Frei Adolfo Temme 1 de fevereiro de 2016

A festa dos sinos   –    26 de set de 2009

Hoje é o dia dos sinos, véspera da grande Festa da Catedral, na cidade de Colonia (Köln) que é chamada de santa. Alguns duvidam desta santidade, mas afinal, qual é a cidade que tem mais de 150 sinos? Eis aí o programa que me veio pela minha irmã: a partir das 19 hs, nove igrejas vão bater os sinos na sequência de 15 min de uma para outra, de torre em torre passando a senha, numa caminhada que termina na Catedral. Pelas 17 hs cheguei na estação do trem, onde Anni me esperava. Pegamos o caminho da beira do rio em clima de festa. Será que os Colonenses vão se abalar com isto? Não parece. Estão por demais acostumados com o fundo sonoro, do qual desaprenderam a linguagem. Poucos peregrinos se dispõem a enfrentar a caminhada da escuta.

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Na expectativa de algum guia, se sentem perdidos. Não tem nem bandeira nem acólito. Será que é de propósito? Não há de ter nem canto nem comentário que distraia o puro escutar. São Severino, bispo de Colônia do quarto século, puxa o primeiro sino. Na frente de sua igreja existe um labirinto trabalhado no calçamento. Entro nos caminhos tortuosos, mas não chego ao centro antes que termine o toque dos sinos. Já se escuta o convite de São Pantaleão, que não permite demora. Mas por onde é? Ninguém o sabe ao certo. Só os sinos estão dizendo: “Por aqui!” È o Invisível que se faz de guia, só pelo som. A gente custa, até desistir do mapa da cidade que só faz atrapalhar. Faz favor de confiar nos teus ouvidos: um sino te chama, agora já são dois, e logo mais se une o terceiro em tríplice harmonia, que muda de volume conforme as aberturas e entraves que encontra nas ruas abertas e nos altos edifícios. Mal saudamos a igreja somos convidados por São Mauricio, onde escutamos não somente a sinfonia que vem da torre como também o canto dos fieis, e gratos levamos a benção da missa que finda.

Já ecoa outro chamado. A paróquia dos dozes Apóstolos convida ao seguimento. Ali temos tempo para pequena demora. O som acaba de chegar na alma que se deixa tocar no seu íntimo. Um mundo sonoro se abre, espalhando harmonia. E esta há de sobreviver quando as dissonâncias de fora voltarem. O instrumento da alma entra na mesma entonação do divino tom de confiança, que ressoa pelos telhados no ritmo seguro do Amor que não falta.  Já se levantam novas vozes daquele que está em toda parte.

São Gereão adverte os caminhantes a seguir na busca: De onde vem o som? Para onde conduz? A razão está fora de área; quem comanda é o ouvido que se treina e aprende a filtrar entre muitos ruídos a voz do Amado que chama. Assim o caminho passa em Santa Úrsula e chega no templo monumental  de São Kuniberto que tem algo especial. Existe um campanário assentado no telhado, que dá o toque de entrada com voz fina e acorda os sinos mais tardios das grandes torres: no conjunto das vozes ele não perde sua vez. O amor de Deus tem muitos componentes. Quando meu ânimo anda nas alturas, prefiro o som agudo do júbilo. Mas os graves não podem faltar, porque o amor atravessa também os vales.

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A silueta de São Jorge está desenhada no céu noturno com a meia lua de lado. A voz do Santo ecoa longe por cima do Rio Rheno. Ele passa a senha para a Catedral a quem todas as igrejas dão a primazia. O esplendor do monumento não obriga ninguém a prostrar-se. Os peregrinos atravessam alegria distraída. Do mesmo modo, os sinos não ocupam os ouvidos à força. Todos são livres para se abrir ao seu efeito. No terreiro da Catedral tem fartura de luz. Os clarões alcançam os 160 m das duas torres soberbas. Pelas suas aberturas se vê o Grande São Pedro, o maior entre os sinos moveis. Em geral, ele deixa falar os outros (seu peso abala as estruturas), mas quando abre a boca, é uma coisa especial, então é para proclamar o Messias com voz poderosa.

O solene toque de São Pedro anuncia a meta da caminhada, a consonância de todas as vozes. 150 sinos de toda cidade se unem para o louvor de Deus, esquecendo os limites das confissões. Não é anuncio da palavra que poderia ter equívocos. Hoje é o anuncio do som que atravessa fronteiras. O sino é um amplificador poderoso que faz vibrar a voz que vem do santuário.  É o próprio Deus que dá o tom, enviando sua palavra que não se dirige às mentes e sim ao íntimo do ser. O sino é um manto protetor. Sua altura alarga seu raio de ação. Quem fica debaixo do sino entra na sua vibração e se afina com o Bem.

O peregrino já pode entrar na casa de Deus como na sua casa. A alegria sobe até as alturas das imensas colunas góticas. As Completas cantadas refletem bem o seu ânimo: MEUS OLHOS JÁ VIRAM A TUA SALVAÇÃO. Mas agora deixa teu servo ir em paz para não perder o trem das dez. Na estação nos despedimos sem palavras. Anni vai para Bergisch Gladbach e eu vou rumo norte. (Dortmund, dia 30 de set de 2009 )

Obs: Frei Adolfo Temme, Frade Franciscano, nasceu na Alemanha em 1940.
Chegou ao Brasil como missionário em 1964. Depois de completar os estudos em Petrólis atuou no Piaui e no Maranhão. Exerceu trabalhos pastorais nos anos 80 em meio a conflitos de terra. Desde 1995 vive em Teresina no RETIRO SÃO FRANCISCO onde orienta pessoas na busca da vida espiritual.

. Imagens enviadas pelo autor.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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