Jose-Alberto

Ex-Director do INETI (Coimbra)
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Do Dilúvio à Gruta da Natividade

A liberdade é uma pretensão social que nasce na adolescência, imbuída do desejo de se ser dono da própria existência, desejo que estiola na velhice, quando a luta pela vida dá lugar ao aconchego da solidão, não raramente enxertado de memórias e de formas variadas de perscrutar a morte. Face a esta singularidade, não é fácil encontrar explicações científicas para muitos textos da bíblia (velho e novo testamentos), muito embora existam tentativas de especialistas dados às ciências naturais e às ciências exactas. Relativamente ao velho testamento, a questão do dilúvio e da arca de Noé é um bom exemplo e em relação ao novo testamento, o suporte científico para a identificação da estrela que guiou os magos até à gruta da natividade é outro bom exemplo. A questão do dilúvio prende-se com problemas ligados à geologia, biologia e antropologia e a questão da estrela que guiou os Magos até à gruta da natividade está relacionado com fenómenos do domínio da astronomia.

 É sabido que a linha evolutiva que conduziu ao aparecimento do homem não tem a ver com o criacionismo, mas sim com a teoria evolucionista de Darwin, a que está ligado um historial que começou em África (região dos grandes lagos) e migra para norte em direcção à Ásia e Médio Oriente e daqui para a Europa. Localizado num espaço da geohistória, sujeito a enormes variações climáticas (glaciações, interglaciações e pluviais), as transformações morfológicas e petrográficas sofridas pelos terrenos marcam o fácies das diversas fases dos ciclos sedimentares. Deste modo, é de admitir que o dilúvio bíblico possa ter ocorrido, por exemplo, depois da última grande glaciação, a que corresponde uma pronunciada fase transgressiva provocada não só pelo degelo, mas também por intensa pluviosidade e daí a evocação simbólica do episódio da Arca de Noé.

Quanto à estrela que guiou os Magos à gruta da Natividade, a clarificação parece mais precisa, mas é muito polémica. Desde Kepler (séc.XVII) que existem interpretações centradas ao redor da conjunção de planetas associadas a constelações estelares, no aparecimento de supernovas motivadas pela explosão de estrelas, da passagem de cometas e de outros fenómenos do domínio da cosmografia. Estas interpretações têm falhas temporais e não conseguem explicar o estranho movimento da estrela de Belém, que teria motivado em primeiro os magos a caminharem de oriente para ocidente até Jerusalém e depois de norte para sul até Belém. Mais recentemente, apareceram dois livros que actualizam as interpretações. Um deles é de Mark Ridger, astrónomo britânico e o outro de Michael Molnar, astrónomo norte-americano.

Segundo Ridger existem quatro sinais que marcam o trajecto dos magos. Primeiro a conjunção de Júpiter e Saturno, que se registou no ano 7 a.C. na constelação Peixes, signo da Judeia. O alinhamento dos dois planetas no mesmo meridiano, um por debaixo do outro, despertou o interesse dos Magos que viviam sob influência da astrologia grega e romana. O segundo sinal foi o agrupamento de Júpiter, Saturno e Marte, no ano seguinte, também posicionada em Peixes. O terceiro sinal foi a conjugação de Júpiter e da Lua, que se realizou em Fevereiro de 5 a.C. na mesma constelação. Estes eventos teriam levado os Magos da Pérsia a Jerusalém. O quarto sinal seria uma explosão estelar, uma nova ou supernova, constante de registos chineses. Chegados a Jerusalém, pelo movimento natural dos céus, a nova, que teria sido vista a oeste durante a madrugada, apareceria agora a sul, rumo a Belém.

Contudo, Molnar afirma que o signo da Judeia não é a constelação Peixes mas Carneiro e cita dezenas de autores, enquanto Ridger se baseia exclusivamente no testemunho do rabi Abarbanel, sefardita espanhol do século XV. A explicação de Molnar é inovadora e baseia-se na leitura de edições antigas do Evangelho de Mateus escritas em grego. Molnar mantém que a estrela é o planeta Júpiter, que teve uma conjugação com a Lua em Abril de 6 a.C. na constelação Carneiro. Esta conjugação não é visível pois ocorre perto do Sol, mas a interpretação em grego, leva o raciocínio por outros caminhos. A frase «vimos a sua estrela no oriente» significaria viu-se a estrela nascer a oriente do Sol, ou por outras palavras viu-se o planeta Júpiter antes do Sol. Quando o texto bíblico afirma que a estrela «ia adiante» e «parou», quer dizer (Júpiter) seguia o movimento retrógrado de leste e depois ficou estacionário, o que terá ocorrido em Dezembro do mesmo ano, antes de recomeçar o respectivo movimento aparente e normal, de oeste para leste.

E por estes acertos e desacertos, imbuídos de muita pesquisa, estudo e de cogitações sérias, mas também de imaginações figurativas, continuo a pensar que a bíblia (velho e novo testamento) é um documento sobre a história da religião judaico-cristã, recheado de metáforas que ajudam a distinguir os bons e os maus caminhos da vida humana, e nada do que nele vem escrito tem a ver com ciência, (geologia, biologia, astronomia e outras), mas somente com simbolismo religioso, amor, fraternidade e, obviamente, um pouco de literatura também. As religiões são capítulos da História Universal e, entre as diferentes formas de sondar o que está para lá da vida, encontram-se configurações de misticismo, destacando, entre os místicos ligados à Igreja Católica, o monge trapista Thomas Merton, que narra a sua experiência numa série de obras entre os quais destaco “Noite Sem Estrelas”. A alma de um monge pode ser uma gruta da natividade, mas o Natal nunca eclode pela via da razão, tanto mais que em questões de fé, a verdade usa brincar com a ciência. Sempre que alguém dá um passo em frente no sentido de desvendar a verdade, esta dá um passo atrás conservando intacta a dimensão da nossa ignorância.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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