Emanuela Cristo  Quaresma

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Parte IV – “O ESPÍRITO LEVOU JESUS PARA O DESERTO” (MC 1,12)

Situando-nos

A Quaresma foi inaugurada com a celebração da Quarta-feira de Cinzas. Ressoou, mais uma vez, em nossos ouvidos, o convite de percorrer um itinerário pedagógico e catequético, que nos faz penetrar nos grandes eventos da história da salvação.

Durante as cinco semanas da Quaresma, na liturgia da Palavra, escutamos e atualizamos os textos bíblicos, que eram fonte de estudo e compromisso dos catecúmenos, nos primeiros séculos do cristianismo.

Neste primeiro domingo, conduzidos pelo Espírito, vamos com Jesus ao deserto. Com ele, seremos tentados, testados, postos à prova.

Damo-nos conta de que as leituras apresentam uma forte conotação batismal: a Quaresma tem caráter essencialmente batismal, o qual fundamenta o seu caráter penitencial.

Na Quaresma do Ano B, comemoramos a restauração do ser humano em Cristo morto e ressuscitado. Após o batismo no Jordão, Jesus é impelido pelo Espírito Santo ao deserto. Antes de significar a morte, o deserto significa lugar de encontro com Deus. Todavia, este encontro supõe luta: é o momento da tentação. A partir daí, Jesus inicia a grande luta da libertação da humanidade. Ele sai vitorioso e nos faz vencedores por sua morte e ressurreição.

A CF 2015 nos pede discernir como apresentar de um modo claro e objetivo os valores do Reino de Deus, como elementos autenticamente humanizantes[1]. Tais valores se opõem aos do grande adversário, satanás, aquele que divide e tenta desvirtuar o plano de Deus.

 Mudando radicalmente nossa mentalidade de acordo com a proposta do Evangelho, vencendo as forças do mal, estaremos vivendo e apresentando os valores do Reino, como discípulos e discípulas, que se consagram à meditação da Palavra de Deus, que instrui e converte.           

Recordando a Palavra

A nova Aliança de Deus com a humanidade, realizada na morte e ressurreição de Cristo, fora prefigurada na Aliança de Deus com Noé, salvo das águas do dilúvio (1ª leitura: Gn 9,8-15). Para os povos antigos, a água, especialmente a água dos grandes mares e rios, era símbolo de caos, de perigo e morte. Ser libertado da água significava ser salvo.

O dilúvio de que fala a narração de Noé simboliza o caos do pecado. Noé e sua família foram salvos e Deus fez uma Aliança com ele, e não só com ele, mas com toda a criação, com todos os seres vivos. É uma aliança universal e eterna. Deus não romperá seu pacto. O arco-íris é o símbolo da Aliança de Deus com a humanidade. é o símbolo do compromisso divino com a vida. E para nós, quais são, hoje, os sinais de que Deus é nosso parceiro na luta pela defesa da vida?

Neste texto do livro do Gênesis, proclamado no primeiro domingo da Quaresma, temos uma imagem do batismo: salvos pela água, Deus faz aliança conosco.

Com o Sl 25(24) cantamos a fidelidade do nosso Deus. Que sua verdade e seu amor nos orientem e nos conduzam para sermos fiéis à sua Aliança.

  Na segunda leitura (1Pd 3,18-22) Pedro também se refere às águas do dilúvio, ligando-as às águas do nosso batismo. É de grande importância esta espécie de profissão batismal, que descobrimos no texto: “Cristo morreu, uma vez por todas, por causa dos pecados, o justo pelos injustos” (v.18a); “ele recebeu nova vida pelo Espírito” (v.18b). “No Espírito, ele foi também pregar aos espíritos na prisão” (= “mansão dos mortos”) (v.19). “Subiu ao céu e está à direita de Deus” (v.22a).

