Para uma mãe, não existe filho ruim.

1. Uma vez, alguém perguntou se uma mãe teria preferências por um filho e menos atenção para os outros. Provavelmente, levado pelo senso comum, a maioria aponta certos indícios superficiais para comprovar essa afirmação. Mas, quando se pensa bem, se percebe que o tema é bem mais complexo. Afirmar que uma mãe ama mais um filho que outro pode ser uma injustiça ou, no mínimo, uma irresponsabilidade.

2. Lembro-me de uma mãe, que cada vez que um filho insinuava essa acusação, ela refutava, de cara, dizendo que amava igualmente cada filho e cada filha. É fácil constatar o imenso carinho da maioria das mães, quando vão visitar seus filhos presidiários. Para elas, esses condenados que a sociedade tacha de bandidos, sempre continuarão seus filhos queridos, apesar do grande desgosto que lhes causam.

3. É conhecido o caso de um famoso preso, odiado pela polícia e pela sociedade que mais uma vez pego e castigado pela polícia, foi algemado semimorto, à cama de um hospital. Sua mãe soube e veio visita-lo. Quando perguntou por fulano de tal todos disseram que apenas tinham notícia de um grande bandido. Ela, de imediato, retrucou: ele não é um bandido, ele é meu filho. Dizem que o filho, como que em um sonho, teria escutado essa resposta da mãe e dentro de si, decidiu regenerar-se.

4. Seria superestimar a compreensão das mães afirmar que elas chegaram à profunda formulação dos sábios quando dizem que a pessoa, porque ama igualmente toda pessoa, ama diferentemente cada uma delas; pois, não se pode amar, igualmente, seres que são diferentes. Difícil dizer se ela chegou a tal compreensão do amor, mas nunca se sabe. Ela mesma desconfiava que banco de escola não ensinava tudo.

5. Recordo-me vivamente, a dedicação extremada da mamãe, quando a Hortência caía em preocupantes crises de asma. Durante toda a noite, ela a segurava no colo e nos fazia esquentar pano após pano, na esperança de aliviar os acessos da doença. Essa atenção especial não indica preferência, apenas diz que há momentos, onde se deve priorizar a parte necessitada. No corpo, os órgãos se juntam para sarar a parte ferida.

6. É comum confundir amar com gostar de alguém. Gostamos de pessoas com as quais nos sentimos bem – sem explicações. Já amar é fazer de tudo para que a pessoa seja feliz, cresça, se desenvolva, mesmo se não entenda ou não corresponda. O paraíso é amar a pessoa que a gente gosta. Acho que acontece com as mães. Amam e gostam de cada filho. E por conhecê-los bem, fazem isso de forma adequada, personalizada.

7. A atitude dos filhos para com sua mãe, vem marcada pela ambiguidade de todo bem querer. De um lado a gratidão, de outro a mesquinhez. O puro afeto também quer sugar a atenção e achar uma aliada na disputa natural dos irmãos. Talvez as cobranças e manifestações de “inveja” sejam o choro de quem perdeu, temporariamente, nesse conflito pelo poder e reconhecimento que constroem a história da irmandade da família.

8. Seria ingênuo achar que a mãe não tem interesses. Pois, o que marca as pessoas, além dos traumas e tropeços da vida, é a sua incompletude, nas diversas dimensões. A mãe também luta por carinho, realização, reconhecimento… O admirável nela, porém, é sua capacidade de recolher os cacos e refazer a vida, apesar e através de tudo. É essa sua estranha mania de entrega pelos amados, mesmo que lhe custe a vida.

 20 de Agosto, 2014.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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