Josué Vieira 15 de maio de 2016

foto josue voeira

A habilidade de sorrir renova a condição de existir e pertencer a uma unidade de signos e linguagens, atualizando nossos app´s neurológicos. Pelas formas de sorrir revelamos preferências, aflições, desejos, estados de espírito(s) e nossa solidariedade anônima contra-racional, satírica ou “mal-dita” reveladas em estados in natura.

Quando o humor vale a pena ser esquecido rimos, porque tendemos ouvir a piada quantas vezes for suficiente para apaziguar nosso “Animus”; quando o medo é iminente a ponto de calibrar a impetuosidade da covardia, rimos, porque tendemos a distinguir heróis e derrotados, fazer lembrança dos “bons exemplos” e jogar uma pá de cal no “erro” e no “deslize”, #vacilão.

Complacentes e solidários tornamos a ação de sorrir um ato de resistência ou um cheque em branco político, tornamos ele um silêncio da alma, sorrir é ouvir “aquele silêncio”, como ouvir a introdução de 4 minutos de “The Isle of the Dead, Symphonic poem Op. 29” de Rachmaninov, ou os 6 minutos de “Siegfried’s and Brunnhilde’s passion”, presente na parte IV (Götterdämmerung),de “Der Ring des Nibelungen”, de Richard Wagner.

Um polonês vai ao oftalmologista, o médico lhe mostra: C Z J W I O S T A W C Z, depois pergunta “você consegue ler isto?”, “Ler?! Eu conheço esse cara!”, responde o polonês. Mas porque tanto interesse no rir e no humor? Cito dois exemplos, a Associação CORHUM, desde sua criação em 1987 realiza grupos de estudos sobre o riso publicando os debates e resultados de pesquisas na revista “Humoresques”, o outro é a publicação semestral editada em Nova York, “Humor: International Journal of Humor Research”.

O fato de pertencermos a uma “sociedade humorística” como afirmou Gilles Lipovetsky em “A Era do Vazio” (1983), facilita que o “cool” e o “fun” se difundem com mais velocidade, disseminando modelos descontraídos. O rir e o humor são para os meios de comunicação o harém, o casamento poligâmico de méritos, virtudes, terapias e fanatismos.

– Professor Raimundo o Senhor me autoriza a falar as quatro coisas maiores do mundo que eu desejo? Pergunta Seu Batista para o Professor.

– É… é… é interessante, há de ser alguma coisa especial… diga, diga lá. Permitindo Seu Batista falar.

– Sabe o que é… o primeiro desejo é que o Senhor professor se candidatasse a Presidente do Brasil!!!

Afirmação que surpreende o Professor Raimundo…

– A segunda é que o Senhor ganhe a eleição… Alegre Seu Batista começa a se empolgar e arrancar olhos brilhantes do Professor Raimundo e o reconhecimento dos seus colegas de turma.

– O terceiro desejo é que o Senhor fosse bem corrupto, bem ladrão e roubasse muito!!!

A fala começa a preocupar o Professor…

– A quarta… a quarta é que eu pudesse chegar lá e dizer assim: “Pelos meus filhos!!! Pela minha mulher!!! Por Roraima!!! Eu voto NÃO!!!

Em “Laughter and sense of humour” (1956), Edmund Bergler colocava a questão do rir no espaço de debates acadêmicos, na altura documentava mais de oitenta teorias sobre o surgimento e natureza do rir. Já o historiador russo Alexandre Herzen em 1954 se interessa pelo sorrir como ato subversivo e revolucionário, lembrando que na Antiguidade o sorrir era forma de interação social, um meio de comunicar e difundir ideias.

Mikhail Bakhtin, chegando tarde ao lado ocidental pela tradução francesa em 1970 de “François Rebelais e a cultura popular na Idade Média e sob a Renascença” expõe a prerrogativa do rir como construção social e histórica do existir medievo. Jacques Le Goff, historiador recentemente falecido, a partir da década de 80 expunha em suas publicações uma certa preocupação com uma “hierarquia do riso” na ordem monástica.

“Rir, é melhor quem ri” lembra uma expressão popular, porque o rir é algo ritualístico, é quase uma apresentação do homem a sua sociedade, é um baile de 15 anos só com a valsa tocando e os convidados se abrindo de tanta graça (grossa); é um “sorriu latindo” que encheu a burra do Roberto Carlos com aquela musica. O sorrir é uma matéria previamente domável, isso por conveniência.

Material de vidas, esclarece, liberta, por vezes hierarquiza, estigmatiza, como Pedro Bó, Pezão, Agapito, Pirula, Miguê, Burraldo, Caco, Pé-de-cobra… e outros mais que a “boa convivência” pede para sorrirmos com a barriga do que simplesmente expressar facialmente o desejo de Potencia. O sorrir é uma provação para qualquer um que tente atravessar a nado livre o Rio-mar Sociedade, é ao mesmo tempo terçado ou “révorvi” nessa Sociedade de “vingar a camisa com o sangue amarelado”. O dark side do sorrir é isso, material ainda ausente de nome e caminho, bate na porta das memórias, pede sentimento sem ao menos troco na relação.

#tedoidé

Obs: O autor é “Professor universitário, Crítico literário, Escritor. Escreve regularmente nesta revista sobre Contra-Racionalidades, Complexidade e temas pertinentes aos modos de Existir”

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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