foto josue voeira

A morte é fascinante, o ato de morrer é lamentável, porém brilhante, ensina e ao mesmo tempo pede para “esquecermos”, educamo-nos pela eternidade minimalista, quase art déco da efemeridade, ponto obrigatório de nossa existência e comunhão entre o intimo e o alheio. Ao lado da filosofia da morte, sua sociologia pede menos incremento e mais materialidade, nisso temos o fato e o ato como partes de um processo que culmina em emoções, sociabilidades, culturas e formas de interação.

Ao compartilhar o fascínio e o brilhantismo no mesmo processo a morte cai no gosto popular e enreda o Ser, o desregramento (será que há regra para morte?) e o infinito de sociabilidades; ao menos uma vez na vida desejamos uma forma de morrer para o outro. Quem nunca morreu por cinco segundos amando pelo desejo carnal do relacionamento amoroso. Às vezes o desejo de morte é a única via capaz de sentimo-nos só, é a única forma capaz de apresentar o individualismo além da thesis, em sua fisionomia, em sua apropriação material, em sua carnalidade corpórea.

Quanto a isso tendemos a cultivar uma ânsia punitiva por vezes substanciando o furor dos apaixonados, e por outra estimulando nossos olhos e ouvidos de mercador, seja um ou outro o caminho escolhido a ideia de morte como “limite”, como “redenção”, na verdade como “satisfação intima” é o combustível psicológico de nossas emoções contemporâneas compartilhadas no meio social.

O ímpeto punitivo oriundo de nosso pensar individual está mais para uma “projeção”, compartilha fronteira com o onírico, com aquilo que a psicologia conceituou de “sonho”. A morte na contemporaneidade é um “sonho” do melhor calibre, é uma ideia antecipada, acelerada pelas quinquilharias virtuais do existir fabricada por um motor Usain Bolt presente em nossa ansiedade de viver o que virá, o hoje se tornou velho demais para administrar a vida em massa, o amanhã é troco de taberna, vale o que se consome, o passado assiste Game of Thrones com a pergunta “onde errei?”. Recorrer a quem?

Em 1934 dizia Carl Jung, “dentro de cada um de nós há um outro que não conhecemos. Ele fala conosco através dos sonhos”. Sigmund Freud antes, em 1900, acreditava que o Sonho é a porta de entrada para o tratamento de neuroses, pois o onírico é a tentativa individual de realização de um desejo reprimido, por que como dizia Alfred Maury em 1850, os sonhos são estímulos externos sobre a pessoa do sonhador.

Portanto, o sonho instituiria o elo de fluxo que une a consciência do estado sonambúlico à consciência do estado de vigília, segundo Alfred Schopenhauer, então os complexos de superioridade e inferioridade seriam manifestações dos sonhos, por exemplo, segundo Alfred Adler. Desse jeito, como pensou Erich Fromm, o sentido-mor do sonho é a realidade e a intuição autentica que se manifesta também em consequência de problemas e questões socioeconomicas.

Como elemento de definição da modernidade clássica o individualismo carregou uma geração de pensadores, poetas, escritores, gente da massa, por vezes nos brindou com exemplos belos sem ao menos perverter sua essência. Podemos citar como exemplo, os espaços urbanos do individuo, o que sintetizava a existência desse ponto existencial era a conjugação entre individuo e urbano, houve um cultivo de utensílios e formas capazes de expressar o individualismo,

Desde um cigarro acesso no canto da boca, uma gola de sobretudo levantada numa postura quase encolhida, como proteção (de que?), o vagar pelos boulevards sob uma nevoa (quanta solidão cultivada), os conjugados minimalistas e discretos, o entre paredes simbolizava a “privacidade”, quase como fosse jaula para o animal humano pronto para ganhar a vida nos espaços sociais da phylia social.

A morte na contemporaneidade assumiu as diretrizes que antes eram do individualismo, por vezes até reforçando o individualismo grupal (há?) onde jovens destroem a ideia de público não como revolução, mas como diversão, dá o recado: “o mundo vai acabar, então que acabe em diversão”.

Como ponto de mutação, como ponto de reforma mental e comportamental, a morte toma o cetro do individualismo e diz para o humano “seu fim é o começo”, e assim dispostos entregamos nas mãos do acaso nossas premissas e enredos novelescos da existência. A morte faz o que o individualismo urbano não conseguiu em sua época de ouro, tornar humano o antes animal, quebrar os antagonismos e apaziguar os ânimos de outrora e porventura e depois… compartilhar nos grupos do wathsapp, snapchat, face e ser “youtuber”.

O mal existe a cada ponto de nossa crença, de uma ideia simples nasce o animo de mudança, porém não mudamos pelo conforto de permanecermos animal. A morte liberta, por isso antes do perdão vem o esquecimento. Esquecer é uma das formas de morte mais singelas e pacificas de se dizer e aceitar o perdão, por que quem responde ali é o sapiens sapiens homo e as regras de convívio brindam as pazes num selfie.

Agora… é pernicioso colocar valor financeiro nesse movimento, as vezes penso que as formas intelectuais e virtuais tomando conta de nossa sociedade joga nossa bússola a procura do original para aquilo que o individualismo renegou, o parental, o pertencer a alguma coisa. Assim toda pureza e maldade deste mundo se encontra na casa, além de espaço de criação ele torna-se o acolhimento, um momento para dizer “ufa!!!” e fazer click.

Obs: O autor é “Professor universitário, Crítico literário, Escritor. Escreve regularmente nesta revista sobre Contra-Racionalidades, Complexidade e temas pertinentes aos modos de Existir”

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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