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Houve um lapso de tempo em nossa história nacional em que a esperança parecia estar vencendo o medo! Multidões se deixaram embalar nesse sonho, com o firme desejo de que ele se tornasse real. Parecia mesmo que estávamos adentrando em uma nova era. Uma mudança em múltiplas direções – sobretudo para os mais pobres – ensaiou alguns passos significativos. Houve mudanças, mas poucas transformações estruturais se consolidaram. Verificaram-se várias conquistas, porém quase todas estão sendo golpeadas e destruídas. A esperança vinha soerguendo-se diante do medo; agora, contudo, o medo, a indiferença, a corrupção, o ódio e a decepção parecem banir a esperança.

O que ocorreu no campo social e político também perpassou o âmbito cultural. A bem dizer, há muito somos marcados por uma herança cultural do “jeitinho brasileiro”, da meia verdade, da cordialidade clientelista, do escravismo, do público facilmente apropriado pelo privado, do preconceito e do racismo deslavado e dissimulado, etc. Nossa diversidade étnica, nossa riqueza cultural, nossa pluralidade de valores e de modos de vida estão sofrendo um profundo impacto com os imperativos massificantes e anestesiantes da indústria cultural neoliberal.

No mundo da cultura, a pós-modernidade não promoveu simples mudanças; impôs uma verdadeira revolução. Consolidou a colonialidade, ou seja, agiu sobre a subjetividade das pessoas. Colonizou o pensamento, a alma e a crença. Criou desejos e os transformou em necessidades. Estimulou o consumismo obsessivo da moda, da marca e do modelo passageiros. Encurtou o prazo de validade e a durabilidade dos produtos. Acelerou o tempo, suprimiu distâncias e intensificou ansiedades. Pôs um celular e outros equipamentos similares na mão de quase todas as gentes. Desse modo, permitiu aproximar quem está distante e distanciar quem está próximo.

Em tempos de globalidades e globalizações, as certezas foram postas em causa e as dúvidas reproduziram-se indefinidamente. O neoliberalismo instalou-se e as seguranças pessoais se sociais aniquilaram-se. Quase todas as verdades foram relativizadas e a pós-verdade foi instituída como certo parâmetro de civilidade. O estado de normalidade é questionado por toda parte com a instalação de crises generalizadas. O que era sólido parece liquefazer-se ou desmanchar-se no ar.

Nesse cenário, o campo religioso ficou movediço. Multiplicaram-se as coortes de anjos e adocicaram-se as mensagens proféticas; aumentaram a fumaça nos altares e diminuíram as vozes que denunciam as forças que crucificam, oprimem, escravizam e matam os pobres. Muitas ideologias e práticas religiosas com denominações e estratégias diversas se constituíram em fortes meios de reprodução do capitalismo neoliberal. O recurso midiático e a espetacularização da fé ganharam especial ênfase. Assim também cresceu o fanatismo, o fundamentalismo e a intolerância religiosa.

Entretanto, não podemos fazer terra arrasada e propagar o fim da história. Não, isso não! Embora haja crises de toda espécie, contradições por todos os lados e quadros de barbárie aos quatro cantos, cabe-nos o dever histórico de fixar o olhar onde a santa teimosia persiste. Onde a esperança se deixa cultivar e continua a desabrochar. É preciso esperançar a própria esperança, ou seja, dar-lhe razões de existir. Para tanto, requer semear; sim, semear de novo e sempre. Semear as sementes da justiça e da ética.

Nunca é demais bater no velho e sábio ditado africano: “Gente simples, fazendo coisas pequenas, em lugares pouco importantes, conseguem mudanças extraordinárias”. Creio que uma das melhores maneiras de organizar a resistência diante de tantas mudanças que nos desgovernam, realidades que nos amedrontam e situações que nos deixam perplexos é apostar na simplicidade, na honestidade, na solidariedade e na espiritualidade humanizadora.

Também segue valendo o respeito a todas as diversidades, o ecumenismo religioso, a democracia de alta intensidade, a formação humana e cidadã, a política do bem comum, a liberdade responsável, as formas associativas de viver… Obviamente que não há fórmulas mágicas para sairmos das múltiplas e complexas crises. Dar novo corpo aos valores apontados acima é nosso grande desafio. Quanto maior o número do que se propuserem a isso, tanto mais a esperança poderá se refazer! (23.10.2017)

Obs: O autor é Doutor em Sociologia, pós-doutor em Educação e professor da Universidade Federal do Sul da Bahia



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