É assustador o que estamos presenciando em Pernambuco, particularmente no Agreste. Falam que é a pior seca dos últimos 50 anos. Outros elevam para 75. Alguns, mais idosos, afirmam que nunca viram, ou ouviram de seus pais, algo semelhante. E o pior é que esse infortúnio não é apenas um “presente de grego” de comemoração dos 200 anos de um dos clímaces da luta dos nativos desta paragem (a gloriosa Revolução Pernambucana de 1817) por um mundo mais justo, fraterno, livre e feliz. Ele assola outras áreas do Nordeste e do Brasil. Em relação à temática, de uma maneira geral e pouco precisa, poderíamos dividir a comunidade científica em três grandes grupos: 1) os que não creem em mudanças climáticas e afirmam que tudo não passa de uma “baboseira alarmista” (e com segundas intenções) acerca de alterações planetárias cíclicas; 2) os que acreditam que ainda é possível impedir o “apocalipse climático” que se aproxima; 3) os que defendem que as mudanças (independentemente se de causa humana ou não e dos mecanismos envolvidos) não só já estão em curso, como são inevitáveis e irreversíveis. Todos têm defensores qualificados e ardorosos, mas quando o presidente russo afirma publicamente (como o fez esta semana) que “é impossível deter as mudanças climáticas e que devemos começar a pensar em como se adaptar a elas” inegavelmente o terceiro grupo ganha um reforço na sua credibilidade. Entretanto, como idealista pragmático ou otimista realista, prefiro me colocar no segundo grupo, mesmo com algumas dúvidas. E como advogo que em qualquer tipo de atividade humana, inclusive na produção e aplicação do Conhecimento, não se deve dar “chance ao azar” (maneira simplista de enunciar o Princípio Bioético da Precaução), acho que deveríamos todos ter, urgentemente, atitudes e práticas compatíveis e coerentes com o objetivo de parar ou reverter ao que já estamos vendo e sentindo (ou pressentido). E noto valorosos exemplos em toda parte. Mais recentemente um grupo de moradores da linda e preciosa Serra Negra decidiu plantar, em larga escala, Ipês (amarelos, roxos, rosas e brancos) e várias outras árvores, nativas ou exóticas, reforçando a ideia de que não dá para ficar de braços cruzados, lamentando e esperando por algo “mágico” ou por alguém com uma varinha de condão. Nem que seja só para impactar positivamente microclimas ou embelezar comunidades ou inspirar o sentimento do “bom, belo e verdadeiro”. Ou, ainda, para tornar hegemônica e paradigmática aquela visão do escritor e historiador escocês Thomas Carlyle, que teria dito: “Esta é uma época ruim? Estamos aqui para melhorá-la”. O que não dá é ficar parado ou continuar tendo a postura de avestruz, com a cabeça enfiada dentro da terra. Na dúvida, sobre uma coisa tão séria, não dá ficar dentro da “caixinha” e na zona de conforto. É melhor arregaçar as mangas e agir, tendo em mente (pois é uma “verdade” científica) que a nossa atitude pode ser aquela que vai levar ao “ponto de mutação”. Cada pedacinho de terra bem cuidado, cada olho d’água, córrego, riacho ou rio, saneado e protegido, pode fazer a diferença. Nunca, na história humana, uma geração foi (pelo menos teoricamente) tão responsável pelo futuro planetário e pela biosfera (que inclui nossos descendentes) quanto a nossa.

Publicado no Diário de Pernambuco, 08/4/2017,  pag 1.2

Obs: O autor, Prof. Dr. Aurélio Molina, Ph.D pela University of Leeds (Inglaterra) é membro das Academias Pernambucanas de Ciências e de Medicina, professor da UPE e membro das Academias Pernambucanas de Ciências e de Medicina

*Ex-Secretário Executivo de Desenvolvimento da Educação de PE, Ex-Superintendente do Programa Ganhe o Mundo e Ex-Conselheiro Estadual de Educação.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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