denunciamos a barbárie masculina que em nome de seus ídolos tornam populações inteiras especialmente mulheres e crianças vítimas de sórdidas crenças e de armas letais que continuam a ser produzidas. Denunciamos a guerra como caminho de convivência humana e como saldo de sofrimento especialmente para as mulheres. E muitas outras coisas mais…

Entretanto, há um problema atual articulado aos já assinalados, que ainda foi pouco enfrentado por nós mulheres. Caímos hoje em novas armadilhas do mal. Envolvemo-nos em sua brilhante teia e com seu atraente chamado. Quase sem perceber estamos nos tornando novamente submissas, calando nossa voz, perdendo nossa liberdade. Garantimos apenas a visibilidade permitida pelos novos deuses do Olimpo capitalista, o Deus global que se impõe a todos. Um novo fruto proibido bem diferente do de Eva nos está sendo oferecido. Agora já não é mais a serpente chamando-nos à liberdade, mas vozes misturadas, luzes, formas, imagens, odores, prazeres, artefatos mecânicos, comprimidos, dietas prometendo-nos a beleza do corpo e o sucesso nas relações. A Liberdade chama-se hoje ‘Beleza’.  De onde vêm esses novos demônios, lucíferes, anjos de luz com sua irresistível atração? Nascem de nós e de muitas partes e de muitos jeitos nos atraem porque servem ao nosso orgulho individual e ao poder do dinheiro. São nutridos pela avidez capitalista que busca sempre novos mercados para manter seu poder. Levam-nos a deixar de lado o bem coletivo e nos atrelarmos ao eu “Narciso” que nos habita. Fazem-nos abraçar a vaidade extrema chamando-a de auto-estima. Fazem-nos acreditar na leveza de nosso corpo capaz de escalar montanhas e atirar-se artisticamente de um penhasco, apenas com a condição de ser tratado convenientemente. Fazem-nos acreditar que muitos se dobrarão diante de nós extasiados pelo milagre da beleza que adquirimos. Convencem-nos de que estamos lutando por nossa auto-realização, novo nome da liberdade, e que temos direito aos bens da tecnologia e aos bens que as indústrias de beleza e de medicamentos produzem. Identificam o belo ao bem nos produtos que querem vender-nos. Confundem-nos como se estivéssemos numa Babel onde opiniões tão disparatadas sobre nós mesmas e sobre nossos corpos são emitidas. Já não sabemos mais qual fruto escolher e comer. Já não temos mais liberdade e autoridade sobre nós mesmas.

Na nova armadilha do mal, já não somos mais vítimas da pobreza, da fome, da ignorância, da violência familiar e política, da falta de reconhecimento social. Já não somos mais vítimas das más condições de nosso bairro e dos bairros vizinhos e nem da crescente poluição. A expressão ‘justiça social’ é pouco ouvida na mídia especializada na vida das mulheres. As análises políticas e econômicas de conjuntura são consideradas quase anacrônicas ou desnecessárias. Os caminhos da libertação para as mulheres se apresentam agora de forma clara e direta. Os meios de comunicação escancaram diariamente os novos caminhos. Basta adquiri-los em suaves prestações mensais, mas se puderem pagar tudo, um desconto é garantido. Tudo é facilitado para que sejamos belas e talvez até boas. O medicamento, o estimulante, o inibidor do apetite, o creme hidratante, o energizante não podem faltar em sua mesa. Se essa falha for cometida por diferentes razões incorre-se no ‘efeito sanfona’, pecado gravíssimo para o corpo e a alma, sobretudo para a economia das indústrias produtoras e das firmas vendedoras. Cuidado para não sermos expulsas do novo paraíso! Atenção para não aderirmos ao inferno dos corpos fora da moda! E mais, para não permitirmos que as rugas se instalem em nosso rosto, que as peles caiam e os cabelos embranqueçam… A aparência saudável e bonita passa a ser o critério da felicidade individual.

