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Para nós cristãos, festejar a Santíssima Trindade é celebrar a verdade maior que Deus se dignou revelar. Quem poderia imaginar que a realidade do Deus Único e Verdadeiro comportasse em si mesma um mistério de plena comunhão, no relacionamento mútuo e dinâmico entre Três Pessoas com uma “mesma natureza e igual dignidade”!

Ao mesmo tempo que acolhemos a revelação de um Deus que se mostra Uno e Trino, nos damos conta que esta revelação é para nos garantir que somos acolhidos em seu mistério, pois ele nos insere em sua dinâmica de mútuo relacionamento. Deus se revelou, não para exibir sua realidade que nos ultrapassa de longe, mas para nos associar ao seu próprio mistério de amor.

Como os teólogos nos ajudam a compreender, Deus foi se revelando a si mesmo, na medida em que ia realizando nossa salvação, nos envolvendo em sua realidade, tornando-nos participantes do seu mistério, por pura bondade sua, e pela exuberância de sua misericórdia.

Deus se revelou, portanto, não para exibir seus predicados divinos, ou para satisfazer nossa curiosidade, e permanecermos alheios ao seu mistério. Mas ao contrário, ele se mostrou para nos envolver em sua vida, e participarmos do seu mistério.

Dentre as grandes religiões, o cristianismo é a única que professa a fé na Trindade de Pessoas existentes num único Deus. Este é nosso privilégio de cristãos. Ao mesmo tempo, este privilégio nos incumbe de uma grande missão: testemunhar que Deus nos envolve em sua realidade, de tal modo que nos sentimos atraídos pelo Pai, identificados com o Filho, e animados pelo seu Espírito de amor.

Assim como a revelação foi se desdobrando na medida em que Deus ia operando nossa salvação, assim nossa fé na Trindade nos atribui a obrigação missionária de mostrar a todos, quanto o mistério do Deus Uno e Trino ilumina nossa existência, e nos motiva a sintonizar sempre mais nossa vida com as verdades que Ele nos revelou a respeito de si mesmo.

Tempos atrás, participando de um simpósio sobre migrações, tive a oportunidade de conhecer um cineasta árabe, muito respeitoso de nossa fé cristã, mas muçulmano convicto, adepto da fé herdada de Maomé.

Com a serenidade de quem sintetizava sua fé na breve e densa fórmula do seu credo muçulmano: “Deus é Deus e Maomé é seu profeta”, ele se permitia nos interpelar, alegando que nossa fé na divindade de Cristo se constitui num irremediável equívoco que redunda na negação da unicidade de Deus, que a fé muçulmana se acha no dever de enfatizar e testemunhar ao mundo inteiro.

Diante desta interpelação, percebemos o tamanho do desafio, de promover o diálogo inter-religioso, que o Concílio Vaticano II recomendou no precioso documento “Nostra Aetate”, que ainda permanece quase desconhecido.

A grande novidade deste documento é reconhecer que todas as religiões contêm elementos de verdade, que precisam ser reconhecidos, e que servem de bom pretexto para um diálogo aberto e respeitoso, no relacionamento inter-religioso.

“A Igreja Católica nada rejeita do que há de verdadeiro e santo nestas religiões”, diz o documento do Concílio.

A busca do Deus verdadeiro é suscitada pelo Espírito de Deus em todas as religiões. É significativo que São Paulo foi buscar “nos vossos poetas” -referindo-se aos gregos que estavam na acrópole de Atenas– a surpreendente afirmação a respeito de Deus: “nele nos movemos, existimos e somos”, e acrescenta: “como disseram alguns dentre os vossos poetas”.

Portanto, se nós cristãos somos agora intimados a cultivar um diálogo construtivo com membros de outras religiões, não será simplesmente para ensinar a eles. Mas também para aprender. Como fez São Paulo no areópago de Atenas. (Publicado em ADITAL – 23.05.13)

Obs: O autor é Bispo Emérito de Jales.



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