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Alberto aos 41 anos, é empresário, tem dois filhos, bastante dinheiro, mora sozinho e todos acreditam que esse cara endinheirado vive o sonho americano. Percebendo estar entediado há algum tempo, ele elabora um novo plano de vida: Decide comprar uma supercasa com piscina e churrasqueira em um condomínio fechado de luxo, com o propósito de receber os seus melhores amigos, seus parentes (apenas aqueles com quem ele não era brigado), seus filhos e talvez sua futura namorada, já que havia terminado há 8 meses com a anterior.

Alberto já tinha tudo planejado em sua cabeça. Receberia seus convidados quase todo final de semana, daria as melhores festas, abriria seus vinhos caros que comprara na França, comeria muita picanha, pularia na piscina em dias de calor e ainda seria invejado e considerado por todos. Alberto ainda adquiriria um caríssimo televisor de 110 polegadas, ampliaria seu pacote da TV a cabo liberando todos os canais existentes. Até o campeonato norueguês de curling passaria ao vivo em sua tela.

O empresário percebeu que, apesar de novo, seu carro não era “assim tão grande”,pois não caberia os filhos e os futuros netos dentro dele quando quisesse levar a todos para praia de Copacabana, ou mesmo para um “bate-volta” no Guarujá. O solteirão Alberto comprou um carro de oito lugares que mais parecia uma nave onde poderia morar dentro dela caso desse tudo errado e ele não tivesse onde morar.

Passado um ano e meio, sentado em seu sofá aconchegante, Alberto olha para o copo de vinho e reflete que havia comprado várias garrafas desse bom vinho Francês para beber prazerosamente com outras pessoas. O estoque estava acabando e ninguém havia bebido com ele.

Começou a cair em si. Pensou na casa que comprara, mas percebeu que só fez dois amigos em toda a sua vida e um deles dizia nunca ter tempo para visitá-lo.

Levantou-se, olhou para a foto de seus filhos quando eram pequenos na estante, mas eles já haviam crescido. Suas “crianças” já tinham vida própria longe do pai e só o visitavam em datas comemorativas para dar um rápido “oi” só para não ficar chato. Um dos filhos nunca havia nadado em sua piscina nem comido sua especialidade preparada na sua nova churrasqueira. As mulheres que levava para casa não ficavam ali por muito tempo. Pensou até em contratar uma namorada de aluguel, destas que não discutem a relação e não reclamam de nada se forem bem pagas.

Alberto olhou para o espelho ao lado da estante, coçou a cabeça e viu um homem das cavernas no seu reflexo. Talvez estava se achando antigo demais para entender esse novo mundo. Logo ele que se achava tão moderno. Refletindo, viu que desde quando idealizou todo o seu novo projeto de vida, a viagem de família nunca acontecera até o momento, sempre era desmarcada por algum motivo. As poucas festas que organizou foi para gente que ele não tinha tanta intimidade, pessoas que só marcavam presença, pois sabiam que com ele era tudo “na faixa” e do “bom e do melhor”. Na verdade quase nada aconteceu como ele havia planejado. Quem é acostumado a ter dinheiro, tende a pensar que o controle está sempre em suas mãos, inclusive o da sua felicidade. Ou, como dizia a Millôr Fernandes: “O dinheiro não traz a felicidade. Manda buscar”.

Alberto sente-se muito só em casa, pois era ali e não no trabalho que o silêncio dialogava com ele. Algumas pessoas ficam bem e gostam de ficar sozinhas, mas naquele momento ele não se sentia confortável com essa opção. Esse homem moderno das cavernas sente falta de calor humano, mas não de qualquer humano, mas sim de gente que goste dele de verdade. Ele mesmo se perguntou várias vezes em sua história se havia alguém no mundo que o amava genuinamente. Alberto até que tentava, mas não confiava em ninguém, principalmente nas mulheres. Na verdade, o que ele tinha medo era do amor delas, era perder o controle, se sentir vulnerável na frente de uma alma feminina.

Esse solitário homem de repente tem um insight: estava tentando comprar seus sonhos achando que todo mundo se encaixaria nele. Como se tudo fosse resolvido colocando dados em planilhas, pagos com cheques ou dando ordens. Num ataque de raiva, com seu “tacape” de baseball. Alberto pensa em quebrar tudo o que comprou e mandar todo mundo para o inferno. O problema estava nas pessoas ou nele mesmo? Passou em sua cabeça a ideia de que talvez seria melhor morar em uma quitinete onde o vazio poderia dar a sensação de ser menor do que era.

Alberto tinha duas saídas. A primeira era repensar a vida que levava, reinventar-se, procurar as pessoas para uma conversa sincera, pedir ajuda para tentar entender o porquê era tão sozinho sem gostar de viver só. Pensar, às vezes, dói muito é desafio para corajosos e talvez era hora de mudar, pois já não era mais um menino.

Sua segunda opção era sair a procura de um novo sonho pra se comprar. Ele ainda tinha muito dinheiro. Nosso personagem não andava muito bem, tinha crises de choro sem ombro para consolá-lo. Chorar hoje em dia é vergonhoso, é coisa de fracassado, e quando se é rico, isso se torna um pecado mortal. Ah, mas se alguns casarões de condomínios fechados falassem, você não acreditaria nas histórias tristes que acontecem lá dentro. Fingem que está tudo bem e escondem seus problemas emocionais atrás de suas próprias sombras, de seus altos muros e cercas elétricas. Talvez alguns desses moradores vivam uma espécie de mito moderno da Caverna de Platão.

Finalmente Alberto se decide. Termina sua última taça de vinho, pula do sofá e fica em pé, pois já era hora de se animar. Ele pega o celular, liga para seu gerente do banco e, como de costume, estupidamente, dá a ordem para seu subordinado aumentar o limite do seu cartão crédito porque hoje ninguém iria lhe segurar. Compraria o mundo todo se fosse necessário.

Mesmo que se destruindo, algumas pessoas não mudam, não porque não querem, mas porque não conseguem ver, estão vendados. Pois esse tipo de óculos que lhe desvenda, não se compra, não está à venda.

Obs:  O autor é Psicólogo, palestrante, terapeuta de família casal.
Imagem enviada pelo autor.



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