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(Retalhos do Quotidiano)

Às vezes, falamos e até nos comportamos como se apenas “tivéssemos” um corpo. Não, na verdade, “somos” corpo, somos nosso corpo. Dizer que somos “espírito” não é falar de outra coisa, como se fôssemos feitos de duas “partes” ajuntadas, é falar de nosso corpo como de fato o somos.

Na Bíblia, não se fala de partes, mas se trata de “dimensões” que envolvem o conjunto de nosso ser humano. Cada termo usado para referir-se a nossas experiências dizem respeito à totalidade de nós, sob determinado aspecto. Não há o dualismo “corpo-alma”, “matéria-espírito”, dualismo que herdamos da cultura helenista (grega) e é fundamento para muitos outros até hoje: homem-mulher, senhor-escravo, nacional-estrangeiro, civilizado-bárbaro, ócio(intelectual)-negócio(trabalho manual), céu-terra, sagrado-profano, Deus-mundo, espiritualidade-mundanidade, religião-vida, oração-ação, mística-política… Tudo é matéria e tudo é espírito, porque, hoje se sabe, tudo é igualmente energia. O filósofo existencialista francês Gabriel Marcel, filósofo cristão, para sintetizar essa unidade, cunhou a expressão “espírito encarnado”, ou seja, espírito feito matéria, alma feita corpo, não alma e corpo. Conseguiu aproximar-se muito da mentalidade bíblica. Talvez mais um passo e teria dito que o ser humano é um “corpo animado”, “carne vivificada”.

Os termos do campo de referência da Antropologia hebraica, presente na Bíblia, têm uma variedade enorme de nuanças e significados. Isto já indica que não se trata de designar determinada parte do ser humano, mas de aludir a dimensões que o pervadem ou são como que difusas na totalidade do ser. “Bãsãr” (em hebraico), “sárx” (em grego), “caro” (em latim), “carne” não é uma parte de nós, não é o mesmo que “corpo”. Expressa, na materialidade, nossa condição de “criatura”, diria a Bíblia; ser imperfeito, os filósofos dizem “contingente”, não necessário, que se constrói ao longo da vida (história), está marcado pela fragilidade, a dispersão, e votado à morte… e sempre ameaçado de afastar-se de sua Fonte divina, passível de “pecar”. São Paulo o expressa, de maneira dramática, na Carta aos Romanos, capítulo 7º. É nossa realidade toda que é “carnal”, também o espírito humano é “carne”, nossos critérios de julgamento e valores de vida (portanto, mentais, “espirituais”) podem ser “carnais”, isto é, egoístas, distantes dos critérios de Deus (cf. Gl 5, 13-26)… Santo Anselmo de Cantuária, grande filósofo e teólogo do século X, mesmo no contexto dualista matéria-espírito, chegou a intuir de longe essa perspectiva quando falava de “homem encurvado” e não atribuía o pecado ao corpo, muito menos ao sexo, mas ao “espírito” orgulhoso frente a Deus. Embora algumas vezes o termo “bãsãr” chegue até a significar o órgão sexual, cuidado, quando se fala de “carne” na Bíblia, não equivale a sexualidade! Trata-se de nossa condição total de fragilidade diante do mundo e de Deus.

“Nefex” (em hebraico), “psyché” (em grego), “anima” (em latim), “alma” também não é uma “parte”. Na origem, designa a experiência da respiração que se sente na garganta, é o “ânimo” que vivifica toda nossa pessoa e a anima; pode até significar ansiedade, ânsia, anelo, expectativa, desejo. Quando estamos abafados(as) pela angústia, a respiração nos falta. Do mesmo modo, a “nefex” (“x” com o som de ch, ou sh como em inglês) atravessa todo o nosso corpo e nos faz “ser vivente”, como acontece com os animais (“seres animados”). Todo o nosso corpo é “alma”, vive dessa dimensão que se transfunde na matéria corporal total.

“Ruªh” (em hebraico), “pnéuma” (em grego), “spiritus” (em latim), “espírito” é o sopro divino que nos mantém no ser, como se vê em Gn 2, 7. Todo o nosso ser é “espiritual”, está “inspirado” (soprado) por Deus, é capaz de voltar-se para Ele e, finalmente, ao morrer (“expirar”), devolve-lhe o Sopro que dá vida, hoje diríamos, ruªh é a dimensão que nos abre à Transcendência. Pelo princípio de “psyché” estamos no topo dos seres vivos (“animados”, cf. Gn 2, 19-20); pelo “Sopro” divino estamos voltados(as) para o alto, abertos(as) à dimensão transcendente da Vida. É muito útil conhecer o livro do Pastor ALEXANDRE DE JESUS, presbiteriano de Aracaju, Corpo e Alma e sua relação na Bíblia Hebraica”, São Paulo, Fonte Editorial, 2014, 133p.