 No tempo em que esta carta de Pedro foi escrita, os cristãos eram minoria, mas são justamente eles que provocam na humanidade inteira o confronto com o Evangelho de Jesus. A identidade e a missão dos cristãos surgem daí e darão origem a novas criaturas e a nova humanidade. Pedro explica que esta novidade se realiza pela purificação batismal (simbolismo do dilúvio) que nos torna aptos a viver segundo uma boa consciência, nos confere uma identidade nova, torna-nos pessoas novas.

No Evangelho (Mc 1,12-15), escutamos as primeiras palavras que Marcos colhe da boca de Jesus: “o tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!” (v.15). Isso, depois que Jesus, levado pelo Espírito para o deserto, lá permaneceu quarenta dias, foi tentado por satanás e enfrentou os animais selvagens (v.12-13).

É o início do evangelho, da boa notícia proclamada por Jesus: “convertei-vos”! Conversão é mudança de atitude que se manifesta na prática. Deus quer estar junto de seu povo – o Reino de Deus chegou – e por causa desta iniciativa de Deus, que se volta para nós, devemos voltar para ele.

Marcos liga imediatamente ao batismo de Jesus, que é o início de sua missão, o episódio da tentação (v.12-13), o que indica que ele vê, como ponto fundamental da missão do Filho de Deus, a luta contra satanás. Vencendo o demônio, Jesus anuncia a salvação, dá início ao Reino de Deus (v 14-15). Este anúncio exige de nós uma mudança de mentalidade, uma “virada”, um afastamento do caminho habitual e uma volta para outra direção. Esta mudança, esta conversão procede da fé: crer no evangelho (v.15b).

É sempre ilusório crer-nos convertidos de uma vez por todas. Não somos nunca simples pecadores, mas pecadores perdoados, pecadores-em-perdão, pecadores-em-conversão. Converter-se significa recomeçar sempre de novo esta mudança interior, por meio da qual a nossa pobreza humana se volta para a graça de Deus. Antão, patriarca e pai de todos os monges, dizia de modo lapidar: “cada manhã me digo: hoje, começo”. E Abba Poemen, o mais famoso dos padres do deserto depois de Antão, quando, à beira da morte, era elogiado por sua vida virtuosa, que o colocava na condição de apresentar-se diante de Deus com extrema tranquilidade, respondeu: “Devo ainda começar, estava apenas começando a converter-me”, e chorou.

Hoje o tempo nos é concedido para conhecermos melhor a Deus: é sempre um tempo de conversão e de graça, dom de sua misericórdia.

Atualizando a Palavra

Neste domingo do deserto de Jesus, também nós somos conduzidos com ele pelo Espírito. Ir para o deserto, permanecer no deserto supõe disponibilidade para se deixar conduzir pelo Espírito, em solidariedade com Jesus e com o povo dos crentes. O deserto não é casa para ser habitada, mas espaço que se tem de atravessar para realizar uma forte experiência espiritual, que torne mais verdadeira a relação com Deus e com os irmãos.

 No deserto, Jesus é tentado. Portanto, o deserto não é a fuga da tentação. Jesus se retira para o deserto para escapar do messianismo triunfalista, que as multidões, sob a direção de satanás, pretendem impor-lhe. Jesus quer que o deserto seja o símbolo do espaço infinito que separa Deus do homem pecador. Esta distância só é superada por meio do lento caminho da fé.

A Quaresma é caminho de fé, que percorremos guiados pelo Espírito. Deus nos chama ao deserto para renovar a sua Aliança conosco. Estamos prontos para renunciar, para esquecer o que ficou para trás a fim de alcançar o Cristo, como fomos alcançados por ele? (cf. Fl 3,12-13) Estamos dispostos a levar a sério a renovação da Aliança com Deus?

 Somos convidados a deixar as tentações das alianças do mundo do pecado e a viver os compromissos do batismo, que nos inserem no mistério da morte e ressurreição de Cristo. Quem vive o batismo assume o projeto libertador de Jesus, que é o caminho de volta para Deus. Os frutos concretos da conversão, da vitória sobre as tentações são a partilha dos bens com os irmãos necessitados, a vivência de uma religião que se compromete com a vida. Meios excelentes que nos colocam neste caminho de conversão são a escuta da Palavra de Deus, a oração e o jejum.

