“Esvaziou-se a Si mesmo e tomou a forma de servo, tornando-se semelhante aos seres humanos” (Fl 2, 7)

Os povos em sua grande maioria parecem ser religiosos. Intuem que há um Mistério por detrás da vida e da universalidade do mundo. Encantam-se, temem, buscam proteção, adoram, cultuam, sacrificam-se e invocam a divindade sob diversos e muitíssimos nomes. Os nomes têm de ser muitos porque Sua realidade é inesgotável e impossível dizê-la de um único jeito. Os povos e as pessoas “gostam de Deus” e até imaginam amá-Lo. Mesmo hoje, quando a religião parece retrair-se e as pessoas parecem não se interessar por ela como dantes, na verdade, reaparece em sucedâneos, com novas máscaras e novos nomes. O Capitalismo, por exemplo, é atualmente das mais importantes religiões do mundo e cada vez mais universalizada, com seus mitos, ritos e sacrifícios.

O “consumo” torna-se o valor supremo de referência. É símbolo da nova identidade  e define o “status” humano das pessoas. Vai penetrando e configurando sempre mais a dimensão profunda, afetiva  e emocional, alcança nossas pulsões mais elementares e primitivas: o desejo de poder, o sexo, o erotismo e os afetos; o instinto de violência, a ganância, as inseguranças e precariedades íntimas, a afirmação de si… De fato, o “consumismo” assume sempre mais a face ritual, multiplicam-se os pretextos de comemorações, encontros, celebrações e festas. Se se pergunta qual a razão, a resposta, com frequência, ultrapassa o nível da racionalidade, simplesmente se diz: “Tem que ser” ou “tem que ter”… Os “centros comerciais” insistem em criar ambiente alternativo ao quotidiano, já estamos longe de nossos antigos armazéns ou bodegas aonde íamos apenas buscar aquilo de que necessitávamos para manter nosso dia a dia. Hoje é muito diferente, entramos em lugares amplos e acolhedores, com a sensação de “estranha” beleza, de luz, comodidade e aconchego, conforto, grandiosidade, quase “sobrenaturais”, como imensas, solenes e sublimes “catedrais” (alguns até imitam propositalmente antigas catedrais góticas ou barrocas). As pessoas vão-se envolvendo no ritual da visitação, contemplam e desejam o que julgam o melhor para si, de acordo com os mitosque lhes são incutidos pela “pregação” poderosa dos meios de comunicação social. Imploram por descontos, como se orassem com fervor para obter favores e benefícios divinos. Quantas vezes, por exemplo, não lemos em automóveis: “Presente de Deus”, “Foi Deus quem me deu”, “Propriedade de Jesus”…!  E naturalmente sentem a quase irrecusável obrigação de cumprir o sacrifício de imolar as próprias obras, simbolizadas no preço que pagam, para resgatar seu “pecado” de não ser rico(a) o suficiente para agradar mais ainda o seu deus. Finalmente, concluem o cerimonial (tantas vezes no domingo à tarde!) com o banquete, a “santa ceia”, na “praça de alimentação”, com ruidoso fundo musical e intenso murmúrio de gente “em comunhão” (que irônico!), com o intenso sentimento de ter ultrapassado “este” mundo… com mais ânimo e força para descer à planície do quotidiano. Ao longo do tempo, e já começa cedo na infância, adquire-se verdadeira “espiritualidade”, o consumismo se torna nossa “devoção” e motivação profunda para estar bem ou “contente” na vida; em redor dele giram nossos valores e motivos de viver.

