dom seb maturidade

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(Retalhos do quotidiano)

Percebemos que estamos amadurecendo à medida que, ao nos relacionarmos com as pessoas e o mundo, cresce em nós a atitude de respeitoso silêncio, como quem está a tocar um sagrado mistério. Isto significa que vai diminuindo em nosso interior a pretensão de controle e domínio, como se fôssemos donos(as), únicos(as) responsáveis pelo “drama”. Na verdade, vamo-nos convencendo profundamente de que somos apenas um(a) dos atores(as) e, quem sabe, não dos(as) mais importantes. Já não é tão necessário ”en-tender”, a saber, penetrar, invadir, entrar; importa sobretudo “com-preender” (“apanhar com”), aproximar-se, abraçar, sofrer com (“com-paixão”, “com-padecer”)…

Assim, parece, a vida vai nos exercitando na “arte de morrer”, no sentimento de generosidade que é radical desapego, nada desejar possuir, tudo entregar, sem deixar-se dominar pela “necessidade” de reter para si, enfim, de guardar-se a si mesmo(a). Chega-se à “pobreza”, entendida em sentido profundo, antropológico, que corresponde ao que nos propõe o Evangelho: “Quem quiser salvar (guardar) sua vida, a perderá; mas quem perder (não agarrar-se) sua vida por causa de Mim e do Evangelho, a salvará. De fato, que daria alguém em troca de sua vida? (…) Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último de todos(as) e servo(a) de todos(as)” (Mc 8, 35; 9,35).

Na verdade, Deus de nada necessita, por isso nada “possui” para Si mesmo. De fato, desejo e busca de posse implicam sempre em “necessidade”, designam, de qualquer forma exterioridade, falta, incompletude do próprio ser. Ora, Deus simplesmente É, de nada necessita exterior a Si mesmo. Por isso, simplesmente é FONTE de tudo mais, em Si (o dom no interior da Trindade) e “fora” de Si (a Criação), é completamente DOM. N’Ele coincidem misteriosamente o Tudo e o Nada, a Plenitude e o Esvaziamento, a Glória e a chamada “kénosis”, pois nada precisa guardar só para Si. Ajuda-nos meditar atentamente o que nos diz a Carta aos Filipenses 2, 1-11 e a Carta aos Colossenses 1, 15-20.

Quanto menos sentimos necessidade de possuir (ter, poder, saber, prazer), é sinal de que SOMOS mais. A plenitude de SER corresponde à plenitude da LIBERDADE, quando de nada mais se necessita. A pobreza antropológica, profunda, “essencial”, é, por aparente paradoxo, o sentimento de nada necessitar. Pois a liberdade realmente se exercita no estar “para além” das coisas, das pessoas e até de si mesmo(a), é SER simplesmente.  Assim compreendemos melhor a palavra do Apóstolo São Paulo quando dizia: “Tidos como impostores e, não obstante, verídicos; como desconhecidos e, não obstante, conhecidos; como moribundos e, não obstante, eis que vivemos; como punidos e, não obstante, livres da morte; como tristes e, não obstante, sempre alegres; como indigentes e, não obstante, enriquecendo a muitos; como nada tendo, embora tudo possuindo” (2Cor 6, 8-10).

Toda a corrente ascética e a mística falam desse “caminho de subida”, de apartar-se das criaturas, de desapego, de “fugir do mundo”, de voluntária renúncia. São, na verdade, as vias da mística, com as suas três clássicas etapas: a via purgativa, de purificação, de “desfazer-se”, da renúncia ao que nos sobrecarrega e torna menos livres, em nós e em torno de nós: “Não leveis ouro nem prata, nem cobre nos vossos cintos, nem alforge para o caminho, nem duas túnicas, nem sandálias, nem cajado” (Mt 10, 9-10; cf. 10, 37-39); a via iluminativa, quando a visão se vai clareando para discernir na vida o essencial e o acidental, o principal e o secundário, o necessário e o supérfluo, fora e dentro de si: “Uma só coisa te falta, vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres e terás um tesouro no céu ( isto é, em Deus”) – (Mc 10, 21); finalmente, a via unitiva, quando se chega a sentir-se um só com o Universo e sua Fonte, indo além de qualquer sentimento de exterioridade e, portanto, de posse. Chega-se, finalmente, a tudo possuir sem precisar de “comprar” ou conquistar: “Tudo pertence a vós: Paulo, Apolo, Cefas, o mundo, a vida, a morte, as coisas presentes e as futuras, tudo é vosso, mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus” (1Cor 3, 21-23).

Não se trata de “desprezo” pelas criaturas, pois são todas fruto da ação criativa amorosa de Deus, mas, sim, de ultrapassagem, de movimento de transcendência e de liberdade, que nos arrebata para além da vida e da morte. As pessoas que identificamos como “místicos(as)” são aquelas que radicalizam a vivência desse processo (pensemos em Mestre Eckhart, em Tereza d’Ávila, em João da Cruz, Francisco de Assis, Charles de Foucault…). Santa Tereza chegou ao máximo ao dizer: “Morro porque não morro”. De fato, porém, trata-se do processo de amadurecimento humano como tal, embora vivido em diferente e variada intensidade.  É não pretender prender-se a nada, nem a si mesmo(a), pois teremos chegado à unidade radical com todas as coisas, mediante a “com-paixão”, o “sentir com”, próprio da “solidariedade” pela qual nos percebemos como um único sólido, uma só realidade, toda ela articulada em unidade plena. Porque já se chegou a SER, já não é preciso preocupar-se com o TER. Nisto está a verdade do dito: “Riqueza não é a de quem tem muitas coisas, é a de quem necessita de poucas”. É que quanto menos necessitamos, maior a plenitude de SER e de PODER… (cf. Rm 8, 31-39). O Apóstolo São Paulo o experimentou na própria carne: “Cristo será engrandecido no meu corpo, pela vida ou pela morte; pois para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro” (Fl 1, 20-21). Caruaru, 2015

Obs: O Autor é Bispo Emérito da Diocese Anglicana do Recife
Igreja Episcopal Anglicana do Brasil – IEAB….

Imagem  enviada  pelo autor.



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