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Um temporal na noite anterior tinha feito estragos na cidade. No verão é sempre assim…

É verdade que ainda faltavam alguns dias para a estação das paixões chegar, de fato, mas chovera muito na véspera e o vento com certeza deixara suas marcas.

No entanto, naquela tarde de sexta-feira, surpreendi-me com a violência da cena.

Ali, na beira do canal, no final do Lebon,  tombada sobre a margem em direção às águas, a velha árvore exibia suas enormes raízes ao céu. Arrancada do solo, gigantesca, estendia-se como um ente mitológico morto em combate.

– Que dor! – o sentimento me chega à cabeça, antes que eu possa filtrá-lo com alguma reflexão lógica.

Guindastes elevam homens para serrar-lhe os galhos. Já meio feito em pedaços, seu corpo promete trabalho para muitas horas. Uma garça  tenta pousar e se afasta, assustada.

Um passante, pára o carro,de repente, e câmera em punho, vira o fotógrafo da cena. Quem será esse e que emoção sentirá nesse momento? Curiosidade apenas? Compaixão? Oportunismo?

A fila de automóveis aumenta, porque ninguém consegue simplesmente passar sem demorar o olhar admirado.

A mim, me acomete um desejo de parar ali e ir recolher algum pedaço daquele corpo de interiores avermelhados, tentar  juntar um pouco aquela energia derramada, caule cheio de vida, galhos gotejando seiva… Desejo intenso de reconstruir, de impedir que se perca tesouro tão precioso!

Observo o buraco que se formou no chão: espaço muito pequeno para tanta força!  Raízes enjauladas impedidas de garantir o sustento do caule. O cimentado cruel da cidade não conseguiu mais conter o fluxo da Vida.

Retorno triste para casa, lembrando a árvore/orixá que vi tombada no jardim do Palácio do Catete, num ano novo, anos atrás… Àquela, cheguei a pranteá-la e ainda tenho um pedaço de seus braços lá no meu Retiro…

Aprendi com os índios que as árvores doam seus corpos para o fogo, nos galhos que caem…

Mas aqui me parece diferente: é a constatação do que não cuidamos, do que não respeitamos, do que abatemos ou deixamos abater,  fora e dentro de nós… Nós todos também contidos e vulneráveis aos ventos fortes…

Pensando em tudo isso, já quase descrente de possíveis transformações, ao chegar a meu canto de mundo, abro a porta e vou até a varanda olhar o céu.

Ao voltar-me, percebo na parede externa, bem junto à grade de proteção,  sexto andar de um prédio urbano, alguma cor nova. Observo: são florezinhas amarelas! Incrível! Brotação espontânea, ali, presas ao muro de concreto, sem semeadura, sem rega, sem promessas.

Resistência pura!!!!!! (07.01.08)

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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