Dasilva 15 de abril de 2016

Durante a viagem para a despedida de mamãe, me concentrei em alguns pontos básicos, sem redação. Agora, pouco tempo depois, coloco por escrito, com pequenas variações apenas de palavras.

O corpo de mamãe, ainda que esteja inerte e inanimado, não é um objeto. É um ícone, um símbolo de uma matéria que transcende a qualquer olhar insensível.

Não viemos aqui para lamentar, ou xingar a morte corporal que completa um ciclo natural da vida.  Estamos aqui por muitos motivos, entre eles:

  1. Viemos para reverenciar uma mulher guerreira – Mamãe combateu o bom combate e guardou a esperança, a exemplo das Amazonas que não cederam ao colonizador. Mamãe, até no nome, é uma grande vitória. Nosso choro é de saudade de quem sabe que ela espraiou-se, mas torce para que ela permaneça, quem sabe, para nos ajudar a entender sua nova presença.
  2. Viemos para celebrar a convicção comum de que mamãe encantou-se, multiplicou-se, voltou à Plenitude do Universo de onde saiu. Onde está, ó morte, a tua vitória?! Bem-aventurada a irmã morte, como diria Francisco de Assis, porque vemos na morte corporal a passagem de mamãe, encerrando seu tempo de peregrinação, em pleno Domingo, e na Páscoa.
  3. Viemos para recordar (passar de novo pelo coração) a mãe e mestra cuja espiritualidade se alimentou da fé na vida, contra todo desânimo; do sustento às custas do próprio trabalho; da compaixão aos pobres para que eles se levantassem; do intenso amor acompanhado de todos os adjetivos; da dança, da festa, da canção, da alegria… apesar e através dos desafios.
  4. Viemos para nos comprometer com a unidade. Mamãe inventava formas de nos convocar à unidade de propósitos, numa causa comum. Ela percebeu que os laços de sangue são frágeis (a carne é fraca). E o inimigo não se cansa de espalhar a cizânia da desconfiança, de nos cegar diante do que pode nos unir e tenta nos seduzir pelo individualismo e pelo consumismo.
  5. Viemos para reafirmar que Eunice vive em nós. O velório é um apelo a quem vive e se entrega pela restauração da vida fraterna, sempre – deixe que os mortos enterrem seus mortos! A garantia da unidade não é um discurso é a construção do Reino onde quem tem muito, não sobra e, quem tem pouco, não falta porque os bens são patrimônio universal de todos os viventes. 13 de Março, 2016
Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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