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No princípio era Deus, o autor de todos os tempos. Depois surgiu o relógio que, com o tempo, foi se modernizando. Primeiro veio o relógio de sol, que apenas dividia os dias. Na sequência, apareceu o relógio de água ou clepsidra e o de areia ou ampulheta, um pouco mais aprimorado. Isso foi em torno do ano 400 a.C. O relógio de pêndulo, capaz de registrar com precisão as horas, apareceu somente por volta de 1600 da nossa era, inspirado nas descobertas de Galileu Galilei. A marcação dos minutos deu-se a partir do ano 1700. Os segundos, por sua vez, vieram em terceiro lugar.

A emergência desse equipamento que mede o tempo em pequenas frações coincide com a expansão da modernidade. O invento significou uma verdadeira revolução na história da humanidade. Com o advento do relógio, começou-se a reproduzir calendários e fabricar agendas, sem o que já não conseguimos viver. Assim, podemos organizar melhor nossos eventos e compromissos. Porém, passamos a sofrer uma espécie de ditadura do cronômetro.

Aportamos aos dias atuais com a noção de tempo profundamente alterada. O sociólogo Anthony Giddens diz, por exemplo, que a modernidade avançada – a mesma que alguns chamam de pós-modernidade – arranca de modo crescente o espaço de dentro do tempo, fomentando relações entre “ausentes”. O relógio, acelerado pelos tempos modernos, revolucionou também o metro, medida definida em 1799 como sendo a décima-milionésima parte da distância entre o Pólo Norte e a linha do Equador

Vivemos hoje um clima de “esvaziamento do tempo”, que acaba gerando também uma sensação de “esvaziamento do espaço”. Nas grandes cidades esse fenômeno é ainda mais perceptível. O autor citado fala que existe mesmo um “desencaixe” na engrenagem entre tempo e espaço, o que influencia de modo profundo a vida humana. Experimentamos uma inédita relação entre o local e o global. Passamos a viver glocalmente, isto é, radicados num local, mas às voltas pelo mundo globalizado e globalizante.

Em conseqüência desta “ordem” das coisas, surgem novos modos de relação entre as pessoas. Relações mais virtuais que presenciais; mais efêmeras que duradouras; mais plurais, anônimas e descomprometidas que em outros tempos. Estamos vivendo a globalização sedentária, mórbida, alucinante e estressante, algo inédito e inusitado. Por um lado, o mundo parece cada vez mais complexo. Por outro, a técnica avança a passos largos na notável tentativa de simplificá-lo.

O que estava fora de cogitação até pouco tempo, agora é real. Uma das grandes novidades consiste precisamente no fato de que muitas coisas são reais na própria condição de virtuais. O mundo moderno não sabe mais viver sem suas virtualidades. Muito do que parecia impossível tornou-se possível. Outras coisas acabaram ficando de lado porque não estão na “rede”. O que era supostamente complexo tornou-se aparentemente simples.  Contudo, quem não consegue entrar no sistema, passa a ser considerado um “zero à esquerda”.

A tecnologia associada à informática eliminou qualquer distância. Agora os acontecimentos podem ser acompanhados em tempo real. O telefone celular significou uma das últimas inovações, juntamente com a internet e todos os seus recursos. Com tais ferramentas, estabelecemos contatos e temos acesso às informações que desejamos, em qualquer hora e lugar. Mas, isso não garante que estejamos nos comunicando mais e melhor.

Embora próximos – muitas vezes lado a lado – podemos nos achar separados, distantes, noutro mundo. A modernidade e a globalização ressaltaram e estão levando ao extremo esses contrastes. Há uma revolução sobre a geografia física, social e humana mundial, como também sobre as instituições, as ideias, os valores e os paradigmas. Nesse emaranhado, uma questão está sempre posta: para onde vamos, agora que o tempo se foi para o espaço? (01.12.2010)

Obs: O autor é Doutor em Sociologia, pós-doutor em Educação e professor da Universidade Federal do Sul da Bahia.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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