Lourença  As vezes os anjos

quando a chuva vinha forte
minha avó esquecia o reumatismo e corria

guardava facas e cachorro e livros
e nos enrodilhava junto às contas do rosário
debaixo de sua saia florida

meu avô cobria os canários belgas
resmungando contra a miopia dos anjos
que teimavam em acender caminhos na terra

a tempestade tinha cheiro de dália
rasgava pedaços do céu
e nos ignorava

ignorava as mil ave-marias
a timidez das velas de cera
e nosso medo sufocando a roupa de escola

durava durava durava até a chuva morrer

então a vida voltava mais nova
a laranjeira brilhava forte em nossa fome
o colorido das dálias acendia nossos olhos
e até o sabiá parecia cantar mais longe
bem longe da saia de minha avó

e nós crescíamos mais alguns centímetros
na coragem que o sol nos emprestava

da tempestade só ficava a miopia dos anjos

19.12.14

Obs: Imagem sem autoria (enviada pela autora)

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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