A MISSA DAS CRIATURAS

frei adolfo amissa das criaturas 1

É dia de Santa Luzia, “que de Deus era serva…” De manhã desce um carro de boi com toda carreira, e alguém pergunta: Por que esta pressa? – O carreiro responde: O povo está com sede! – Na estrada da Forquilha a poeira não assenta mais. Às três hs da tarde o povo se junta na praça para ver a MISSA DOS CARREIROS. Sr. Abraão é o primeiro que dobra a esquina, e atrás dele seguem 48 carros, puxados por bois magros, experimentados no sofrimento. A fila dos carros toma os quatro cantos da praça. Zé Dazinho passa com um grande ramalhete de flores para enfeitar as cabeçadas dos bois. Alguns carros estão cheios de meninos. O carreiro caçula é o filho do Sr. Juvenal que quase não pode com a grande vara de tanger os bois. Sai a procissão dos carros com o povo cantando. Neste dia os eixos não cantam o gemido, porque os carros estão vazios. Aqui ninguém chora sem precisão.

O padre pronuncia a benção: “Ó Deus que deixastes os animais como empregados dos homens, abençoai estes bois mansos que trazem a água de longe para saciar a sede do vosso povo. Daí-lhes pastagem e palma verde para que possam revigorar-se. Abençoai também estes carros que gemem debaixo do peso dos tambores. Fazei que possam, no novo inverno, carregar a fartura da safra para alegrar as famílias. Abençoai também os carreiros: daí-lhes paciência para que respeitem o passo do boi. Fazei que possam ganhar com dignidade o pão suado do trabalho pesado”.

Dentro da igreja o povo não cabe. Perto do altar estão os homens fazendo guarda de honra com suas varas enormes, com as chibatas no ombro, com os chocalhos no braço e o Sr. Abraão levando uma canga nas costas. Na frente do altar estão as mulheres com latas e potes. Uma delas carrega uma trouxa de roupa na cabeça, lembrando a dificuldade de lavar um pano nesta seca feroz. Santa Luzia no seu altar fica imprensada, mas sentindo-se feliz de ver o povo ainda com tanta confiança.

A Boa Nova não parece tão boa: Tenho sede! Mas o povo se conforta em saber que Jesus quis sentir a sede como nós. Dona Palmira lembra na reflexão que segue: No Garrote se deitaram sem beber, e de manhã botaram o feijão no fogo às 9 hs, depois que o tambor chegou da Forquilha. Dona Loló conta como os meninos deram trabalho uma noites dessas: Seu marido tinha ido buscar água e custava para voltar. Ela teve que consolar as crianças: Vão dormir, que amanhã vocês vão beber! Mas aconteceu que o pai chegou às 10 hs da noite, e ela acordou todos com um copo de água. Dona Petronila diz que já saiu do seu sítio seco para morar na beira do açude. Dona Joaquina conta que foi buscar uma lata de água na cabeça e na volta deu um escurecimento de vista. Teve que sentar-se para não cair. TENHO SEDE.

Nas preces rezamos o refrão: SENHOR, ABRÍ OS CÉUS. Um dos pedidos resumiu toda canseira: “Que Deus mande chuva para nós sair da fadiga da seca!” No ofertório ficou manifesto o sacrifício pesado que o povo oferece todo dia, esta missa diária que não tem hora marcada nem horário para terminar. Sr. Antonio ofertou a vara com o ferrão, símbolo da autoridade do carreiro. Olhando para este rei com seu cetro na mão, a gente só pode pensar: Ah, se homens honestos tivessem a “vara de comando” neste país! O Sr. Abraão ofertou a canga no lugar dos que não podem falar, sínal da submissão, da obediência e do serviço. Os bois na praça não gostaram: Quem sabe do peso somos nós! Foi uma missa que uniu homens e animais num mesmo sacrifício. O Sr. Tinoco estava lá com o galão nas costas e ofertou o madeiro que é do mesmo tronco da cruz. Quando o padre levantou a hóstia, o Pai enxergou no rosto deste povo os traços do seu Filho. As mulheres elevaram as vasilhas junto com a patena do celebrante. A água para o cálice, quem serviu, foi Dona Maria que tinha um pote na cabeça. Não foi preciso rezar que Deus aceitasse este sacrifício.  Na hora da consagração os carreiros formavam uma multidão de acólitos que sacudiam os chocalhos. Foi a missa mais solene do mundo.  Os bois na praça ficaram alegres, porque o seu sininho tem valor, promovido que foi para campainha que saúda o Cálice
Bento.

frei adolfo a missa das criaturas 2

Obs: O autor é  Frade Franciscano, nasceu na Alemanha em 1940.
Chegou ao Brasil como missionário em 1964. Depois de completar os estudos em Petrópolis atuou no Piaui e no Maranhão. Exerceu trabalhos pastorais nos anos 80 em meio a conflitos de terra. Desde 1995 vive em Teresina no RETIRO SÃO FRANCISCO onde orienta pessoas na busca da vida espiritual.
 Imagens enviadas pelo autor.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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