Rubem Alves - In Memorian 1 de outubro de 2017

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Pegue uma cebola e corte-a ao meio. Olhe bem para ela com olhos de olhos de criança. Se você não sabe o que é o olhar de uma criança leia o poeta Alberto Caeiro para aprender… Uma paciente minha, dos tempos em que eu exercia a psicanálise, olhou para uma cebola cortada ao meio com olhos de criança e ficou tão espantada com o que viu que pensou que estava ficando louca. Uma cebola cortada é um espanto. Todos aqueles anéis, perfeitos, agarradinhos uns nos outros, sem folgas intermediárias… A natureza tem alma  de artista.

Agora, figure que uma cebola cortada é um modelo do mundo! Bem no centro, lá onde o primeiro anel é tão pequeno que não chegou a ser anel, ponha  uma criança. Imagine que os anéis são os mundos que ela precisa conhecer para viver. Ela só pode conhecer o anel que a está envolvendo naquele momento. Conhecer é ir comendo o mundo. Quando se come o mundo ele passa a ser parte do corpo da gente. Mas não é possível comer o que está longe. E só se pode morder o que está perto

A cebola cortada me sugeriu a forma como os currículos escolares deveriam ser organizado: como os anéis de uma cebola, na ordem certa. O que estaria contido no primeiro anel? O primeiro anel é o entorno onde a criança vive, a sua casa.

Lembrei-me então da resposta do Amyr Klink, ao ser perguntado sobre o que seria uma escola ideal para os seus filhos. Ele  respondeu que @@@era uma escola que ele encontrou numa ilha, se não me engano nas costas da Noruega. Lá as crianças aprendiam tudo o que precisavam aprender construindo uma casa Viking! Construir! Pensar e fazer!  Poucas pessoas se dão conta do poder que as mãos têm para ajudar a inteligência a aprender.

Não fui ousado ao ponto de imaginar a construção de uma casa. Mas pensei que a casa onde uma criança mora, o primeiro anel da sua cebola, é um universo imenso,  cheio de provocações ao conhecimento.

Primeiro, a casa como objeto matemático, com seus ângulos, triângulos,  linhas horizontais, verticais, paralelas, proporções e simetrias, Depois, a casa como objeto da física, a composição de forças no travamento do telhado, o prumo, o nível, os vasos comunicantes( todo pedreiro faz uso deles sem saber o nome ), as  caixas de ferramentas, o martelo, o serrote, a pua, a física dos materiais, a madeira, o vidro, a cerâmica, o plástico, a eletricidade que esquenta, a eletricidade que esfria, a eletricidade que faz girar, a eletricidade que ilumina, a eletricidade que produz música. Esse laboratório de química chamado cozinha: o fogo, os alimentos, os temperos. O mundo das coisas vivas, as baratas, as traças, o tatuzinhos, os piolhos, os pássaros, as aranhas, os cachorros, os gatos, os peixes, os pernilongos, os mosquitos de dengue, os caramujos. O mundo das doenças e da saúde, os primeiros socorros. O lixo, as privadas, a urina, o cocô ( para onde vão? ), o meio ambiente. O mundo da cultura: as revistas, os livros, a televisão, o jardim, os quadros.

Eu fiquei encantado com a minha idéia porque eu mesmo gostaria de seguir um currículo desses. Eu gostaria de conhecer a casa em que moro. Mas não conheço. Aperto uma infinidade de botões que fazem as coisas acontecer mas não sei por que elas acontecem, e quando não acontecem fico perdido e tenho de chamar um técnico. Pensei que as crianças gostariam da idéia do jeito como eu gostei. Aprendendo sobre a casa aprendemos sobre o mundo todo. Pois o mundo todo é a grande casa em que moramos, o último anel da cebola…

Obs:  Ver AUTORIZAÇÃO do Instituto Rubem Alves no item  OBRAS LITERÁRIAS.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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