Djanira Silva 1 de dezembro de 2017

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Quis desencantar o silêncio. Por isto não é estranho que escrevesse coisas que ela mesma não entendia, era o silêncio que falava, como podiam os outros entendê-la, quando ela mesma não se conhecia? Por isto, talvez chorasse tanto.

Os dores iam furando, esburacando sua alma, anunciando que nunca poderia estar a sós com a sua dor, era uma estrada na qual ninguém a acompanhava. As imagens transfiguradas pelo sofrimento criavam asas, criavam patas, criavam bicos, prontas para atacar. Assim o sofrimento que não a flor, o perfume, a luz, a cor, o som. Pensar nele lhe fazia mal. Ele, o seu lado mortal.

Alicerces firmados na carne, regados com sangue. O silêncio encantado no pensamento se desencanta na palavra onde se arrumam ou desarrumam sentimentos que explodem no mistério da criação. O mágico e o invisível se estranham.

Qual a origem de tudo isto, se perguntava a mulher sentada na penumbra e no mistério do próprio silêncio. Na voz estranha de um espírito perdido que não revela jamais o mistério da vida. Quem sabe morremos para sabê-lo? As garras, as marcas deixadas provocam o desejo de ir em frente. Por que desistir? Só em nós estão sempre arraigadas perguntas que atormentam e abrem caminhos para o nosso desconhecido. Quem nos ensinará os caminhos do nosso desconhecido?

A mulher enquanto esperava a revelação entre a noite e o dia, a vida e a morte, nos mistérios da vida repetia: o que sabe de mim o chão maduro, a natureza da vida escura e triste, o que sabe de mim o vento e a morte o que sabe de mim a solidão?

Então ela viu a mariposa azul. Ela era azul como os olhos da menina que se chamava sonho. Eu sei porque havia absorvido a luz da lâmpada que iluminava a sala e ela também se tornou azul. E azul me tornei ali no canto da sala onde medrosa esperava. O que eu queria? Certamente que acontecessem coisas, que ele entrasse e começasse a mandar, a dizer que eu deveria fazer ou quem sabe, quisesse subverter o mundo como as pessoas deviam viver. Ele não entrou e eu ainda podia ver a mariposa.

Apagaram a luz e ela caiu, caiu bem ali na minha alma, já não era azul e antes que morresse pude ver a porta aberta, ele estivera ali e ela, a mulher, que obedecera, a que parira sem prazer, agora, pagava o preço de havê-lo expulso das suas entranhas.

Obs: Texto retirado do livro da autora  – A Morte Cega

A autora é poetisa,  escritora contistacronistaensaísta brasileira.

Faz parte da Academia de Artes e Letras de Pernambuco, Academia de Letras e Artes do Nordeste, Academia Recifense de Letras, Academia de Artes, Letras e Ciências de Olinda, Academia Pesqueirense de Letras e Artes , União Brasileira de Escritores – UBE – Seção Pernambuco
Autora dos livros: Em ponto morto (1980); A magia da serra (1996); Maldição do serviço doméstico e outras maldições (1998); A grande saga audaliana (1998); Olho do girassol (1999); Reescrevendo contos de fadas (2001); Memórias do vento (2003); Pecados de areia (2005); Deixe de ser besta (2006); A morte cega (2009). Saudade presa (2014)
Recebeu vários prêmios, entre os quais:

  • Prêmio Gervasio Fioravanti, da Academia Pernambucana de Letras, 1979
  • Prêmio Leda Carvalho, da Academia Pernambucana de Letras, 1981
  • Menção honrosa da Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1990
  • Prêmio Antônio de Brito Alves da Academia Pernambucana de Letras, 1998 e 1999
  • Prêmio Vânia Souto de Carvalho da Academia Pernambucana de Letras, 2000
  • Prêmio Vânia Souto de Carvalho da Academia Pernambucana de Letras, 2010
  • Prêmio Edmir Domingues da Academia Pernambucana de Letras, 2014


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