Mediante a condição de carne, de alma e de espírito, o ser humano se relaciona com Deus, consigo, com as outras pessoas e com a totalidade do universo. Essas relações concretas, quotidianas, que se dão através de nossa materialidade, é aquilo que os gregos designaram como “sõma”, isto é, “corpo”, como se vê, por exemplo, usado por São Paulo em Rm 12, 1-2. Os hebreus não tinham um termo equivalente. Tinham, é claro, a percepção de que tudo passava por esta nossa forma material de ser, por isso o termo “bãsãr” (carne) é que às vezes chega bem perto do sentido de “corpo”.  Por isso, não havia a ideia de que “a alma” é imortal. Ao morrermos, o ser inteiro morre, volta ao “barro da terra” e se reduz  a “sombra”, uma espécie de “penumbra”, sepultado no abismo, chamado de “xeôl”. A ideia de “ressurreição” só foi formulada dois séculos antes de Cristo, e se tratava de “recriar” a totalidade material do ser humano – a corporalidade — agora em condição gloriosa de “nova criação”, como se vê em 2Mc 7, no livro de Daniel, em Romanos 8, em 1Cor 15 e em Apocalipse, por exemplo.

Não se trata de “partes”, mas de “dimensões” ou aspectos que se interpenetram na totalidade do ser humano. Sabemos que, na Idade Média, Santo Tomás de Aquino, o grande filósofo/teólogo da Cristandade, forjou a genial síntese entre a doutrina cristã e a filosofia de Aristóteles. Assim, Tomás ia além de Platão e de Santo Agostinho, e, em parte, rompia com seu pensamento. Ora, os Pais da Igreja, sobretudo através do Neoplatonismo, haviam assimilado profundamente as lições do mestre do “espiritualismo” e do dualismo matéria-espírito, como Platão era considerado.  Tomás de Aquino foi publicamente acusado de “materialista” e até submetido a julgamento. Pois Aristóteles era tido por “materialista”, por defender a tese de que o conhecimento tem origem e começa com a experiência material, a percepção dos sentidos em relação com as coisas, enquanto Platão falara de conhecimento mediante “ideias” eternas inatas, já presentes na “alma”, apenas “despertadas” ou “lembradas”, mas não “originadas” da experiência na relação com a materialidade da vida. É curioso como se fala tão mal de Carlos Marx por causa de sua insistência em chamar a atenção para as condições materiais da vida!

Pois bem, no horizonte peculiar à concepção dualista da cultura grega, Aristóteles ensinava que o ser humano é constituído por dois “princípios” completos, a matéria e o espírito. Aqui, Tomás, por causa da Bíblia, ousou corrigi-lo, e ensinava que o ser humano é formado por dois “coprincípios”. Ou seja, dois “elementos” incompletos, que não subsistem por si mesmos, mas, diríamos hoje, duas dimensões – matéria e espírito – que se buscam uma a outra e que só existem na unidade complexa de um único ser humano. Por isso, acrescentava ele em sua linguagem medieval, a ressurreição é uma doutrina sumamente razoável e conveniente, pois a “alma” separada jamais poderia ser plenamente feliz, uma vez que anseia por estar unida ao outro “coprincípio” (o corpo) feito para ela, já que os dois são um só ser. Tal a radicalidade com que assumia a realidade material como essencial ao ser humano. Aqui nos situamos nas antípodas da concepção espírita, por exemplo, para a qual o ser humano é a alma (espírito), o corpo (materialidade) não passando de simples instrumento temporário e provisório. Isto tem tudo a ver com o que a Bíblia traz de mais radical quando se refere à vida humana e à história: a missão dada ao ser humano (ser feito de “húmus”) é realizar-se nesta sua condição de “adam” (terrestre) feito de “adamah” (barro da terra). A realidade material do mundo é constitutiva de nosso próprio ser, é seu princípio e sua extensão, em unidade a ser vivida como em relação matrimonial, íntima, “como uma só carne” (cf. Gn 1 e 2) entre “adam” (elemento masculino) e “adamãh” (elemento feminino).

Dizer “espírito” não é dizer outra coisa. É continuar a falar do “corpo” como sonho e desejo, projeto, amor, diálogo e futuro… como Rubem Alves nos ajudava tanto a perceber e assim corrigir nossos maléficos dualismos. O que faz nosso corpo ser humano é que, com ele, a evolução do universo dá um salto. A matéria – a energia que se “corporifica” nos diversos seres materiais — passa a não se dirigir apenas pelo instinto, como nos corpos animais, mas se deixa guiar pela atração de novos horizontes e, assim, se faz capaz de projetar-se para frente e criar futuro, sentir-se dilatada na extensão do tempo e para além do tempo e até de si mesma. Por isso, o corpo humano é “consciência” que se percebe e se sabe em trajeto, em caminho. É daí que vem a capacidade de formular “método” (“methà-hodós”), caminho, direção. Para mover-se, porém, em vista de tornar sonhos em realidade, o corpo acha em si a surpreendente “energia” do desejo, do conhecimento e do amor.