O espelho que nos fornecem para que nos olhemos reflete a imagem que os comerciantes querem. Não é um espelho refletor vazio, mas já pré-preparado e cheio de artifícios. Começamos a ver em nós a forma que eles nos vendem, começamos a desejá-la como se fosse essa a nossa verdade. Queremos chegar às medidas exatas, ao peso indicado como sadio e cientificamente comprovado. A nova utopia do corpo belo nos aliena de nós mesmas e nos faz muitas vezes cair em armadilhas perigosas.[5]

 Tudo se passa no mundo das aparências e, o que provocar alguma crise existencial deve ser evitado ou abandonado imediatamente. Por isso há que lutar contra Cronos, a perversa divindade do tempo, que faz correr dias e noites sem parar, revela o curso as estações do ano e as estações da vida. Morrer é trágico. Por isso, não se deve lembrar a morte. Há que exaltar sempre a vida para estar bem. Comer bem. Fazer regimes e comprar sempre produtos integrais e sem agrotóxicos. Nas nossas costas muitos riem de nós porque as grandes empresas agrícolas e alimentícias alimentam-se de agrotóxicos e nos dizem até que isso não faz mal. Mais uma vez nossa busca do bem está confusa e já não sabemos o que fazer. Nossa felicidade está embaralhada e a salvação de nosso corpo afetada. Nosso desejo de felicidade está cada dia mais impreciso e frágil. Quem somos nós além de grandes estimuladoras de um mercado em expansão? Objetos de cama e mesa de um mercado majoritariamente feminino que se expande nos bairros nobres e nas periferias das cidades?

  1. A salvação das mulheres

Se observarmos atentamente os significados que a sociedade de consumo emite podemos perceber o quanto no âmago dessa forma cultural de capitalismo está o medo de perder prestígio e poder. Nesse medo escondem-se muitos outros inclusive o medo da doença e da morte. Além disso, o desejo que meu próprio eu participe do que é reconhecido como valor, prestígio e poder aparece também como central. Entretanto, numa sociedade de classe onde os privilégios são hierarquizados alguns dominam os outros e usam de artifícios para lucrar sempre.

No novo objeto de mercado dominado pela beleza das formas do corpo o que é considerado feio e desarmônico é demonizado. É visto como sinal de degenerescência, de declínio, de marginalidade. Essa oposição dentro de um mesmo corpo cria culpa e esta age como elemento importante para incentivar a mudança das formas corporais. Por exemplo, nas propagandas para o emagrecimento das mulheres costuma-se apresentar uma mulher obesa cujas formas arredondadas escondem a beleza do corpo.[6] Depois de tomar frascos de remédio e usar cremes para chegar à forma ideal surge a mulher renovada, agora bela e atraente. A mesma mulher que misteriosamente se escondia na outra feia e condenada, ressurge fulgurante e cheia de aparente contagiante alegria. Só que a bela agora é a submissa aos padrões estabelecidos, é consumidora das receitas oferecidas, é instrumento fundamental de crescimento do capitalismo da indústria da beleza. Por um instante o corpo esculpido segundo os novos ideais vivencia momentos de felicidade diante do espelho e dos comentários alheios. Entretanto, esta felicidade para ser mantida exige que o sacrifício se prolongue e, mais tarde talvez, por diferentes razões será abandonado.

A beleza traz a felicidade enquanto que a gordura é quase sinônima de feiúra e torna as pessoas infelizes. A aquisição do corpo belo torna-me adoradora de mim mesma e aguça em mim o desejo da vaidade e de me comparar às outras mais belas ou menos belas. Sem pronunciar essa expressão, na realidade tornamo-nos deusas e deuses de nós mesmas. É a mim, através da ginástica, da ‘malhação’, da meditação sob a orientação de um guru que começo a prestar culto. Em vez de velas, incenso, água benta e Bíblia tenho que usar comprimidos, pílulas, ouvir músicas especiais, economizar para gastar com o cuidado de minha exterioridade forjada. O cuidado de si tão importante para todas as pessoas torna-se idolatria a serviço de um novo mercado que tem enriquecido a muitos. Além disso, corre-se o risco de criar novas formas de dualismo antropológico segundo o qual o mais importante é a exterioridade de meu corpo, sua aparência, sua plasticidade segundo o modelo estabelecido. O mercado não estimula o cuidado como conhecimento de si ou como cuidado de aprender a analisar nosso contexto e crescer em reciprocidade e responsabilidade comum. O pensar a vida eticamente é considerado exceção e coisa de especialistas. Quase não se pensa a vida e seus acontecimentos, quase não se pensa as nossas crenças atuais e suas conseqüências na qualidade da vida comum.

Nesse contexto, a pergunta pela salvação aparece hoje dentro do horizonte cristão com uma forma particular para as mulheres. Quem nos salvará? Quem nos salvará do desprezo por nosso corpo ou pela paixão excessiva pelas formas de nosso corpo? Quem nos salvará da manipulação da indústria farmacêutica, alimentícia e médica? Quem nos salvará dos produtores de novas imagens de nós mesmas? Quem nos salvará da nova carga de pecados que colocam sob nossas costas? Quem nos salvará da culpa que nos atribuem? Quem nos salvará da mediocridade e da alienação que compramos? Quem enxugará nossas lágrimas cotidianas e nutrirá nossos sonhos quando uma doença ou um acidente inesperado nos atingirem?