Incrível! até o que não parece “religioso”, um mero “sistema econômico”, na verdade, nos engana, pois por ser “idolatria”, por um momento, nos deixa com a sensação de ser deuses(as), o que profundamente sabemos não ser. É que naturalmente “gostamos de Deus” ou de deuses; de fato, gostamos é de nos sentir “deuses”, mesmo que seja mera fantasia. Por isso, a Bíblia insiste em nos alertar que não basta “gostar de deuses” e nem mesmo “de Deus” (ao julgar ilusoriamente que “o nosso” é o verdadeiro). É preciso “parecer com Ele”, exercer no jeito de viver, aquela “semelhança” que nos marca desde a Criação (cf. Gn 1, 26-28). NATAL é isto, é renovar-nos, escutar de novo a mensagem que nos convida a assumir cada dia nossa semelhança com Deus. Não basta “gostar de Deus”, o chamado é para se parecer com Ele, seguindo o caminho de Jesus, o “novo Davi”, o mais pequeno dos filhos de Jessé (cf. 1Sm 16, 11), rei, não do trono de Jerusalém (ali reina Herodes…) e, mas da estribaria de Belém, na noite dos pastores e dos pobres sem abrigo (cf. Is 9, 1-6).

O Apóstolo São Paulo é uma guia para nos ajudar a perceber o sentido do Natal. Escreve à comunidade de uma cidade chamada Filipos, hoje no território da Turquia, na origem uma cidade grega, depois integrada ao Império Romano. Retoma, tudo indica, um hino que se cantava nas comunidades para exaltar Jesus, e aí nos deixa ver esta mensagem de Natal, de nos tornarmos semelhantes a Jesus que se fez semelhante a nós para que pudéssemos ver de perto que “não basta gostar de Deus”, é preciso decidir-nos por ser “semelhantes a Ele”, e Deus é amor (cf. 1Jo 4, 8):

             “Ele, que tinha condição divina, não se agarrou com ciúme a Seu elevado ‘status’ de ser tratado como Deus; pelo contrário, esvaziou-se a Si mesmo e tomou forma de escravo, tornando-se semelhante aos seres humanos. E, encontrando-se na figura de homem, rebaixou-se ainda mais, fazendo-Se obediente até a morte e morte de cruz. Por isso, Deus O exaltou ao ponto mais alto e Lhe deu o Nome que está acima de todo nome, para que, ao Nome de Jesus, todo joelho se dobre, nos céus, na terra e nos abismos, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor para a glória de Deus Pai” (Fl 2, 6-11).

Trata-se de algo tão fundamental que o Apóstolo sente necessidade de introduzir a citação do hino com um apelo pressante: “Se há algum apelo em Cristo, se há alguma consolação de amor, se há alguma comunhão de espírito, se há alguma ternura e compaixão, completem a minha alegria: tenham o mesmo sentir e o mesmo amor, em harmonia com um só pensamento. Não façam nada por competição, ou pelo desejo de receber elogios, mas com humildade, cada qual a considerar as outras pessoas como superiores a si mesmo(a). Que ninguém busque apenas seu próprio interesse, mas também o interesse de outrem. Tenham em vocês os mesmos sentimentos como convém a quem está em Cristo Jesus” (Fl 2, 1-5).

Quantas pessoas fascinadas pelo brilho de falso poder agarram-se com ciúme a sua ilusória condição divina! o verdadeiro Filho do Rei (cf. Sl 2 e 110) se despoja dela sem hesitação. Esta é a verdade do Natal.

No final de Seu ministério, Jesus diz aquela terrível palavra que nos julga definitivamente: “Todas as vezes que fizestes isto (ou o deixastes de fazer) a estes(as) meus irmãos(ãs) mais pequenino (as) foi a Mim que o fizestes (ou o deixastes de fazer)”. Referia-se às pessoas pobres, infelizes ou abandonadas. (cf. Mt 25, 31-46).

Eis o sentido do Natal: enxergar a glória de Jesus na condição infeliz das pessoas pobres e abandonadas e lutar a serviço de sua redenção, no lugar onde estamos ou aonde Deus nos aponta e com as possibilidades que temos.  Ser Igreja é isto e por isto seremos julgados(as), o mais são invenções de nossas idolatrias…  Jesus continua a ser Lázaro a mendigar à porta dos ricos (cf. Lc 16, 19-31)…

(Caruaru, 25 de Dezembro de 2017)

Obs: O Autor é Bispo Emérito da Diocese Anglicana do Recife
Igreja Episcopal Anglicana do Brasil – IEAB….

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