Não sei bem o ângulo ou o prisma da refração, mas a saudade sempre me pareceu o termômetro que melhor define uma traição.

Quando elas começam a parar de sentir saudade, seria um alerta ou uma confirmação?

Tem gente que dorme com outra pessoa sentindo saudade de você. Tem gente que dorme com você, todo dia, mas não consegue ter mais saudade. E tem gente que não dorme com mais ninguém porque a saudade não deixa.

Não tendo como medir ou metrificar, a saudade termina sendo o norte risível do quanto queremos alguém por perto.

É o pior tipo de traição que existe. A gente trai o nosso próprio sentimento ou nossos próprios valores. Quando a saudade começa a sumir, a gente trai também a vontade de dividir: o espaço, as conquistas, as brigas no trabalho ou aquela piada sem graça que já escutamos um zilhão de vezes e rimos em todas elas.

O único consolo é que a saudade também trai a si mesma. Porque o sentimento de culpa às vezes começa onde a saudade termina.

Quando a gente começa a voltar a ter saudades de outra pessoa, também dói feito uma traição.

Quase uma traição mútua, uma traição compartilhada. Você trai a si e trai todos os seus planos para aquele futuro que não vai existir.

E quando a gente começa a ter saudades de novo, seria isso uma traição retroativa?

Ela diz que não quer saber mais de ninguém, que não quer mais saber de relacionamentos. E quando olha para o relógio, só consegue pensar nos minutos que faltam para ver você. Quando olha para o celular, fica chateada que não tem mensagem. Ninguém admite porque a gente envelhece e continua mantendo essas pequenas teimosias.

Agora a traição não é com o outro. A traição é com ela mesmo. Ela sente saudade de algo que não mais queria se permitir a sentir.

Afinal, o medo de perder (por insistir) é mais fácil de lidar do que o medo de não ganhar (por investir) em quem você tanto quer por perto.

Porque se a saudade era resoluta, agora ela reina absoluta. Só para fazer você engolir em seco tudo que planejou não fazer.

Eu queria ser feito o Clint Eastwood, que em momentos de estresse vai para a academia e fica fazendo musculação por horas seguidas até a cabeça esfriar.

Queria ser feito o Charlton Heston, que pegava o rifle e ia atirar na floresta para esquecer os problemas. Foram tantos que ele virou presidente da Associação Nacional do Rifle.

Queria ser feito o Michael Douglas, naquele dia de fúria, que saiu atirando na McDonald’s porque o Quarteirão mais parece a metade de um cheeseburguer mordido.

Queria ser feito essas pessoas que conseguem isolar a saudade do jeito mais simples: ignorando, esquecendo, trabalhando, arrumando ocupação e sumindo aos poucos.

Eu só consigo sentar para escrever. Mas lembro que, outro dia, a saudade me disse que nunca é tarde para aprender.

Obs: Foto do autor.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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