
Nos primeiros dias de novembro de 1977, maltratava-me a expectativa de ser pai. Aguardava o tempo passar para esfriar a aflição que dominava todo meu corpo. Não esperava a agonia ser tão intensa e tão demorada, e precisava de alívio imediato para profundo desconforto. O médico obstetra, experiente e dedicado, queria evitar uma internação precoce ou desnecessária, já que não haviam contrações uterinas. Encorajou-nos aguardar o início do trabalho de parto, por dois a três dias, em casa. No sábado, já não conseguia frear o aumento progressivo da ansiedade e fomos procurar a maternidade. Ana foi levada à sala de parto e após minucioso exame, conduzida para o centro cirúrgico. Depois de prolongada e angustiante espera nasceu de operação cesariana mais uma vida, como nasce o sol depois da noite.
Ana, que me proporcionava suporte afetivo e moral, estava muito ansiosa e inquieta até ouvir o choro do bebê. Eu nunca tinha percebido tanto brilho nos seus olhos nem um sorriso tão franco e expressivo em sua face, como no instante em que contemplou, com afeição de mãe, seu primeiro filho. Apertou com suavidade minha mão, mostrando-se reconhecida pela solidariedade recebida. Agradeceu-me por inestimável assistência, derramou algumas lágrimas e logo adormeceu. O nascimento do primeiro filho fez surgir, dentro de mim, um estado de ânimo agradável e prolongado, e sentir-me humano. Precisava de mais tempo para ser pai e sonhava com um lugar seguro e confortável para criar o filho recém-nascido e outros que chegassem.
Acompanhei a evolução do filho, passo a passo, com grande interesse e sentimento de felicidade. Relembro quando ele apertou meus dedos, o momento que sorriu pela primeira vez e a hora em que seus olhos seguiram meus movimentos. Recordo quando sentou no berço, quando engatinhou e o dia em que caminhou. Lembro-me do seu triciclo e de sua bicicleta. Sinto saudades, quando faço vir à memória sua primeira escola e seus indecifráveis rabiscos. Atento, observava seu crescimento e desenvolvimento com serenidade, e quando começou a diferenciar a realidade da fantasia, o estimulava a acreditar apenas no que razão explica. Jamais deixei brotar ou florescer em seus sentimentos votos solenes de “pobreza, castidade e obediência”. Orientava-lhe, com discrição, nas decisões que deveria tomar com referência à escolha de sua profissão e tudo ocorreu conforme fora planejado. Estive ao seu lado na aula inaugural na faculdade de medicina e na solenidade de encerramento do curso de residência médica em Endocrinologia.
No princípio, os filhos são protegidos pelos pais, no entanto, o tempo nos torna frágeis e os papéis são invertidos. Nossas forças vão sendo devoradas lentamente com passar dos anos e quando instalada a canície, culturalmente há perda de atratividade e os mais sensíveis compensam sua autoestima investindo o saldo de sua energia emocional, em relacionamentos com pessoas mais jovens. Entretanto, mais dias menos dias, acometidos por uma ou mais doenças crônicas debilitantes, começamos a perceber ser impossível recuperar o domínio completo sobre a própria vida. Fomos estimulados, desde a infância, a temer monstros e a aceitar como humilhante a exposição do corpo em sofrimento ou despido, a pessoas estranhas. Nesse momento, em geral, o lar está vazio e ao sentir que me sobra força apenas para respirar, vou lamentar somente a falta de oportunidade de ter discutido, com entes amados, minhas opções finais entre as permitidas por leis. Percebendo a escuridão aproximar-se, mesmo cheio de lembranças, não poderei recuperar o tempo perdido, nem reviver demoradamente detalhes de bons tempos ou desastres vividos. Atravessava uma das etapas difíceis e longa da vida, marcada pela escravidão brutal da solidão e por convulsões afetivas que faziam sangrar o corpo e a alma. Eu tinha de adaptar-me a ser só, a conversar comigo mesmo sobre minhas dores secretas, meus remorsos e minhas culpas.
Quando a luz apagar, se meu corpo for encontrado, estendido na cama ou no chão, pálido e frio, com o coração em silêncio eterno, é porque não pude influir na minha longevidade. Os amigos que ainda preservem algum grau de audição, receberão o aviso da minha partida por meio da sonoridade das badaladas dos sinos da torre da igreja. O crematório deve ser o destino do meu corpo e por nunca ter abrigado no cérebro crenças supersticiosas, nenhuma cerimônia de caráter sacro ou simbólico deve ser realizada. Espero passar minha eternidade na Serra de Itabaiana, local preferido e esperado para minhas cinzas.
Quero ser lembrado por meio dos filhos Allan, Ana Carla e Ivo. Eles carregam as características dos pais e representam minha ressurreição e minha imortalidade.
(12/04/2017)
Obs: O autor é médico e membro da Academia Itabaianense de Letras.