Foto pra blog  frei adolf

Havia um lugar chamado ABUNDÂNCIA que ficava no município da ALEGRIA. Os habitantes eram filhos de Deus que viviam ali libertos e satisfeitos. Lá morava João Valentino e sua esposa Felicidade com seus filhos, primeiros moradores do lugar. Sr. João nunca pagou renda a ninguém, a não ser os louvores que rendia a Deus.

O Pai deste povo, o Deus de toda riqueza, tinha todo cuidado com seus filhos. Havia plantado um grande palmeiral de côco Babaçu que fornecia a coberta das casas e a cerca dos quintais; que temperava a comida com seu azeite e supria toda necessidade: se faltava algo, a mulher quebrava o côco e comprava o que precisava. O Palmeiral era a vida do povo.

O dono da terra, o Pai de toda bondade, havia plantado uma imensa mata que fornecia a carne da caça. Lá na mata cresciam linheiros os esteios das casas. Lá havia tronco bom para fazer canoas. Lá o mestre carpina achava madeira suficiente para fazer banco e mesa. E o sabiá não parava de cantar, sempre a mesma melodia: Deus é bom. Deus é bom!  A mata era a vida do povo.

O dono da terra, o Criador de tudo, havia destinado uma parte da mata para a derrubada, onde se plantavam os legumes. A mata tinha se sacrificado e, da cinza, a Mãe Terra fazia brotar comida para seus filhos. Na mesa aparecia a alegria do lavrador: arroz com feijão, canjica, pamonha e beiju e ainda melancia e banana como sobremesa. A Terra que ama seus filhos dava com abundância. A roça era a vida do povo.

O dono da terra, o Senhor da Vida, preocupado com a saúde, havia plantado três ervas para cada doença. Os doentes tiravam desta farmácia sem pagar. O mato era a vida do povo.

O dono da Abundancia ainda havia criado um grande lago, alegria dos meninos, que tirava o cansaço do corpo no banho da tarde. O lago lavava a sujeira da roupa e fornecia o peixe na mesa. O lago era a vida do povo.

A Abundancia ficava localizada em algum lugar do município da Alegria que hoje mudou o nome para Tristeza, porque a vida do povo acabou. Dia triste em que alguém invadiu a Felicidade, dizendo: Eu comprei tudo isto! Os surpreendidos diziam aos que chegavam: Acabamos de ser vendidos com tudo, até com as almas do cemitério! – O primeiro que caiu foi o Palmeiral. O povo alugado de vândalos entrou com machado e serra. Junto com as altas palmeiras caiu o ânimo dos moradores, pois o Palmeiral era a vida do povo.

A mata, reserva e dispensa, foi derrubada toda de uma vez e nem teve o direito de dar aos seus filhos nem que fosse uma derradeira safra de arroz, toda condenada que foi ao capim. A Mãe Terra, violentada, chorou. A Mata Virgem virou Virgem das Dores. O sabiá queimou suas asas e mal escapou. Não sei se ainda canta em algum lugar. A caça não sobreviveu, e a carne na mesa faltou. O Sr. João não gosta nem de olhar: a mata desnudada, deflorada e exposta aos olhos perversos do agressor. A pobre mata que era a vida do povo.

A capoeira das roças hoje é uma solta só. Cadê o arroz? Cadê o feijão? Onde se planta o milho e a mandioca? Onde se vê melancia e maxixe? Onde está a roça que era a vida do povo?

E o lago que alegrava os homens: quem ainda pode visitar? O caminho está cortado. Ele transborda de chorar, vendo seus filhos com fome, querendo dar o peixe, mas impedido por mão estranha. Atrás do arame, no cativeiro, lá está o lago que era a vida do povo.

Sim, a vida ficou magrinha e raquítica. A cerca foi avançando, as forquilhas das casas servindo de poste para o arame. O fôlego foi ficando mais curto. O Sr. João nunca se recuperou do choque. Às vezes ele tem que falar com aquele que se diz dono sem ser. Mas toda conversa termina nisto: Eu comprei este lugar, e aqui faço o que quero. – Como podia chegar a este ponto? Uma senhora um dia foi acender vela no cemitério e teve que passar debaixo da cerca com dificuldade, pois as almas partilham com os vivos o mesmo cativeiro. Dona Maria pediu a alma da finada filha: Você que está mais perto de Deus, diga para o Dono da Velha Abundância que sua propriedade está toda invadida.

Gemem teus filhos sem paz e sem pão.
Ouve o clamor que sobe do chão.

Obs: Programa de Ave Maria na Radio Jainara, dia 24 de março de 1983 (Bacabal, Maranhão)

O autor é  Frade Franciscano, nasceu na Alemanha em 1940.
Chegou ao Brasil como missionário em 1964. Depois de completar os estudos em Petrólis atuou no Piaui e no Maranhão. Exerceu trabalhos pastorais nos anos 80 em meio a conflitos de terra. Desde 1995 vive em Teresina no RETIRO SÃO FRANCISCO onde orienta pessoas na busca da vida espiritual.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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