Aurélio Molina da Costa 15 de setembro de 2017

Reza a lenda que certa vez perguntaram a Isaac Rabi, Prêmio Nobel de Física de 1944, como ele explicaria o fato dos judeus, com 0,3% da população mundial, terem conquistado cerca de 20% do total dos Prêmios Nobéis. Ele teria respondido: “Primeiro, numa família judaica, pode faltar tudo, menos educação e cultura. Segundo, quando era criança, ao chegar em casa, minha mãe não perguntava o que eu tinha aprendido na escola, mas sim quantas perguntas eu tinha feito à minha professora. E você sabe, quem pergunta mais, acaba perguntando melhor. Quem pergunta melhor acaba obtendo respostas melhores. Quem obtém respostas melhores acaba ganhando Prêmio Nobel”. Há muito defendo que parte do nosso atraso científico e tecnológico é devido a nossa mentalidade Salamantina e Coimbriana, da erudição pela erudição, associada a uma cultura autoritária e de submissão intelectiva (iniciada em nossos lares e disseminada em todos os setores de nossa sociedade) que impede o desenvolvimento (em escala) da tão necessária autonomia intelectual e liberdade criativa para, através do novo, contribuir para a construção de um país mais desenvolvido, justo e soberano, inclusive ganhando prêmios nobéis e produzindo patentes. Acredito que todos nós deveríamos incorporar ao nosso modo de ser, pensar e agir, atitudes mínimas que denomino “Regra dos 10 Cs”: competência (fazer bem feito), curiosidade (vontade de aprender sempre), ceticismo (a dúvida como instrumento na busca das “verdades”), criticidade (exercício sistemático da crítica qualificada em relação a tudo e todos), criatividade (liberdade para pensar e criar com total autonomia), confiança (no seu potencial de contribuir para o novo), coragem (para quebrar paradigmas), construtividade (neologismo para “fazer o que puder, com o que tiver, onde estiver”), coerência (com a visão holística de interdependência multifatorial da realidade universal) e, finalmente, compromisso (com o bem comum e com as necessidades de nossa população). Dentre vários brasileiros/as que quase tiveram seus méritos reconhecidos através de um prêmio Nobel, vale destacar Carlos Chagas, Johanna Dobereiner e Cesar Lattes que “estiveram com a mão na taça”. Um até ganhou (Peter Medawar), mas acabou ficando registrado na história com sendo apenas da Inglaterra. Agora, a “bola da vez” é a pesquisadora goiana, radicada em Pernambuco, Celina Turchi que, por seus trabalhos sobre a relação da Zika com uma “devastadora” microcefalia, vem tendo todos os possíveis e maiores reconhecimentos mundiais. Chama atenção não só sua competência como pesquisadora, mas também sua postura como cidadã e ser humano, lhe tornaram um grande motivo de orgulho para seus concidadão/ãs. Aliás, Lattes brincava, dizendo que para ser um grande pesquisador no Brasil você tinha duas opções: ou nascia em Pernambuco ou se casava com uma pernambucana (o caso dele). Podemos agora afirmar que existe uma terceira opção: ter “adotado” nosso estado. Prezada Celina, não tenho dúvida que o seu exemplo (e de toda a sua equipe) para a atual e futuras gerações de nordestinos/as e brasileiros/as terá tanto impacto quanto a sua própria contribuição científica. Estamos todos na torcida por mais prêmios e reconhecimentos. Valeu! Demais da conta!

Publicado no Diário de Pernambuco, nas edições de 29 e 30 de abril de 2017, página 2.

Obs: O autor, Prof. Dr. Aurélio Molina, Ph.D pela University of Leeds (Inglaterra) é membro das Academias Pernambucanas de Ciências e de Medicina, professor da UPE e membro das Academias Pernambucanas de Ciências e de Medicina

*Ex-Secretário Executivo de Desenvolvimento da Educação de PE, Ex-Superintendente do Programa Ganhe o Mundo e Ex-Conselheiro Estadual de Educação.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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