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Nascemos suficientemente velhos para morrer. A consciência desta condição nos coloca questões de fundo como: De onde viemos? Para onde vamos? Qual o sentido da vida? Como nos relacionamos com os outros, com Deus e conosco? Como enfrentar a dor, a doença, a velhice e a própria morte, se ela é inevitável? Essas interrogações criam em nós uma tensão existencial que pode se transformar em medo, insegurança, sofrimento e até desespero. Para além das significações subjetivas, o fato é que ‘somos pó e ao pó retornaremos’ (Gn 3,19). A morte nos envolve por inteiro. Comporta questões de ordem econômica, política, social, psicológica cultural, religiosa etc.

A cultura ocidental, materialista e racionalista em que vivemos tende a negar, esconder e disfarçar de várias formas esse fenômeno, valorizando, por exemplo, a idéia de beleza e juventude eterna. Tem dificuldades de lidar com a morte e, inclusive, com o “lugar dos mortos”, onde as diferenças sociais continuam a se reproduzir. “Quem faz os cemitérios não são os mortos, mas os vivos. E fazem-nos não apenas para os mortos, mas também (para não dizermos, sobretudo) para os vivos. Por isso, a organização da “cidade dos mortos” (com as suas avenidas, os diferentes tipos de “habitações” que contém, a forma de as embelezar, as suas relações de vizinhança, a hierarquização dos seus espaços) obedece a critérios semelhantes à da “cidade dos vivos”. Assim, os cemitérios funcionam como espelho das aldeias, vilas ou cidades que os produzem. (…) O cemitério é uma cidade que os vivos constroem para os mortos à semelhança da sua”[1].

Com o objetivo de lembrar a transitoriedade da vida, no século XVII foi construída em Évora, Portugal, a Capela dos Ossos.  Na entrada, encontra-se o célebre anúncio: “Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos”. Em se tratando de epitáfios, o poeta Mário Quintana, em seu túmulo, preferiu: “Eu não estou aqui”. Na verdade, o significado da morte depende muito do sentido que damos à vida. Algumas culturas são capazes de se relacionar melhor com a vida e também com a morte. Por exemplo, os povos indígenas lidam com ela como algo natural, despidos de fatalismo. “A morte é mais fácil quando a vida é bem trabalhada. Viver bem ajuda a morrer bem” (Lúcio Flores, índio Terena). Ao abordar a questão da morte e as atitudes que assumimos perante ela, é da vida que estamos tratando, pois esta é que, acima de tudo nos interessa.

A temática da vida para além da morte é enfatizada nas reflexões da semana santa, a partir do episódio da condenação de Jesus, o Mártir dos mártires. Vítima de um processo político e outro religioso, foi condenado à morte pelo método mais cruel da época: a crucificação. Porém, antes disso, Ele afirmou: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e acredita em mim, não morrerá para sempre” (Jo 11, 25-26). Desse modo, sintetiza o significado da vida e lhe dá uma perspectiva de eternidade, como também fica claro nas palavras proferidas diante de Pilatos: “O meu reino não é deste mundo…” (Jo 18,36).

Atualmente, ao buscar seus objetivos, o capitalismo acaba por estimular uma “indústria de morte”, como se pode ver por toda parte. As Nações Unidas calculam que 25 mil pessoas morrem de fome por dia em todo o mundo. Já a ONG Human Rights Watch estima que, no Brasil, ocorram cerca de 50 mil homicídios por ano. A mesma fonte aponta que, de janeiro a junho de 2008, no Estado do Rio de Janeiro houve 757 mortes em decorrência da ação policial. Conforme a Comissão Pastoral da Terra (CPT), no meio rural, em 2007, foram assassinadas 28 pessoas em função de conflitos agrários. Como podemos perceber, muitos são os números que revelam a cultura da violência e da morte à qual estamos submetidos.

Entre as vítimas do sistema, encontram-se muitos mártires em toda a América Latina. Eles são expressão de resistência às injustiças e apontam caminhos de esperança, como testemunhou D. Oscar Romero: “Se me matarem, ressuscitarei na luta do povo”. Por outro lado, os mártires ressaltam a necessidade de ajudar a descer da cruz os povos crucificados de nosso tempo, como entende o teólogo Jon Sobrinho. O tema em si nos remete a pensar sobre a vida que temos e a sociedade que queremos construir. A seu modo, o próprio Che Guevara reportava-se a isso quando dizia: “Os poderosos podem matar uma, duas ou até três rosas, mas jamais poderão deter a primavera”.

Se nossa vida biológica consiste em morrer um pouco por dia até acabar de morrer, nossa vida espiritual se desencadeia num processo inverso: podemos ressuscitar aos poucos até acabar de ressuscitar. O desafio é fugir do fatalismo e derrotismo e lutar para que haja ‘vida em abundância para todos’ (Jo 10, 10). Para não sermos devorados pela morte, precisamos decifrar o sentido da existência humana neste mundo e para além dele. Significa dizer que a vida não pode ser diminuída, contida ou tolhida por nenhuma estrutura, poder ou força. Afinal, a vida digna deve prevalecer sobre todos os tipos de morte! (Em co-autoria com Antonio Alves de Almeida) (04.04.2009)

Obs: O autor é Doutor em Sociologia, pós-doutor em Educação e professor da Universidade Federal do Sul da Bahia.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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