Djanira Silva 1 de fevereiro de 2018

djaniras@globo.com
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Já é tarde e não consigo dormir. Não, não ouço passos lá fora. Estão aqui, aqui bem dentro do peito. São vagarosos, passos de um velho cansado. Pela manhã, são passadas de criança, correndo e pulando. Medrosa e desconfiada, espero que se acalme e entre no ritmo. Há um bom tempo saiu do compasso. Só então percebi que existia. Deixou de ser uma referência passou a ser uma ameaça.

Hoje ele me assusta com seus desmantelos. O silêncio sumiu, a tranquilidade de outrora é apenas lembrança. Durante o dia oscila, ora apressando, ora lento. Já não preciso de emoções para que isto aconteça, sou uma padecente do tempo. Este músculo forte e corajoso que atravessou comigo vários caminhos, ajudou-me a sobreviver às alegrias e às tristezas está se declarando cansado. Hoje o seu descompasso deixa-me assim sem rumo. Velho relógio que já não tem conserto. Para, não para, eis a questão. Que há de parar eu sei. Vive me avisando. Parece um patrão mal satisfeito dando-me aviso prévio de vez em quando. E um amigo que só serve do silencioso. Sentir sua presença incomoda, mete medo. Está saindo do seu habitual comportamento. É feito um velho caduco que já nem sabe se está vivo ou se já morreu.

Vou ao médico só para ouvir conselhos. Não sigo nenhum. Caminhar, eles dizem. Ora, se caminhar, aí é que ele vai se danar mesmo. Nunca vi um coração tão paquerado. Passo o tempo inteiro ligada nele, ouvindo o seu cansaço

O que fazer, meu Deus com este coração desgovernado?

Obs: Texto retirado do livro da autora – Doido é quem tem juízo

A autora é poetisa,  escritora contistacronistaensaísta brasileira.

Faz parte da Academia de Artes e Letras de Pernambuco, Academia de Letras e Artes do Nordeste, Academia Recifense de Letras, Academia de Artes, Letras e Ciências de Olinda, Academia Pesqueirense de Letras e Artes , União Brasileira de Escritores – UBE – Seção Pernambuco
Autora dos livros: Em ponto morto (1980); A magia da serra (1996); Maldição do serviço doméstico e outras maldições (1998); A grande saga audaliana (1998); Olho do girassol (1999); Reescrevendo contos de fadas (2001); Memórias do vento (2003); Pecados de areia (2005); Deixe de ser besta (2006); A morte cega (2009). Saudade presa (2014)
Recebeu vários prêmios, entre os quais:

  • Prêmio Gervasio Fioravanti, da Academia Pernambucana de Letras, 1979
  • Prêmio Leda Carvalho, da Academia Pernambucana de Letras, 1981
  • Menção honrosa da Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1990
  • Prêmio Antônio de Brito Alves da Academia Pernambucana de Letras, 1998 e 1999
  • Prêmio Vânia Souto de Carvalho da Academia Pernambucana de Letras, 2000
  • Prêmio Vânia Souto de Carvalho da Academia Pernambucana de Letras, 2010
  • Prêmio Edmir Domingues da Academia Pernambucana de Letras, 2014


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