foto Aurelio Molina entrelaços

Em qualquer intervenção em saúde (individual ou coletiva) duas premissas são básicas: que ela seja efetiva, isto é, “funcione” e que após a análise de seu custo, benefício e malefício ela seja vantajosa para o/os indivíduo/s envolvido/s e para a sociedade como um todo. No século XXI não é mais aceitável que, na assistência à saúde, realize-se qualquer ação de prevenção, tratamento ou recuperação que não esteja baseada em evidência científica, isto é, em verdade científica manifesta (mesmo sabendo que ela é sempre provisória e de aplicação contextual) e que seus custos e malefícios não tenham sido muito bem medidos e ponderados, pois existem ações que apesar de terem eficácia são financeiramente proibitivas ou se associam a danos ou riscos inaceitáveis. A crise da saúde brasileira tem muitas variáveis explicativas, inclusive a “contaminação” de todo o sistema pelo colapso ético e moral que “infecta” a sociedade brasileira. Mas não tenho dúvida que uma das principais razões é o “poço sem fundo” dos gastos de uma assistência a saúde que é dominada por gigantescos, poderosos e competentes lobbies que “impõe” intervenções que, apesar de possuírem certa lógica, inúmeras vezes não são baseadas em verdade manifesta e/ou possuem um custo proibitivo e inadmissível do ponto de vista ético, bioético, epidemiológico ou gerencial. Essa grave contradição só é possível através de uma sofisticada estratégia para conquistar as mentes e os corações dos atores e segmentos envolvidos com ações de saúde (pacientes, profissionais, gestores, etc) que inclui a escolha da temática de currículos de faculdades, financiamento de congressos, de revistas científicas e de sociedades, marketing agressivo, distribuição de “benesses”, etc. E no disputadíssimo dia a dia de um mercado que movimenta cerca de um trilhão de dólares anuais não há muito espaço para altruístas, idealista e defensores do bem comum. Otto von Bismarck, diplomata e político prussiano, famoso por ter lançado as bases do II Reich e do estado nacional alemão, certa vez afirmou que “quanto menos as pessoas souberem com se fazem as salsichas e as leis, melhor dormirão à noite”. E eu acrescentaria (infelizmente) “e a propalada eficácia de muitas intervenções na área da saúde”. Bem, mas como se chega a uma verdade manifesta na assistência à saúde? Certamente não mais apenas com opiniões individuais de notáveis ou de grupos famosos ou de importantes sociedades de especialidade, mas sim com um conjunto de trabalhos de excelente qualidade metodológica e sem conflitos de interesses. Infelizmente, por várias razões (inclusive o alto custo), isso é infrequente na literatura que envolve as questões de saúde. Uma das maneiras de diminuir as fragilidades da produção do conhecimento nesta área é a “reunião” de tudo o que foi produzido com dados primários (sobre um determinado assunto) e, depois de um crivo critico e bem explicitado que elimina os estudos que possuem grandes limitações ou erros sistemáticos, os considerar como se fossem um único grande estudo, naquilo que é comumente denominado na comunidade científica como uma revisão sistemática com meta-análise. Pois bem, em agosto de 2013, um grupo de pesquisadores canadenses e suíços, sob o patrocínio da Organização Mundial de Saúde, publicou no British Medical Journal, tal “systematic review” acerca das gripes pandêmicas e sazonais. Os autores identificaram 63.537 artigos dos quais 234 atingiam os critérios (críticos) de inclusão que, depois de analisados, indicaram que os riscos de complicações (inclusive mortalidade) para ambas são, em geral, baixos. Além disso, alguns dos mais “famosos” fatores de risco, como gravidez, não puderam ser admitidos como tais. Apesar de pequeno impacto foram confirmados como fatores de risco a obesidade e as doenças cardiovasculares e neuromusculares. Por outro lado, puérperas com menos de 4 semanas de pós parto tiveram um aumento extremamente relevante do risco de morte por complicações de gripes pandêmicas como a H1N1. Ora, com dados como esses (e com os dos sistemáticos informes epidemiológicos da SES, do MS e da OMS) como podemos explicar a corrida às clínicas de vacinação, os tumultos nas longas filas de espera das mesmas e o consumo desmedido de antiretrovirais? Eu incluiria nas possíveis respostas o bordão muito utilizado nos países de língua inglesa “business as usual’ (negócios, como de costume), pois à luz da Ciência e da realidade não há motivos para tal pânico.

(Publicado no DP, 20/4/16, página A2)

Obs: O autor, Prof. Dr. Aurélio Molina, Ph.D pela University of Leeds (Inglaterra) é membro das Academias Pernambucanas de Ciência e de Medicina.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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