Não será o Deus proclamado amado pelos donos das Igrejas. Não serão seus discursos e nem seu Cristo manipulado por seus interesses. Estes não nos ajudaram a evitar as novas tentações. Não serão também os novos paraísos e as novas receitas de beleza que nos prometem a felicidade ainda que momentânea. De onde nos virá a salvação ou a libertação?

Entramos de cheio na questão de nossa responsabilidade pessoal e social e na urgente necessidade de parar de buscar nos hierarcas divinos e humanos uma compensação ou um substitutivo de nossa própria responsabilidade.

Quem outorgou às mulheres o direito de voto nos diferentes países do mundo? Não foram os que assinaram uma lei numa data determinada, mas a longa luta das mulheres, seu sofrimento, suas pequenas vitórias, sua tenacidade em continuar. Quem lutou contra a segregação das mulheres negras na sociedade e nas igrejas? Foram as próprias mulheres negras e outras solidárias nas suas diferentes organizações. Quem aprovou as leis que favorecem o trabalho doméstico? Sem dúvida não foi nenhum legislador obrigado a assinar um decreto de lei. Mas foi a luta contínua das empregadas domésticas nos sindicatos e fora deles para que fossem consideradas trabalhadoras como outros tantos e tantas. Quem conseguiu implantar o aborto terapêutico salvando muitas vidas de mulheres? Foi e está sendo a luta de muitas mulheres em muitas partes do mundo. Quem nos salvará das armadilhas da beleza imposta e do corpo modelo e objeto? Quem nos tirará das torturas da academia e dos jejuns? Nós mesmas, talvez renunciando a um consumismo alienante e escravizante que atinge todas as classes sociais. Em maior ou menor medida a grande maioria das mulheres anseia entrar nos templos da beleza, admirar-se e ser admirada. Por isso, romper esse ideal único, essa falta de diversidade e criatividade é um caminho que algumas já estão ensaiando.

A salvação, a pequena salvação, a salvação cotidiana é a única que conhecemos, pois vem de nós, de nossas buscas pessoais, de nosso sofrimento por saudar mesmo de longe a paz, a justiça ou o bem que buscamos. Aqui também nós mulheres feministas quebramos com a salvação universal ou com a espera ilimitada da decisão de algum político ou juiz benevolente para que algo de bom nos aconteça. Agimos e de muitas maneiras levantamos a nossa voz para abrirmos os olhos para as conseqüências nefastas do mercado capitalista que usa e abusa de nossos corpos. As novas formas de prostituição de que somos vítimas não se referem mais ao velho comércio sexual das mulheres. Agora a venda de nossos corpos é escancarada, é globalizada, é importada e exportada com luzes, formas e papel de presente. Mas, o pior é que não aparecem como prostituição, não são ditas como maneiras de alienar-nos de nossa própria vida. E as teologias pouco falam sobre isso…

A consciência como diria Mario Benedetti é ubíqua, isto é, tem o dom da ubiqüidade corporal. Às vezes a sentimos na falta de mobilidade, outras vezes no cérebro quando nos impedem de expressar nosso pensamento, outras vezes no sexo quando nos sentimos objeto descartável. Algumas vezes faz latejar as veias e acelera o coração levando-nos a acordar para pequenas ações que movem algo de positivo no mundo.  A consciência de nós mesmas é uma consciência misturada e por isso mesmo, a salvação que obtemos é misturada e tem que ser renovada e continuada. Não é a chegada a um lugar isento de problemas e dificuldades, mas é a consciência de que precisamos devolver-nos a nós mesmas, romper os contratos com o capitalismo machista disfarçado em oferta à beleza feminina. Devolver-se a si mesma, receber-se a si mesma com a cara lavada, mostrar-se sem vergonha de minhas rugas ou das manchas em minha pele. Cuidar-se sem tanto artifício mesmo se formos criticadas por apresentar-nos escandalosamente simples. Sair do modelo do corpo ideal e ser apenas um corpo sadio e amado capaz de se opor através de uma variedade de estratégias às forças do mercado que nos escraviza. Conhecer nossos desejos e necessidades reais como sociedade ou como comunidade é uma forma de converter-nos ao melhor de nós mesmas/os e socializarmos esses benefícios.

