foto josue voeira

Trinta anos sem uma nova edição daquela organizada pela Professora Telê Ancona Lopez, do Instituto de Estudos Brasileiro (IEB), da USP, em 1976, “O Turista Aprendiz”, obra de Mario de Andrade, fruto de anotações diárias, crônicas produzidas pelo escritor durante suas “viagens etnográficas” realizadas pelo Nordeste e Norte do Brasil, entre 1927 e 1929. Renasce recentemente com uma nova publicação organizada pelo IEB e o IPHAN.

A obra tendente a registrar o cotidiano do escritor durante essas viagens continua tão atual ao ponto de merecer leituras novas e estimular a “descoberta” por esse lugar infinito e ainda imaginativo: Amazônia. Importante por vários ângulos; inicialmente, há uma dupla importância que recai sobre a obra, a primeira é demonstrada pela condição social que Mario de Andrade assumiu enquanto homem publico e intelectual na década de 20 do século XX. A segunda importância é quanto ao destaque da obra no cenário intelectual nacional, legado que se estabelece numa mescla entre antropologia e arte literária; entre o registro etnográfico e o exercício das Belas Letras.

É imprescindível que “O Turista Aprendiz” seja visto por múltiplos focos, sendo dever do leitor mais atento acompanhar a “parição” de um Brasil até então desconhecido do horizonte social de nosso flaneur moderno. Sem exagero na apropriação, atribuir a obra de Mario o caráter de Registro de Nascimento de um Brasil mais real de seu povo multi étnico, órfão das caravelas quinhentistas que singraram o Atlântico em busca de riqueza.

“Pelo Amazonas até o Peru, pelo Madeira até a Bolívia, por Marajó até dizer chega”, parte do diário que cobre a primeira viagem de maio a agosto de 1927, apresenta condições discursivas e etnográficas que transbordam os olhos ávidos do leitor, permitindo alusão à Carta de Pero Vaz de Caminha enquanto primeiro registro de alguém com importância no Brasil Oficial sobre essas plagas que um dia foi incorporada 40 anos depois pelo lema “Integrar para não entregar” e assim ficou…

Tornou-se Brasil, lógico, mas uma parte da Nação próxima da personificação de Grendell, ao qual “O Turista Aprendiz” revisita com outro olhar atento, um olhar colateral para sociedade que brotou “nesse mato” em mais de 400 anos de “zona cinzenta” da Colônia.

Olhar distante da urbanização, das benesses da modernidade, da institucionalização do alheio, do outro, do concreto, dos carros e das mademoiselles. O olhar refinado nas narrativas de Mario transporta o leitor para um Brasil pé-no-chão, muito presente na realidade hodierna de certos locais do mesmo Nordeste e Norte visitado por Mario entre 1927 e 29. Por isso a obra ainda continua atualíssima, merecendo vistas e comparações com as produções mais recentes em ciências sociais produzidas dentro da academia.

Mario não precisou de uma academia para validar suas narrativas sobre as duas Regiões brasileiras, precisou apenas experimentar a sensação de conhecer e registrar o cotidiano desses locais ainda sonegados pelo Brasil Oficial, instalado no eixo Sul-Sudeste. O autor precisou conhecer para criar a experiência colateral da realidade, traduzindo-a ao leitor mais imaginativo e topográfico possível. Muito do registrado em linhas gerais da obra ainda possui natureza estimulante, possui um quê de interesse pelo conhecer, mas um conhecer pela experiência direta do “quem és tu?”.

Ressalta-se nesse lastro méritocratico sobre a obra que entre 1927 e 28 Mario de Andrade publica as seguintes obras: “Macunaima”, “Clã do Jabuti” e “Ensaio sobre a musica brasileira”. Entre “O Turista Aprendiz” e essas obras há uma interconexão paradigmática, há um compartilhamento de ideias fundamentais que constituem cada obra. Nelas estão presentes paradigmas sobre a formação da sociedade brasileira, reflexões sobre criação literária, conclusões fragmentadas sobre política, condições de vida e sobrevivência humana nas Regiões visitadas, vê-se, nesse sentido, um exercício entre a estética modernista e a etnografia.

Tal exercício resulta num maravilhoso passeio pela existência humana em um território compositor da ideia de Brasil. Nesse momento há algumas questões que sobressaem o texto, elas não estão nas entrelinhas, mas sim na companhia de Mario, pois quando o leitor inicia a leitura do então texto nota-se primeiramente o enredo de uma viagem, mas ao passo que a viagem vai entrando em território novo, no material registrado por Mario é que algumas questões sobressaem, saltam do texto igual aos peixes saltando quando as águas se arrepiam de tanto sossego.

Eis as perguntas que ficam, qual estética modernista, para o leitor responder – se assim quiser. 1) A que ponto a criação literária surge da experiência com a realidade? 2) Criar se compara à um coser, cuja participação de um segundo sujeito não anula a autoria? 3) Há autor? 4) Por que o desconhecido?

Porque como Mario recita em “Dois poemas acreanos”, publicado em Clã do Jabuti” (1927): “Não vê que me lembrei que lá no norte, meu Deus! muito [longe de mim] / Na escuridão ativa da noite que caiu / Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,/ Depois de fazer uma pele com a borracha do dia, / Faz pouco se deitou, está dormindo. / Esse homem é brasileiro que nem eu.”

Obs: O autor é “Professor universitário, Crítico literário, Escritor. Escreve regularmente nesta revista sobre Contra-Racionalidades, Complexidade e temas pertinentes aos modos de Existir”

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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