“Espírito” é isto, desejo, conhecimento, amor, vividos corporalmente, impulsionados pela “potência” do Vendaval divino e na fragilidade da “carne”. É nesse triângulo que o corpo se experimenta a si mesmo e se relaciona com tudo mais no universo. E, ao relacionar-se com o mundo, o ser humano vai tomando forma, em última análise, vai se “conformando” a seus desejos realizados ou frustrados. “Espírito” é a energia indomável (resta sempre uma réstia de liberdade, à semelhança da “sarça ardente” que queima sem se consumir (cf. Ex 3), energia indomável que cria e recria o corpo enquanto humano.

Naturalmente, isso acontece enquanto os corpos se interrelacionam. Devemos dizer que “espírito” é essencialmente relacionamento: desejoso, consciente e amoroso, com o dinamismo de chegar à “inabitação” das pessoas umas nas outras, como se sugere no evangelho de São João (cf. Jo 14). “Espírito” são os corpos enquanto capazes de sonhar, de conhecer e de amar. É, no desenrolar-se dessas relações, que os corpos produzem, mediante “relações sociais de produção”, a dimensão econômica da vida; mais ainda, se produzem, é a dimensão estética, de construção da beleza e da bondade; e também se reproduzem, é a dimensão erótica, do prazer de ser. Relacionamo-nos com o conjunto da realidade, porque nos é útil (Economia), porque é bonita e nos atrai (Estética), porque nos dá prazer (Erótica). Enfim, projetamos a Beleza, entre aNecessidade e o Prazer. E assim nos projetamos, lançamo-nos para além de nós, e alcançamos a Transcendência em nós, mediante a Liberdade, o Amor e o Serviço, o mesmo que entrega de si a outrem e à totalidade do mundo, que é o jeito como Deus se manifesta sem ilusões nem alienação; estamos aqui, de cheio, na dimensão política da existência coletiva, ou seja, no campo do jogo do Poder, dimensão que, não só está presente, mas enche a Bíblia de ponta a ponta, de Gênesis a Apocalipse, basta que se a leia com atenção e sem “aprioris” ideológicos. A Política (o “jogo do poder”) é o que nos possibilita dar realidade à Economia (tornar a materialidade do mundo mais útil a nós); a partir da Beleza já existente, dar realidade a novos projetos que tornem o mundo ainda mais belo/bom (Estética); se maior beleza é possível, então, essa possibilidade se faz obrigatória, se torna “dever”, é a dimensão da Ética. Sim, o mundo já é belo (é a dimensão do conhecimento, da contemplação e da ciência), pode ser, porém, ainda mais belo (são os projetos da Estética); se pode, deve ser mais belo (é o dever imposto pela Ética); se é dever, tem de ser, é a esfera da ação no terreno da Política. Chegamos ao máximo da Revelação, ao proclamar que “a Palavra se fez carne” (Jo 1, 14), o mesmo que dizer que a práxis divina (“dãbãr” em hebraico quer dizer “práxis”) se faz realidade em nossa humanidade (cf. Fl 2, 1-11). A beleza da Sabedoria divina se reflete em nosso mundo, como cantam os escritos sapienciais da Bíblia (cf. Pr 8 e 9; Jó 28; Sl 19; 104; 119; 139; 147; Sb 7, 22-8,1; Eclo 24).

E as relações não se passam simplesmente no exterior, como mediação agregada para uma pessoa “chegar mais perto” das outras. Elas se interiorizam, se fazem íntimas. O poeta Ferreira Gullar dizia que “é evidente que o sentido da vida são as outras pessoas”. É que até as coisas, mas sobretudo as pessoas não apenas se aproximam, ou se “encostam” em nós. Não, elas nos penetram, achegam-se para “inabitar” em nós, ficam sendo parte de nós, nos fazem; por elas somos como que atravessados(as), penetrados e nos tornamos mais e melhores. Em grandíssima proporção, o que somos é o acontecer das pessoas em nós. Por isso, “pessoas” são, na verdade, essencialmente “relações” (cf. 1Cor 12 e 13) que tecem nosso ser desde suas dimensões mais profundas, até aquele ponto em que se atingem as raízes e se dá a Unificação, em outras palavras, “o ponto Deus”, quando já não importa viver ou morrer, aqui ou ali, agora ou depois, “ser ou nada”… importa, acima de tudo, que “só Deus basta” (Santa Tereza d’Ávila), só importa viver ou morrer de amor, por amor, “amada no Amado transformada(o)” (Santa Tereza d’Ávila). Os antigos Pais da Igreja grega, nos primeiros séculos, falavam de “processo de divinização”. Jesus tenta explicar-nos isto com a alegoria da videira, o tronco e seus ramos (cf. Jo 15). Temos de avançar e amadurecer para nos acostumar a sentir que Deus é a Fonte mais profunda do Prazer de viver, que transfigura e unifica tudo mais!

(Meditação nos anos setenta, sem data
Só agora publicada, com alguns acréscimos)

Obs: O Autor é Bispo Emérito da Diocese Anglicana do Recife
Igreja Episcopal Anglicana do Brasil – IEAB….

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