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(para Raduan Nassar)

Do que é feita a realidade?
Convenções, preconceitos e superstições,
conjunto de valores e fatos consagrados
em que aprendemos a nos suportar?

Os escritores parecem se dividir
entre aqueles que celebram a realidade,
os que a desprezam
e os que a reinventam.
E esses últimos são os que
não a temem, a enfrentam
e nunca têm pudor na hora de escrever.

Como construir uma literatura gratinada
na satisfação, na certeza, e na conformação
quando ela se alimenta do contrário,
ou seja, do vulnerável, do falível e do incerto?

Será o desafio do escritor nesses tempos modernos,
antimodernos, pós-modernos
(haja um santo para qualificá-los!)
dominado pela razão cega,
pelo pragmatismo insensível e pelo utilitarismo:
esquecer os fatos, a performance e o desempenho –
essas coisas da superfície – e buscar o drama humano
que está sempre a ferver no seu interior?

Pois esse mundo sempre aqui disponível
dá pistas de que há muito perdeu
a sua consistência, o seu sentido e a sua coerência.
Mundo em que a sabedoria, o equilíbrio
e a serenidade tornaram-se peças de escambo
pelo cinismo, pela malandragem e pela dupla face.

Universo de ideias prontas, fanáticas e duras,
povoado de detratores, de pregadores e de invasores,
em que viver torna-se sempre uma situação de risco.
Quem há de buscar os afetos fortes,
as humanas imperfeições e as coisas do chão
para se conseguir o necessário, mas sempre impossível,
equilíbrio giardinelliano.

Nesses tempos de escritores multiplicados,
cheios de imaginação mas vazios de fantasia,
eis o Aleph literário: encontrar e dominar o espanto
na seara paramitológica do absurdo, da surpresa
e do encantamento que compõem o abecedário.

Escritores prenhes de obras imaginativas
mas estéreis do contágio, do transe e do pânico,
trinca de elementos que só com ela
podemos suspender a razão e respirar
e encontrar de novo a intuição,
essa força inexplicável que tem o poder
de nos carregar para o coração das coisas.

Mas é preciso que o escritor alimente diariamente
uma trindade essencial no seu carcomido arcabouço:
a insatisfação, a percepção e a intuição,
a fim de manter sua fome, seu faro e seu arrepio.

Terás de endeusar e entronar o teu sonho
no espaldar mais alto da tua cadeira de ossos,
porque afora os cadáveres ambulantes,
apenas os mortos perderam esse dom.

E mesmo que o clichê nos enoje,
o escritor, mesmo sem querer,
responde às necessidades políticas
e históricas de seu tempo.
Cuida do que diz o teu verbo
para que não termines alienando,
distanciando e desumanizando o povo
com as tuas gags e verves tidas,
para ti, como a última coca-cola do deserto.

Já que o clichê óbvio tu teimas em ignorar:
tens de ser um leitor antes de ser escritor.
Porque só gera novas palavras quem as domina.

Mesmo que o teu medo
tenha te tornado um monstro medonho,
forjado na solidão, no desamparo e na escuridão,
lembra-te que ele é o motor da literatura,
esta que só se materializa por meio
do tato, da audição e da visão,
potencializados que só são pelo pavor.

Lembra-te ainda que a escrita que permanece
é somente aquela que se alimenta
do indefinido, do inominável e do absurdo
e que, por ironia, nos revela.

Mas sem nunca esquecer
que simplicidade e mistério
não são se excluem,
complementam-se.

Se queres ser ímpar,
afasta-te das influências porque
nada do que é humano
é absolutamente original.

Escarafuncha fundo teus sonhos,
teus terrores e teus pesadelos.
O mais trágico que poderá acontecer
é encontrares a ti mesmo
na forma em que sempre recusastes
perceber: monstro inominável até para ti.

Busque o âmago das coisas
lá onde a ironia nunca desce,
para soerguer as tuas sensações submersas
e em ti possas emergir o teu verdadeiro legado,
mesmo que ele te pareças estranho e perturbador.

Cuspa nesses best-sellers cheios de pose,
nesses solenes escritores de vanguarda
e nesses autores que se dizem profissionais,
são todos fakes.
Um escritor não escreve livro,
ele é o livro.

E nunca te preocupes com a crítica.
A verdadeira obra de arte é solitária
e nem as críticas,
essas velhas senhoras da mesmice,
podem alcançá-la.

Usa da intensificação, mas nunca a confunda
com exagero ou grandiloqüência,
porque nada de estranhos vos acontece
que não seja do vosso pertencimento.

Revolucionário ou romântico,
revolucionário e romântico
esse desafio dicotômico é para
mal entendedores, porque os bons
sabem que a superioridade
da verdade sobre a ficção
é apenas um fantasia moral.

Quixote fundou a literatura moderna
porque assumiu a consciência do seu fracasso,
enquanto os literatos modernos a afundaram
porque se embriagaram do sucesso.

Tu, que trabalhas com o primitivo,
o irracional e o selvagem,
guarda-te do teu medo do sofrimento
porque esse é outro nome para a infelicidade,
e filtra teus erros porque a perfeição
é apenas outro nome para o desumano.

E porque a luta vã, da qual falava o poeta, é essa:
o escritor aceitar que a literatura é tudo para ele e,
que mesmo, assim, ela não leva a nada.
E que, dentre todos os mundos que ele forja
só há um que lhe sobra: o da relativa esperança.

Obs: Imagem enviada pelo autor

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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