Nossa salvação é cheia de paradoxos e ambigüidades. Nem sempre nos alivia como gostaríamos. Às vezes é como uma aspirina outras vezes um copo d’água e até um sanduíche do MacDonalds. Mas, muitas vezes é uma conversa franca com amigas ou um diálogo entre grupos diferentes ou a leitura de um livro. Novas luzes se acendem em nós e indicam caminhos. Somos mistura de muitos cheiros, sabores e sensações. E a cada momento pode vir uma forma de alívio ou uma respiração mais plena e pura. Nesse sentido é que reafirmo que a salvação está nessa mistura que somos e que vivemos. Não haverá um paraíso a atingir, mas renovadas metas, renovadas lutas porque sabemos bem que o inimigo que nos escraviza está, sobretudo, habitando dentro de cada coração humano. Somos os insensatos/as capazes de produzir as mais diversas formas de crueldade para nos deleitarmos com o benefício próprio e a destruição dos outros e nossa. Somos também criadores de solidariedade, de altruísmo e de amor ao próximo. É nessa mistura que nos salvamos e não na realização de uma situação ideal que serve apenas para alimentar hierarquias sociais criadoras de ilusões para o povo. Desfalecemos, caímos e recomeçamos porque não são as idéias perfeitas e os corpos perfeitos que nos movem, mas as dores e os amores desde nossas entranhas e desde a proximidade dos que nos cercam. Não é para um mundo totalmente novo que lutamos, mas para transformar relações nesse no qual vivemos com aqueles e aquelas que amamos. Será que com esses pensamentos tão terrenos e materiais decretamos a impotência de Deus? Creio que em primeiro lugar despertamos para o pouco que podemos fazer para que nosso mundo de relações seja um pouco melhor. E começamos apenas a acordar o divino da insubmissão às muitas escravidões em nós e em nosso meio. Assim despertamos o divino em nós. É essa a base do Movimento de Jesus. Crer na divindade que nos habita, que mora em nós e é capaz de mover-me para além de minha preguiça ou de meu individualismo. Crer na divindade que desperta em nós quando estamos a caminho… E a cada pequeno despertar, talvez se consiga derrubar alguns dos demônios que nos exploram, que nos amarram que nos ferem as entranhas e que nos iludem com suas falsas promessas. Mas, atenção os demônios se vão, mas voltam sempre de novo porque nasceram conosco e vivem em nós. Por isso é preciso estar atentas a suas tentações assim como estamos atentas ao sopro do Espírito que renova todas as coisas.

Brevíssima conclusão.

Como os poetas e as poetisas, quero deixar hoje todas essas questões em aberto como se atravessassem portas que nunca se fecham.  Deixar em aberto para permitir todas as possibilidades de busca. Acredito que por aí passa a diversidade de formas e de lutas. Pelas portas abertas as diferenças transitam e os males são enfrentados porque juntas/os caminhamos apesar de nossos medos e inseguranças. Juntas/os vivemos e buscamos sentidos, apesar dos nossos medos e inseguranças…

Sem ponto final quero terminar essa reflexão com as palavras do querido poeta Mario Benedetti:

“El mundo que respiro

Trae provocaciones

Indultos e milagros

Me llena los pulmones

De ráfagas que ignoro

Pero nunca es el mismo”.[7]

E assim seguimos pelo mundo afora, mundo que apesar de semelhante nunca é o mesmo…

Maio, 2015

[1] Daily, Mary. Beyond God the father: toward a philosophy of women’s liberation. Boston: Beacon, 1973.

[2]  Sölle, Dorothée. Pai, Poder,Barbarie. Concilium, n.163, 1981.

[3]  Gebara, Ivone. Filosofia feminista. Brevíssima introdução. Motevideo: Doble Clic,2014.

[4] Gebara, Ivone. Rompendo o silêncio. Uma fenomenologia feminista do mal. Petrópolis: Vozes,2000.

[5] Foucault, Michel. Les corps utopiques, les Hétérotopies. Clamecy : Nouvelles Éditons Lignes, 2009.

[6]  O pintor colombiano Fernando  Botero é um dos artistas contemporâneos que mais exaltaram as formas obesas e arredondadas como arte e crítica aos modelos estabelecidos.

[7]  Benedetti, Mario. “El mundo que respiro” in El mundo que respiro. Editorial Planeta, Argentina, Buenos Aires, p.132.

Obs: A autora é  escritora, filósofa e teóloga 

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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