A CF deste ano, evidenciando o binômio, Igreja-Sociedade, nos exorta a aprofundar a compreensão da dignidade da pessoa. Fazer alianças com o poder do mal, deixar-se conduzir pelas insinuações de satanás, apoiar estruturas político-sociais que geram a morte é opor-se aos compromissos batismais, que valorizam a pessoa como um todo. Já descobrimos quais são as tentações mais frequentes, hoje, em nosso mundo? Já refletimos sobre os tipos de aliança que fazemos em nosso dia-a-dia, na prática? Com que projeto de sociedade sonhamos? Que sociedade nós queremos de verdade?

Ligando a Palavra com a ação eucarística

 A liturgia deste domingo faz memória de Jesus que, tentado, é servido pelos anjos, ou seja, é sustentado pelo próprio Deus, que o declarou seu Filho e Servo para instaurar o Reino. Sua obediência ao Pai até o fim trouxe para nós a justificação.

 Iniciando com Jesus, a caminhada quaresmal, nos reunimos para escutar atentamente a sua Palavra, que nos convoca a renovar os nossos compromissos batismais e a nossa fidelidade ao Deus vivo e verdadeiro.

 Pelo batismo, somos participantes da reconciliação do sacrifício realizado, uma vez por todas, por Cristo, e atualizado na eucaristia que celebramos. Na eucaristia, renovamos a aliança com Deus, expressamos e vivenciamos o mistério pascal com os mesmos ritos deixados por Jesus na última ceia ao profetizar sua morte.

 Ao celebrarmos seu memorial – “Façam isto em minha memória” – tornamo-nos misticamente participantes do fato da história da salvação que recordamos e anunciamos: somos associados à morte e ressurreição de Cristo, pelo Espírito que nos impulsiona para a missão a serviço do Reino que há de vir e que já está entre nós.

 É ao projeto de Deus, anunciado e realizado na pregação e na prática de Jesus, que queremos servir, e não ao poder do mal. A vitória de Jesus sobre todo mal é o grande motivo de ação de graças e louvor ao Senhor, nosso Deus. No prefácio, o presidente reza em nome de toda a assembleia: “Jejuando quarenta dias no deserto, Jesus consagrou a observância quaresmal. Desarmando as ciladas do antigo inimigo, ensinou-nos a vencer o fermento da maldade. Celebrando agora, o mistério pascal, nós nos preparamos para a Páscoa definitiva”.

Sugestões para a celebração

 1. Para marcar ainda mais este tempo quaresmal, a comunidade poderia se reunir na frente da igreja, ao redor de uma grande cruz. O presidente da celebração convida a comunidade a fazer a caminhada quaresmal assumindo os apelos de conversão em sua vida pessoal, familiar, social e comunitária, a partir do sentido da liturgia da Palavra deste primeiro domingo. A seguir, se faz a procissão de entrada entoando um canto que expresse a caminhada rumo à Páscoa, carregando a cruz, que será colocada em lugar de destaque previamente preparado.

2. Neste tempo forte da Igreja, intensificamos nossa vida de oração em forma de súplica e pedido de perdão. O ato penitencial, entremeado de intervalos de silêncio, que eventualmente poderá ser deslocado para depois da homilia, ajudará a revermos nossa vida na perspectiva das leituras da liturgia da Palavra deste domingo.

3. É importante recordar que a Quaresma é um tempo próprio para a comunidade participar de celebrações penitenciais como a confissão individual ou comunitária, a via sacra, círculos bíblicos, encontros que aprofundem a Campanha da Fraternidade.

[1] Cf Texto Base da CF 2015, 2º Objetivo específico.

Obs: a) publicado pela CNBB nacional.
b) Com autorização da autora, alguns subtítulos foram alterados para a postagem.
c) imagem enviada pela autora (retirada da internet)

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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