foto josue voeira

“É perigoso viver neste mundo sem ler, porque isso te faz crer no que os outros dizem”, não sei a quem foi atribuída este pensamento, muito menos se é proveniente do hindu, chinês, inglês, húngaro, russo ou português. Sei de sua existência e por não saber seu marco-zero acredito que sua representatividade une valores de pensamento no anonimato, que possibilita seu significado ser meu, de ser teu, daquele ou de ninguém, como fosse escapada à francesa numa daquelas festas onde o tudo-bem predomina como síntese hermética dos corpos bem vestidos e pouco interessados.

A expressão apresenta subtendido um medo de pensar e um comportamento salvador, tornando a declaração vazia de substância e preenchida de qualidade que a envolve, assim como um saco de plástico: pode conservar o material, mas também delimitar o vazio espacial sem ao menos se dá ao trabalho de sustentar seu espaço delimitado e sua capacidade de preenchimento. Fazemos medidas para satisfazermos a imagem do tudo-pode, assim os olhos conservam a verdade vista e escondem o fato de que podem ser enganados.

É isso que em “A Republica dos bons sentimentos” (2009), Michel Maffesoli assevera contra o pensamento único e unificador, o perigo deste mundo é pensar em uma direção, criar condições com viseira de cavalo e com elas mobilizar a construção de um Bem Coletivo, seja ele baseado na segregação ou na unificação das propriedades existenciais.

Decidimos, ao fazermos confirmamos o visual e as semelhanças como causa e finalidade da compreensão, no máximo acomodamos nosso corpo às formas de existir pelo pensamento. A decisão é a porta de entrada e de saída para nossa conformação corporal e social, é por ela que a nossa matéria corporal se decompõem em imagens, é um dos processos mais importantes de subjetivação do Eu-social em Eu-intimo.

Wittgenstein propõe sempre procurar outro caminho para o mesmo pensamento, mudar e catalogar, sempre, as várias perspectivas como se observa e concebe o ideário social sobre as coisas. Se com isso almeja-se a limitação, o quadro de perspectivas catalogadas forçará o interprete a cruza-las numa dimensão infinita de resultados em que os produtos retornarão para o mesmo ponto de origem daquela inicial que motivou o breve exercício de catalogar as perspectivas.

Ampliar o espaço de presença do Ser; criar condições para que o sentido de grupo e cada individuo aumentem seu espaço de presença. Como recomenda Montesquieu: expandi a dimensão do Ser como entendam fazê-lo e não como terceiros alheios ou próximos estimulam a fazer. Por isso é perigoso neste mundo um pensamento, uma conduta, um sentido existencial terceirizado, não é pela quantidade que o perigo se instala, mas é pelo sentido ilusório de segurança do dito que o medo se espalha e agrava a condição-limite das perspectivas do “outro” caminho.

Há de transpormos a multiplicação de conselhos e ideias desconectadas da realidade, decompor aquilo que Walter Benjamin chamou de “concreto mais extremado”, com a finalidade de apresentar realmente quem nós somos. É urgência lançar base para uma insurreição dos espíritos contra o que Michel Foucault chamou de “negentropia do saber”, porque assim o reconhecimento funcionaria como mola de impacto dos contrários e multiplicação dos pensamentos e realizações do Ser.

O “governo dos espíritos” como diz Guisot, deve ser a insurreição das responsabilidades que fazem as pessoas serem o que são. Da manifestação do reconhecimento e da diminuição dos princípios unívocos utilizados tanto para libertar como para coordenar. Por isso a crença é perigosa em tempos de diversidade social e cultural, ela aniquila a capacidade humana de pensar, substituindo deste terreno zero a criação pela reprodução, e isso é prejudicial porque multiplica ideias fora de lugar e aquelas desconectadas da realidade.

Professa Nietzsche, “os originais foram aqueles que deram nomes às coisas”, cuja retomada dessa afirmação funciona para “dar um sentido mais puro às palavras da tribo” (MALLARMÉ), pois revigora as exigências do ser para além do conformismo ambiente do bem-pensar, concebe uma audácia que leve os indivíduos a expressarem realmente o que querem e vivem em termos conjuntivos e não disjuntivo como prega o pensamento único.

A “crença” presente na balança dos rumos socais quando amplificada ao ponto da personificação confirma aquilo que Paul Valéry fala de “brutalidade do conceito”, que utilizando o idealismo força “a realidade a se ajustar ao molde do espírito” (MAFFESOLI, 2009, p. 47) único, justificando por suas condutas violências empíricas.

Porque, “o ódio diante daquilo que existe é, contudo e acima de tudo, sinal de impotência. Todos os discursos moralizadores, todos os livros de edificação que caracterizam o Republicanismo dos Bons Sentimentos traduzem sempre o fato de que se está ulcerado por aquilo que acontece, isto é, pela vida. Coisa que, aliás, não deixa de ter relação com as ulceras do estomago, doença crônica dos moralistas de toda espécie” (MAFFESOLI, 2009, p. 94)

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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