1. É animadora a retomada, nas últimas décadas e em todo o mundo, da histórica luta pela libertação das mulheres de todas as formas de exploração e dominação e pela igualdade básica entre os seres humanos. É inaceitável que a humanidade conviva com e tire proveito da cruel discriminação e do preconceito contra a mulher manifestos na violência física, moral, sexual e psicológica.
  2. O feminismo propõe políticas sociais e atitudes pessoais contra os efeitos dessas práticas e aprofunda as causas de sua naturalização. Mas, sabe que a compreensão intelectual do problema está ligada à possibilidade concreta de mudanças – impaciência e radicalismo verbal são ineficazes, mais dividem que mobilizam; legitimam o populismo moralista, patriarcal e fundamentalista a tirar proveito do “atraso”.
  3. Em certas falas sobre o feminismo perpassa um viés ideológico: o encantamento com o debate cultural mudança de comportamentosem relacionar com a mudança estrutural. Tal postura tem levado à divisão, gerado impotência de mobilização e, no campo popular, até desvios: elogio de burguesas e serviçais só pela cor da pele; defesa das mulheres pelo fato de serem mulheres, ainda que reacionárias…
  4. Outras vezes, certas abordagens do feminismo, insinuam busca de espaços de terapia ou forma de suprir uma carência de reconhecimento. Pior ainda, quando, na prática,alimentam a guerra homens x mulheres vendo na relação afetiva uma forma de exploração. Além disso, pela multiplicidade e diferenciações de visões a respeito do tema, tem sido difícil uma formulação consensuada.
  5. Se a história não é receita, pode ser inspiração para o que fazer e até para o que não fazer. Outras gerações tiveram desafios semelhantes e encontraram formas de superá-los. É necessário conhecer e tirar lições da prática social acumulada e avançar em novas conquistas. Mas, cada povo e cada geração fará, sem cópia, a trajetória que ajuste ao seu ritmo, seu colorido e seus interesses.
    a. Há 100 anos, os bolcheviques aplicaram um programa radical para libertação da mulher e para a transformação da família tradicional. Na sua teoria, o essencial para a libertação das mulheres era tirá-las do trabalho do lar (o trabalho do lar é o mais improdutivo, o mais selvagem e o mais árduo trabalho que a mulher pode fazer) e trazê-las para a esfera da produção; assim, obteriam independência econômica e desenvolveriam uma consciência de classe.
    b. Para isso, o Estado popular teria que assumir o cuidado das crianças e o trabalho do lar. Por isso, já em outubro de 1918, ratificam o Código do Casamento, da Família e Tutela que igualava o status jurídico das mulheres ao status dos homens; ambos os cônjuges tinham direito às suas próprias propriedades e renda; os filhos fora do casamento teriam os mesmos direitos como os filhos do casamento; se abria a possibilidade do divórcio, a pedido.
    c. A inexperiência, a guerra civil e o cerco capitalista, no entanto, obrigaram a maioria das mulheres a batalhar pela sobrevivência e desinteressar-se do esforço revolucionário. Resultado: em vez de “nova mulher”, foi reforçado a imagem da dona de casa “bitolada”, “atrasada” e dominada pelo marido e pelo padre. Para combater esse “atraso” se criou o Bureau das Mulheres que propunha mobilizar essas mulheres a partir e em torno de seus interesses.
    d. Foram elaborados projetos diretamente ligados às mulheres, naquela conjuntura. Organizou-se a alfabetização, a construção de creches, os refeitórios e cooperativas de consumidores. Em 1920, mesmo com pouco financiamento, foi iniciada uma campanha contra a discriminação salarial e na contratação, o assédio sexual, a demissão de mulheres, o alcoolismo, a agressão às esposas … O feminismo afirmativo encorajou as mulheres, mas preocupou certas lideranças.
    e. Em sua ânsia represadas, certos grupos, no seu entusiasmo, afirmavam ser “necessário lutar pela libertação das mulheres e lutar contra os homens”. Na Ásia Central, foi lançada uma campanha contra o véu, contra o preço da noiva, a poligamia, a segregação das mulheres…. O resultado foi trágico – cerca de 800 mulheres foram assassinadas por homens que acusavam os bolcheviques de “transformam as mulheres em prostitutas”. Esses fatos serviram de pretexto.
    f. O Bureau foi acusado de fazer “trabalho porco” e dissolvido. Os bolcheviques que desafiaram o conceito patriarcal do direito divino de dominar as mulheres, na pratica, seguiram a norma masculina. A revolução priorizou a produção descolado da esfera da reprodução onde se situavam a maioria das mulheres, pelo fato da maternidade. Os conceitos patriarcais, antes reprimidos, voltam a reinar – a incoerência do discurso mostra que o velho homem continua vivo.
  6. É indispensável conhecer as diferentes visões, suas implicações na vida dos grupos, a importância da temática mulher e o espaço específico de sua organização e formação. Dominar o tema é conhecer suas demandas específicas concretas e pautá-las como luta do conjunto. Exemplo: políticas e normas contra o assédio e a violência moral e sexual e aplicação de código de ética para quem violar tais conquistas.
  7. A libertação será sempre obra de quem está oprimido. Vontade e radicalismo verbal não arrastam quem está oprimido. A longa transição de desconstruir uma cultura arraigada e construir a nova ordem social, com novos homens e novas mulheres requer o envolvimento da mulher como ator político. Só quando ela sente na vida que pode, a mulher entende que vale; então, a canga sacode e já não há quem lhe cale.
    *Roteiro para discutir a prática do feminismo – agosto/2017
Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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