foto josue voeira

A Saudade é alienante, sentido comum de nomear as percepções individuais no ambiente do cotidiano e evocar razões aparentes do Ser; a forma “lembrar” minimiza o alcance do fazer humano, o senso de inovação é recolhido a uma prateleira mofada de nossas boas intenções. Prevalecendo a lógica formal do costume, da tradição, que, diga-se de passagem, é inventada, esculpida na imaginação anônima de todos sobre tudo. Toda forma de sentir Saudade é um panóptico, uma vigilância circundante em si mesma, um vigiar dentro de outros vigiar, em que a capacidade de nominação é o emblema crucial para sentir saudade.

Saudade é um sonho de padaria, o recheio é a realidade, disfarce do Belo; o açúcar por cima é a “nevoa de guerra”, o lógico desconhecido ou o “desconhecido” obvio sob o palio da quietude acalenta os ânimos numa finitude branca do eminente. Somos posse; a Saudade é propriedade, componente básico do patrimonialismo latino americano.

A capacidade evocativa da saudade possui condições e formas de explicar os movimentos sociais no cotidiano, o obvio do fato social presente na Saudade organiza imagens, percepções físicas, imaginações sobre uma dada sociedade. Essa aptidão organizadora serve de alicerce para os sujeitos estabelecerem suas visões de mundo, suas aspirações, serve, bem como, para nomear socialmente os indivíduos num finito fluxo de apropriações ambientais, físicas e estruturais presentes na rotina e nas formas de integração comunitária.

O “apelido” como interface evocativa das visões de mundo trabalha na mesma lógica da Saudade, apesar de ser um ponto delicado, por conta de envolver seres em face depreciativa em que o foco é o adestramento social, um bem-vestir o sujeito social aos olhos do alheio, o “apelido” é relegado à marginalia das investigações sociais. Há uma equivalência entre o “apelido” e a Saudade.

É visível um ponto de toque revelador de um estado quase in natura da sociedade tanto na Saudade quanto no “apelido”, como fosse uma fíbula, quase qual uma raiz de nossas condutas existenciais nas formas de integração comunitária. Por conta disso é que tanto “apelido” quanto Saudade responde à Tradição, não no sentido ideológico (romântico), mas no sentido prático (usual) e social do termo, de que ela é Invenção.

Toda tradição é invenção como conceitua Eric Hobsbawn em “A invenção das tradições”, podemos falar da Saudade neste sentido, similar ao que Benedict Anderson propõem acerca de “comunidades imaginadas”, em “Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo”.

A Saudade é um componente social organizado na modernidade clássica, ela nasce junto com a urbanização das cidades no bojo dos sentidos existenciais de ser-citadino, é criatura da imaginação moderna, infiltrou-se silenciosamente na realidade, criou uma bela e admirável confiança da comunidade no anonimato.

Tomar conhecimento de seus semelhantes é torna-los iguais pelo reconhecimento ao pertencer à mesma unidade de integração que extrapola os limites temporais do momentâneo histórico, findando a ser uma evocação argumentativa sobre a criação das coisas presentes na realidade social.

O “momentâneo” combinado com a crença no “anonimato” constituem a Saudade como característica social de sociedades a partir da modernidade. A imagem difundida em nós sobre ao qual pertencemos a uma sociedade, também nos fazem cúmplices da Saudade, pois ao evocarmos imagens pretéritas pelo “lembrar” e pelo “sentir saudade” trazemos à tona antigas leis, normas e regras sociais, condutas, comportamento e formas de tratamento capazes de reorientar o sentido de origem e pertencimento.

É neste sentido que minha preocupação só aumenta, quando o “lembrar” e o “sentir saudade” torna-se motor de explicações históricas sobre uma dada sociedade, e através dessa condução orienta seus novos viventes a crerem em apenas um núcleo organizador da cultura, da política, da econômica, da vida social, da moda, das formas de religião, das formas e espaços de integração e da nominação do alheio, do outro e do ameaçador. É neste sentido que várias sementes semearão futuros terrenos do reacionarismo e da alienação social, da anomia que nossa descendência herdará.

Essa preocupação não é descabida e muito menos solitária, ela apenas não é confessada, mas todos sentem que essa preocupação já se tornou real, porque hoje a lógica do choque entre classes como fundamento dos conflitos sociais ficou na modernidade clássica, hoje os conflitos são travados a partir da ideia de redistribuição e de reconhecimento social.

Saudade como invenção quanto forma de privilegiar classes pretéritas que se estabeleceram por um tempo como “dominantes” em detrimento das transitórias e efêmeras-permanentes “minoritárias”, trabalha em função de brecar a redistribuição e fatiar o reconhecimento social entre os “eleitos-lembrados” e os habitantes do “reconheça seu lugar”. Resultado de mentalidades sociais que se abasteceram de votos morais dados gratuitamente pela lógica social do “favor”.

Na contemporaneidade “sentir saudade” aponta para essa condição segregadora, apoia votos eternos para com uma elite social, intelectual e cultural deficitária, caquética, dependente de emblemas e tapinhas nas costas, que não gosta de mudança brusca na capacidade de mando e de obediência. Relegando ao esquecimento uma nova realidade nascente nas bordas da cidade e das minorias infiltradoras, dos Silvas.

O que era para ser um marco entre o histórico e o intimo, a Saudade se tornou instrumento de desequilíbrio nas formas de constituição e mobilidade humana nos espaços sociais. Transformou o campo de nossas percepções individuais sobre a sociedade, de nossos sentimentos, um novo campo de batalha de uma antiga guerra de posturas e condutas nascente no desequilíbrio econômico entre sujeitos, no desregulamento distributivo de riqueza entre classes e no esgarçamento da coesão social entre sujeitos.

Se neste estagio o negrume do anonimato tolhe nossas formas de Ser na sociedade, aponta as portas da introspecção pessoal como sociedade alternativa, então estamos na realidade de um dizer de camisa “violência não; tradição sim” e acima desse dizer a imagem da bandeira da armada confederada.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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